Com estudo sobre Brasil e Angola, professora da Funcesi é aprovada em primeiro lugar em programa de pós-graduação
Jeanyce Araújo desenvolve doutorado em Angola e propõe consolidação da Psicologia Quilombola como campo científico e disciplina acadêmica

A professora Jeanyce Araújo, do curso de Psicologia do Centro Universitário Funcesi, de Itabira, alcançou o primeiro lugar em um concorrido programa de pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), garantindo a única vaga disponível. A conquista marca um passo importante para a produção científica ligada às relações históricas entre Brasil e África, eixo central da pesquisa que a docente desenvolve atualmente em Angola.
Itabirana e integrante da comunidade quilombola São Pedro, em Santa Maria de Itabira, Jeanyce transformou sua própria trajetória de vida em fundamento teórico e metodológico para o estudo, que investiga os saberes psicológicos presentes nos quilombos brasileiros e nos kimbos angolanos — comunidades tradicionais onde se preservam cultura, modos de vida, gastronomia e práticas ancestrais. A pesquisa é realizada na Universidade Agostinho Neto, em Luanda.
Segundo a professora, a base do trabalho parte de uma concepção de conhecimento que não separa teoria e experiência. “O tema nasceu da minha vivência quilombola, pois, em nossos modos de existir, o saber não está separado do viver. Utilizo como método de pesquisa a Escrevivência, proposta por Conceição Evaristo, que rompe com a lógica da ciência positivista e com sua herança cartesiana, fundada na separação entre sujeito e objeto, razão e corpo, teoria e experiência”, explica.

A educadora detalha que a escolha metodológica também é um posicionamento epistemológico. “Em contraposição a essa cisão, a Escrevivência afirma a produção do conhecimento como prática encarnada, coletiva e situada, compreendendo a escrita como lugar de memória, denúncia e reinvenção da vida negra diante do epistemicídio. É desse lugar que emerge a Psicologia Quilombola, não como abstração teórica, mas como saber vivo, forjado na oralidade, na espiritualidade e nas formas comunitárias de cuidado herdadas da ancestralidade”, acrescenta.
Entre os objetivos centrais da pesquisa está a consolidação da Psicologia Quilombola como campo reconhecido da ciência e da educação. “O principal propósito da minha pesquisa é registrar, sistematizar e legitimar os saberes a partir das continuidades históricas, ontológicas e epistemológicas entre os kimbos de Angola e os quilombos do Brasil, contribuindo para o assentamento da Psicologia Quilombola como um campo científico, enraizado em epistemologias ancestrais africanas e afro-brasileiras. Além disso, a pesquisa visa fundamentar a Psicologia Quilombola como disciplina a ser incorporada à grade curricular em âmbito nacional, ampliando os referenciais teóricos, metodológicos e éticos da formação profissional”, ressalta Jeanyce.
A docente também destaca que os resultados do doutorado reverberam diretamente na formação acadêmica oferecida pela Funcesi: “Minha/nossa produção científica contribui diretamente para um ensino mais crítico, situado e conectado com a realidade brasileira. Ao trazer a Psicologia Quilombola para a sala de aula, ampliamos o repertório teórico dos estudantes, questionamos epistemicídios e formamos profissionais capazes de atuar em contextos diversos. Esse movimento se soma à produção dos demais docentes da Funcesi, fortalecendo uma formação comprometida com justiça social, diversidade e responsabilidade ética”.

Além do impacto acadêmico, Jeanyce ressalta a dimensão simbólica e coletiva da conquista. “Sinto-me emocionada e responsável. Essa conquista não é individual: ela é coletiva, ancestral e política. Representa a abertura de caminhos para que psicólogas e psicólogos oriundos de quilombos se reconheçam como produtoras e produtores de ciência. Estar em Angola, pesquisando as continuidades dos modos de vida Bantu, é um retorno às nossas origens históricas. A cultura brasileira, especialmente a mineira, foi formada por povos Bantu oriundos de Angola, Congo e Moçambique, cuja presença marcou a constituição de quilombos, irmandades negras, congadas e formas comunitárias de cuidado e resistência”, completa.
Estímulo institucional
O presidente da Funcesi, Maurício Mendes, destacou o incentivo dado pela instituição à qualificação docente.
“Um dos principais intuitos da Funcesi é incentivar seus professores a aproveitarem oportunidades e capacitações como essa, estaremos sempre à disposição no que for preciso. Estamos ansiosos por todas as novidades e conhecimentos que a Jeanyce trará ao retornar para nosso país”, afirma.
A aprovação em primeiro lugar e o desenvolvimento da pesquisa internacional colocam a Funcesi em evidência no cenário acadêmico, ao mesmo tempo em que ampliam o debate sobre ciência, ancestralidade e produção de conhecimento a partir das vivências afro-brasileiras.





