Corrupção revelada pela PF na operação “Rejeito” já havia sido denunciada por servidores ambientais em Minas
Greve do SINDSEMA e alertas de especialistas expõem que esquema bilionário investigado na ação foi facilitado pelo desmonte da política ambiental no Estado
A deflagração da operação “Rejeito” pela Polícia Federal (PF) nesta quarta-feira (17) confirmou denúncias que já vinham sendo feitas há anos por servidores ambientais em Minas Gerais. O Sindicato dos Servidores Públicos do Meio Ambiente (SINDSEMA) e especialistas alertavam para o desmonte da política ambiental no Estado, que teria aberto caminho para a corrupção revelada agora.
A ação conjunta da PF, Controladoria-Geral da União (CGU), Ministério Público Federal (MPF) e Receita Federal apura um esquema bilionário de fraudes em licenciamento ambiental, corrupção e exploração ilegal de minério. O prejuízo estimado ultrapassa R$ 1,5 bilhão.
Greve já apontava riscos
O presidente do SINDSEMA, Wallace Alves, relacionou a operação à greve que mobiliza os servidores ambientais há semanas.
“A greve fala sobre fortalecimento institucional. Em 2016, éramos 2.400 servidores de carreira, hoje somos menos de 1.300. O déficit é enorme, estamos sobrecarregados e convivendo com vínculos precários. Esse cenário facilita pressões externas e enfraquece a política ambiental. O que a operação ‘Rejeito’ traz à tona dialoga diretamente com nossa realidade diária de trabalho”, disse.
Alves também destacou a defasagem salarial de 82%, a evasão de técnicos qualificados e a influência política em cargos estratégicos. Segundo ele, o caminho para reverter o quadro é a realização de concursos públicos, maior autonomia financeira e o fim das indicações políticas.
Alertas ignorados viram realidade
O SINDSEMA e entidades ligadas ao meio ambiente já denunciavam que a falta de servidores de carreira e a ocupação de funções técnicas por cargos políticos fragilizavam a fiscalização.
Com menos de 1.300 servidores ativos em todo o estado, a fiscalização ambiental passou a operar no limite, criando brechas que, segundo os investigadores, foram exploradas pelo grupo criminoso.
Esquema de fraudes
De acordo com a PF, a organização criminosa corrompia servidores de órgãos estaduais e federais para obter licenças ambientais fraudulentas. Empresas do setor de mineração ligadas ao esquema exploravam minério de ferro em áreas de preservação e patrimônio cultural, burlando regras de segurança e sustentabilidade.
O grupo também atuava para neutralizar fiscalizações, monitorar autoridades e lavar dinheiro. O potencial econômico dos projetos ilegais investigados passa de R$ 18 bilhões.
Servidores e empresas envolvidos
Entre os alvos da operação estão servidores de órgãos ambientais em Minas Gerais. O governo estadual confirmou afastamentos imediatos:
- Breno Esteves Lasmar – diretor-geral do Instituto Estadual de Florestas (IEF);
- Arthur Ferreira Rezende Delfim – diretor de Regularização Ambiental da Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM), preso;
- Fernando Baliani da Silva – ocupava cargo em comissão na FEAM;
- Lirriet de Freitas Libório Oliveira – exercia cargo em comissão na FEAM.
Pressão política e CPI do Meio Ambiente
A operação também provocou reação imediata na Assembleia Legislativa de Minas. As deputadas de oposição Duda Salabert (PDT), Lohanna França (PV) e Bella Gonçalves (PSOL) se reuniram, na tarde de quarta-feira, com o presidente do SINDSEMA, Wallace Alves, para discutir os impactos do escândalo e juntar provas para a abertura imediata de uma CPI do Meio Ambiente.
Segundo elas, o objetivo é investigar não só os crimes revelados pela PF, mas também a estrutura de fiscalização no estado, apontada como frágil e vulnerável a pressões políticas e econômicas.
Já o presidente da Associação Brasileira dos Municípios Mineradores (AMIG Brasil) e prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage (PSB), defendeu nas redes sociais a reestruturação imediata da Agência Nacional de Mineração (ANM).
Próximos passos
Os investigados podem responder por:
- Crimes ambientais;
- Usurpação de bens da União;
- Corrupção ativa e passiva;
- Organização criminosa;
- Lavagem de dinheiro;
- Embaraço à investigação.
Novas informações sobre empresas e servidores envolvidos devem ser divulgadas pela PF e pelo MPF nos próximos dias.




