Começa em casa
É necessário mostrar ao filho as dificuldades que emos para conseguir as coisas. E principalmente mostrar que muitos não têm nada, diz Verônica Gonçalves, mãe de Victória de 8 anos
Você costuma atender a todas as vontades da criança com o intuito de suprir a ausência gerada pela dedicação à vida profissional? Seu filho sabe diferenciar a hora de brincar e a de fazer a lição? Entende que deve respeitar os coleguinhas e a professora na escola? Quem deve estabelecer limites aos pequenos, família ou insituições de ensino?
Para Leir Lage, coordenadora do 1º ao 5º ano da Fide, as pessoas costumam confundir o que é atribuição da família com o que é inerente à escola. Isso, segundo a educadora, foi provocado pela própria escola que, historicamente, tem interferido nas questões da família. “Nós, enquanto educadores, não devemos ter a pretensão de ocupar o papel da família. A escola tem uma função bem definida, que é trabalhar com o conhecimento cultural e acadêmico, e a família é que vai tratar dos valores. A escola deve procurar apenas reforçar alguns desses valores” explica.
A bancária Verônica Gonçalves é mãe de Victória, de 8 anos. Ela se desdobra para passar à filha a ideia de que conseguir tudo o que se quer não significa obter felicidade. “É necessário mostrar as dificuldades e, principalmente, mostrar que muitos não têm nada”, explica. Por meio do diálogo, Verônica ensina os limites à filha. “Oriento sobre o que é certo e errado e as consequência de cada ato. Estabeleço cronogramas de atividades escolares, esporte, atividades artísticas, lazer/descanso e, sobretudo, momentos familiares”, comenta. Quando Victória não obedece a alguma regra, a mãe a chama para conversar. “Isso já é visto por ela como uma retaliação, não sendo necessário aplicar outra correção. Se você oferece uma boa formação com amor, carinho e respeito, ensinando com firmeza e segurança, isso já basta para disciplinar. Não é necessário o castigo físico”.
Para a bancária, cuidar da disciplina é obrigação dos responsáveis pela criança e a escola deve exercer o papel de agregar e complementar o que vem de casa, e não o de ser a principal referência. “Devemos orientar e estabelecer limites, sempre conversando e dando exemplos de nossas próprias condutas, para cultivarmos adultos responsáveis e de bom caráter. Escola e pais devem caminhar juntos”, pontua.
A diretora da Escola Ursinhos Carinhosos, Maria Eleusa, destaca que a escola é importante para instruir a criança quanto ao cumprimento de regras. “Ensinar limites é uma maneira de preparar os alunos para o que vão encontrar pela frente. Desde cedo, elas devem aprender a seguir os horários de chegada, saída, lanche, ida ao parque, realização de atividades, entre outras”, enumera.
Os especialistas acreditam que a desestruturação familiar é outro fator determinante no desenvolvimento da criança, até mesmo em relação aos aspectos acadêmicos. Uma situação muito comum é o aluno ter dificuldades de lidar com o coletivo e em respeitar os colegas. Nesse caso, a interferência da escola é inevitável. “Algumas vezes a gente consegue fazer com que a criança leve para casa conceitos aprendidos aqui dentro como um valor. Ela começa a repensar, pois nós tratamos de valores universais”, observa Leir.
Métodos
Segundo a diretora Maria Eleusa, uma prática adotada pelos professores são as atividades lúdicas, que desenvolvem a socialização, o respeito ao próximo e às regras. Diante de uma situação de indisciplina na escola, os professores procuram conversar. “O papel da escola não é castigar, e sim orientar e incentivar o aluno a ter gosto pelo estudo”, explica.
Segundo a diretora Maria Eleusa, uma prática adotada pelos professores são as atividades lúdicas, que desenvolvem a socialização, o respeito ao próximo e às regras. Diante de uma situação de indisciplina na escola, os professores procuram conversar. “O papel da escola não é castigar, e sim orientar e incentivar o aluno a ter gosto pelo estudo”, explica.
A educadora acredita que os pais não devem, jamais, entregar os pequenos aos cuidados exclusivos da escola. Para ela, muitas vezes eles deixam a cargo da escola a tarefa de ensinar limites aos filhos. “É preciso balancear: a escola e os pais devem ser parceiros na hora de educar”, observa. O ideal, para Maria Eleusa, é que em casa os pais expliquem o porquê de as regras existirem e a necessidade de obedecê-las. Deve-se deixar claro que todos, tanto adultos quanto crianças, têm direitos e deveres. É importante que se saiba que a omissão dos pais na educação e disciplina dos filhos pode afetar o desempenho escolar. “Quando o aluno não recebe limites em casa, tem dificuldades de entender que existem regras na escola que precisam ser respeitadas”, explica.
A coordenadora e pedagoga do Centro Educacional Bem-Me-Quer, Maria Cristina dos Santos, acredita que os pais precisam ser conscientes quanto ao papel complementar da escola. O hábito de transferir o papel de educar somente para a escola só pode trazer consequências negativas. “A criança que não aprende limites em casa, apresenta um baixo potencial de aprendizagem e está sempre em conflito em sala de aula”, explica.
A questão social também é prejudicada, pois a criança pode ser taxada de bagunceira e encrenqueira pelos colegas. “Isso mexe muitas vezes com a autoestima e pode gerar perdas mais tarde, ter reflexos na vida adulta”, conclui a pedagoga.
Aproximação
Na visão da psicóloga Dulce Barroso, a importância de pais e escola oferecerem um ambiente acolhedor aos menores se deve à possibilidade de evolução das crianças. “Família e escola atuam como propulsoras ou inibidoras do seu crescimento físico, intelectual, emocional e social”.
Há também uma tendência de os pais oferecerem tudo o que os filhos querem como forma de compensar sua ausência no convívio. “Necessidade é diferente de desejo. Os pais acabam se preocupando em suprir os desejos dos filhos e se esquecem do necessário”, explica a psicóloga.
Dulce orienta que os pais são os principais exemplos a serem seguidos pelos filhos e que o ensino deve basear-se em bons modelos. A punição precisa ocorrer na medida em que seja capaz de proporcionar mudança positiva no comportamento. Especialistas apontam a falta de limites como fator capaz de desencadear distúrbio de comportamento, alto nível de agressividade, baixa tolerância à frustração, dificuldade de relacionamento e autoestima baixa.
A psicóloga recomenda a busca do equilíbrio no tratamento com as crianças. “É preciso ter bom senso e firmeza ao colocar regras e limites. A construção de uma família saudável, física e psicologicamente, está diretamente ligada aos valores morais, éticos, culturais, e religiosos. Para educar, é preciso esforço, dedicação, perseverança e paciência, muita paciência”, conclui.