Cineasta itabirano Breno Alvarenga constrói carreira entre formação, editais e set de filmagem
Diretor relembra a infância em Itabira, a escolha pela UFMG e a virada que o levou da publicidade ao audiovisual, com projetos atravessados pela pandemia e pela animação
Cineasta itabirano, Breno Alvarenga construiu sua trajetória no audiovisual a partir de um percurso que combina formação acadêmica, circulação por editais públicos e experiência prática no set de filmagem. Formado em Comunicação Social pela UFMG, com passagem pelo mercado publicitário e pós-graduação em cinema, o diretor desenvolveu uma filmografia marcada por investigações sobre memória, identidade e território, transitando entre documentário, ficção e animação. Ao longo dos últimos anos, seus projetos foram atravessados por mudanças de linguagem, pelo impacto da pandemia e pelo aprendizado sobre os mecanismos de fomento à cultura, elementos que ajudam a compreender o cinema que ele realiza hoje.
Nascido e criado em Itabira, Breno deixou a cidade aos 17 anos, quando se mudou para Belo Horizonte para concluir o ensino médio. A ideia de seguir no audiovisual já estava no horizonte e, ainda adolescente, ele testou caminhos fora de Minas. Chegou a prestar vestibular para cursos ligados ao cinema, inclusive no Rio de Janeiro, mas recuou na hora de trocar a casa e a rede de apoio por uma vida sozinho em outra cidade. A escolha pela UFMG, onde se especializou em Publicidade, veio como alternativa possível para manter o campo criativo por perto.
A trajetória, no entanto, não foi uma linha reta. Dentro da universidade, Breno conta que foi “montando” o próprio caminho por meio de disciplinas eletivas e optativas que o aproximavam do audiovisual. Ele se apoiou na liberdade curricular e em professores ligados ao cinema e à produção de imagens, ao mesmo tempo em que tentava entender que lugar o cinema ocuparia na sua vida. A prática apareceu em exercícios e curtas acadêmicos, e também no TCC em formato documental, “Fuso Horário”, que aborda experiências de intercâmbio acadêmico.
Ao sair da graduação, o mercado levou Breno para as agências de publicidade, onde o cineasta passou por experiências que ele reconhece como importantes do ponto de vista técnico, mas insuficientes para o desejo de criar cinema. Com o tempo, a sensação de seguir um trilho que o afastava do que considerava essencial ganhou força. “Trabalhava, aprendia, crescia, mas sentia que não era ali que eu queria estar.” Foi nesse contexto que o mestrado surgiu como possibilidade de retorno, não pela filmagem imediata, mas pela pesquisa e pela escrita.
“O mestrado veio num momento de uma certa urgência. Eu formei em 2015 e fui trabalhar em agência, fiquei nesse automático. Em 2017, eu me vi há dois anos nesse mercado de marketing e publicidade e um pouco infeliz. Eu não conseguia me encontrar ali. Ao mesmo tempo, eu percebi que, se continuasse, ia só crescendo naquela carreira. Então eu mesmo precisava dar um chega nisso.”
Em 2018, Breno foi para Recife, onde desenvolveu sua pesquisa de mestrado a partir da obra de Kleber Mendonça Filho, buscando compreender como a cidade se inscreve na linguagem cinematográfica. Para ele, estar no território pesquisado foi decisivo. “O Recife aparece vivo nos filmes dele”, observou. No retorno a Belo Horizonte, já no início de 2020, a prática cinematográfica seguia como um desejo adiado, mas reacendido. Estudar cinema, naquele momento, funcionou como uma forma de lembrar por que filmar ainda fazia sentido.
A pandemia, no entanto, atravessou o instante em que o retorno ao set parecia mais próximo. Com projetos aprovados e recursos já captados, a suspensão das gravações desorganizou cronogramas, alterou o tempo dos roteiros e exigiu reescritas profundas. Desse impasse surgiu uma mudança não planejada, mas decisiva. Um filme concebido como live action foi transformado em animação por necessidade sanitária e acabou revelando uma linguagem mais adequada ao tema trabalhado.
“Eu tive dois projetos aprovados para gravar, com dinheiro já na conta, e eles ficaram parados. Um deles eu fui filmar só em 2023, mesmo com o recurso liberado em 2019. E o outro, O Destino da Senhora Delage, não era para ser animação. Ele ia ser um live action, com uma idosa. A gente percebeu que não dava para colocar uma mulher de 80 anos num set durante a pandemia. A animação veio daí e, nesse caso, funcionou muito melhor.”
Segundo Breno, a escolha pela animação ampliou as possibilidades poéticas do filme, permitindo explorar memória e subjetividade de forma mais sensorial. “Ele lida com perda de memória, e a animação te permite trabalhar melhor com imagem e som. Eu perdi um filme, mas ganhei outro”, afirma. A experiência abriu uma nova frente de trabalho e, atualmente, ele finaliza uma segunda animação, agora em stop motion, o que amplia seu repertório e desloca o entendimento do que ele próprio imaginava ser o seu cinema.

