Com o intuito de dar voz à comunidade negra, Fani chega a mais um dia
Evento está previsto para ser realizado até a próxima quarta-feira

Iniciado na última segunda-feira (22), o Festival de Artes Negras Itabirano (Fani) possui um propósito admitido por todos os envolvidos na ação: dar voz à comunidade negra de Itabira. E foi sob esta ótica que o festival chegou a mais um dia de atividades neste domingo (28). Desta vez, as atrações ocorreram no Largo do Batistinha e na Casa do Brás, região central da cidade.
Três grupos musicais se apresentaram hoje: Samba da Meia Noite, Tumbaitá e Guayamum. Além disso, também houve tempo para mostras e oficina no evento, que será concluído na quarta-feira (31). Ao fim da matéria, você confere as fotos das atrações deste domingo e informações sobre todos os artistas.
Dar voz à maioria
Uma das principais cabeças à frente do projeto, José Norberto de Jesus o define como um trabalho coletivo. Ele destaca que a grande maioria da população itabirana é preta e precisa sair da “invisibilidade”.
“Nesses dois anos de administração do prefeito Marco Antônio, falamos para ele que era importante a gente trabalhar uma perspectiva de movimentar nosso povo preto. Sabe-se que hoje 72% da população de Itabira é negra, formada por pretos e pardos. Então isso requer políticas públicas, um olhar diferenciado. E o que nós estamos fazendo é tirar os negros da invisibilidade”, analisa.
Integrante do Departamento de Produções Artísticas da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA) – organizadora do festival -, Cecília Xavier também conversou com a DeFato. Ela fez uma análise do que ela espera que seja a primeira das várias edições do Fani.
“A gente chegou na Fundação com a ideia de impactar culturalmente a vida das pessoas todos os dias. E isso temos feito. Esse festival é mais uma ação que realizamos, e tem agradado bastante o público, estamos tendo um retorno positivo, as pessoas estão querendo mais. Esse é o primeiro Fani de muitos que ainda realizaremos”, comenta Cecília.
Diretora do setor da Promoção da Igualdade Racial na Prefeitura de Itabira, Nyara Crispim defende a ideia de que ações de políticas públicas para os negros, como o festival, sejam realizados durante todo o ano. Segundo Nyara, o mais comum é que tais atividades ocorram apenas em períodos específicos, como novembro, considerado o mês da consciência negra.
“Acho que o Norberto explanou muito bem. O Fani vem como uma concretização da proposta do governo Marco Antônio de trabalhar essa temática durante todo o ano. A gente tem um histórico de trabalhar essa temática apenas em novembro, e a proposta desse Governo é acabar com isso. Discutir e desenvolver ações o ano inteiro”, explica ela.

Voz da comunidade
Presente em mais de um dia de festival, Vinicius Souza é do Morro Santo Antônio, uma das comunidades quilombolas de Itabira. É ele quem está à frente de uma mostra de fubá suado e de uma exposição programada para a próxima quarta-feira, com fotos do seu povoado. Em entrevista à DeFato, Vinicius afirma que as comunidades precisam se organizar para buscar seu espaço e direitos.
“Eu falo sempre que tem que partir da comunidade, a gente precisa se organizar para buscar o que for de direito nos governos, mas primeiro nos organizarmos. Vejo que talvez a questão racial não caminhou muito no Brasil porque sempre parte de fora pra dentro. É uma questão de nos mobilizarmos, porque aí você passa a ter informação, sabe quais são os seus direitos. Mas tem que estar organizado para buscar isso, senão não tem uma decisão”, enfatiza.

Histórico legado
Superintendente da FCCDA, Marcos Alcântara ressalta o legado da contribuição dos negros em Itabira. Para ele, a cidade precisa entender seu contexto histórico, que perpassa, também, pelo período de escravidão.
“É importante destacarmos a importância das mãos negras no processo cultural de Itabira. E quando falamos disso, também falamos do processo cultural do nosso país, vivendo toda essa diversidade cultural que nós temos e sabendo que, muito disso, veio da nossa ancestralidade. É entender nossa ancestralidade dentro do contexto local, como cidade mineradora, que teve escravos, como cidade que contou com muita contribuição dessas pessoas. Contribuição que permanece muito viva na nossa cultura até hoje”.
O superintendente da Fundação pontua, ainda, que o município itabirano pode ser protagonista em discussões voltadas ao tema. “A ideia do Fani não nasce só por causa dos negros em si, mas por causa de uma discussão ampla que Itabira precisa ter e pode ser protagonista. A maioria dos municípios brasileiros só vai discutir sobre negritude, ações afirmativas e políticas de conscientização no mês de novembro. Nós buscamos sair um pouco dessa rota para mostrar que Itabira pode ter uma discussão permanente”, conclui.
Sobre as atrações
Samba da Meia Noite
Samba da Meia Noite é uma família de sambadores e sambadeiras, que traz em seus batuques e chulas as heranças, lembranças e vivências ancestrais de uma cultura singular que tem origem no Recôncavo Baiano. Através da oralidade multirregional tipicamente brasileira, o Samba da Meia Noite expressa, com um tempero mineiro, a herança deste legado de acordo com a história de cada membro do grupo.
Tumbaitá
O Grupo Folclórico Tumbaitá, criado em 1996 pela FCCDA, busca a preservação e a difusão das manifestações culturais de base por meio de estudos e do desenvolvimento de coreografias para seus espetáculos representativos das danças e músicas tradicionais, principalmente da cidade de Itabira e região.
A palavra “tumbaitá”, de origem africana e indígena, significa “toque na pedra”. Neologismo criado para homenagear duas matrizes étnicas de grande influência na formação da cultura tradicional brasileira.
Guayamum
O Guayamum promove um show afro por meio do berimbau, trazendo elementos da música e cantigas da cultura da capoeira. O grupo itabirano introduz a musicalidade em seus costumes e ritmos.






