A trajetória de Breno passa também pelo aprendizado de como viabilizar projetos culturais no Brasil. O diretor conta que demorou a perceber o quanto o cinema exige domínio de uma dimensão burocrática que corre em paralelo ao processo criativo. Esse aprendizado ganhou forma durante a realização do documentário Entre Amazonas e Tupis, sobre o Bar do Nonô, no Centro de Belo Horizonte. O projeto combinou financiamento coletivo e mecanismos de fomento e funcionou como escola prática sobre orçamento, cronograma, prestação de contas e responsabilidade pública.
Para ele, esse período marcou uma virada também na forma de compreender o debate sobre leis de incentivo. Breno avalia que parte da rejeição social a esses mecanismos nasce do desconhecimento. “As pessoas criticam sem entender como funciona”, diz. Segundo o cineasta, conhecer o sistema por dentro muda tanto a relação com a autonomia artística quanto a percepção do compromisso envolvido na gestão de recursos públicos.
Breno considera que editais não são simples e que a curva de aprendizado costuma ser longa, sobretudo para quem está começando. A linguagem é específica, a concorrência é alta e o histórico pesa na avaliação, elementos que, segundo ele, fazem parte de uma estrutura que lida com dinheiro público e precisa de garantias para execução dos projetos.
Ao longo da entrevista, Itabira aparece como origem estética recorrente. Breno descreve uma infância atravessada pela arte, tanto na escola quanto fora dela, e fala da presença de Carlos Drummond de Andrade como algo incorporado ao cotidiano da cidade. Mais do que um símbolo, o poeta aparece como memória concreta de leituras, apresentações e práticas que moldaram o olhar.
“Eu acho que grande parte da nossa criatividade e da nossa forma de ver o mundo é moldada na infância e na adolescência. A pessoa artística que eu sou hoje vem muito do Breno criança e adolescente de Itabira. É uma cidade onde a gente já nasce respirando poesia. A gente lia Drummond na escola, decorava poemas, fazia apresentações. Isso foi me dando um olhar mais sensível, e desde cedo eu entendi que minha forma de estar no mundo era pela criação.”
Esse “estar no mundo” pela criação ajuda a entender como o cinema entrou na sua vida. Antes de pensar em direção, Breno sonhava em atuar. Fez teatro em diferentes colégios e, paralelamente, se formou como espectador, frequentando locadoras e assistindo a filmes em sequência. Os extras dos DVDs revelaram os bastidores e mostraram que o cinema é uma construção coletiva, feita de escolhas técnicas, estéticas e narrativas. Uma amiga igualmente interessada em cinema e uma revista especializada que chegava mensalmente ajudaram a nomear esse universo e a provocaram o despertar para o que acontece por trás das câmeras.
O cineasta passou, com o tempo, por um amadurecimento também do seu processo criativo. Se no início escrevia muito guiado pelas exigências dos editais, hoje busca desenvolver ideias antes e, depois, entender onde elas podem se encaixar. Para ele, o cinema pode não ser autobiográfico, mas é sempre íntimo, porque carrega temas e inquietações que atravessam a forma de ver o mundo.
Breno defende que a arte deve provocar e abrir conversas, mas que essa abertura exige responsabilidade. Não basta tocar em assuntos delicados sem pesquisa e cuidado. Para ele, a criação precisa respeitar as pessoas envolvidas, do elenco à equipe técnica, para que a representação não reproduza violências simbólicas. Nesse sentido, a pesquisa deixa de ser apenas uma etapa acadêmica e passa a integrar o método de trabalho.
Atualmente, Breno segue com projetos em andamento entre curtas e animações, enquanto amadurece os próximos passos no audiovisual. Entre eles está a pós-produção de Bom Retorno, seu primeiro longa-metragem de ficção, rodado integralmente em Belo Horizonte e ainda sem data oficial de estreia. O filme dialoga com temas como pertencimento, identidade e reconexão, questões que atravessam também a própria trajetória do diretor.

Além do longa, Breno já soma reconhecimento no circuito nacional. O documentário Camaco rendeu ao cineasta o Kikito de Melhor Curta-Metragem Nacional no Festival de Gramado de 2023, além de prêmios de direção e montagem em outros festivais. O filme investiga a “Linguagem do Macaco”, dialeto criado por trabalhadores de Itabira como forma de resistência no contexto da mineração, e reafirma o interesse de Breno por memória, identidade e território.
Entre Itabira, Belo Horizonte, Recife, Niterói e outros lugares que atravessaram sua formação, o percurso de Breno Alvarenga se consolidou em meio a esse atrito produtivo entre a imaginação e a burocracia, entre cinema como paixão e cinema como trabalho que precisa caber em calendários e editais.




