Çovê base lafar?

Marconi Ferreira estuda a origem da linguagem do camaco e propaga esse bem cultural itabirano

Çovê base lafar?
A conversa normalmente começa assim: “çovê base lafar guilagem do camaco?”. Para quem não entende ou conhece, a reação é um grande ponto de interrogação estampado no rosto seguido de uma resposta simplória: “O quê?”. A pergunta, na verdade, é “você sabe falar linguagem do camaco?” e remete a um linguajar provavelmente criado em Itabira no início do século XX. 
 
A origem da linguagem camaco é desconhecida, não está registrada em livros ou gramáticas. Em Itabira, cada morador conhece uma versão. A mais contada é que surgiu através de uma resistência cultural. Diversos “peões”, trabalhadores da Companhia Vale do Rio Doce, se sentiram “contaminados” por outra cultura, trazida pelos estrangeiros, e então resolveram criar o camaco, idioma que esses também não entenderiam. 
 
Hoje, os itabiranos usam a linguagem para conversar, cantar e até mesmo declamar poemas. Não tem muito segredo. O truque é trocar a primeira letra da segunda sílaba com a primeira letra da primeira. Como se trata de uma linguagem oral, na forma escrita é necessário adaptar os fonemas, de modo a manter a sonoridade deles. Assim, “você” vira “çovê”, “sabe” vira “base” e “falar” vira “lafar”. E “macaco” vira “camaco”.
 
Surgimento
Marconi Ferreira, poeta, escritor e historiador itabirano, conta que a cidade, no final do século XIX e início do século XX, possuía habitantes estrangeiros que falavam a língua inglesa. Essas pessoas estavam ligadas à empresa britânica Iron British Company, que explorava minério de ferro na região. Décadas depois, com a fundação da Companhia Vale do Rio Doce, o grupo de estrangeiros foi reforçado pelos engenheiros e técnicos americanos que chegaram ao pequeno município. “Rapidamente foi estabelecida uma dificuldade de comunicação entre os ingleses e americanos e o resto da cidade”, diz o escritor. 
 
Mas Marconi explica que a maior incomunicabilidade foi sentida nas minas de exploração com os operários da CVRD, que pertenciam às classes mais pobres da população, os conhecidos “peões”. Como os operários não entendiam o inglês e nem se identificavam com outros itabiranos de cargos superiores, resolveram criar uma variação do português que tornaria impossível a compreensão dos seus chefes estrangeiros e dos seus compatriotas. “A língua ali tinha uma função clara de marcar as diferenças e posições sociais e econômicas”, conta. Quem conhecia o camaco conseguia se comunicar com seus colegas sem que outros os entendessem. “Os operários usavam a linguagem principalmente para falar mal ou poder fazer comentários e críticas sobre seus superiores”, afirma o historiador.
 
A linguagem do camaco não possui registros na história escrita, apenas na oral. Algumas palavras não parecem possuir uma ligação direta com a forma original. É uma língua em constante adaptação e transformação. “A língua possui uma grande variação, então é difícil criar um alfabeto. Por exemplo, a palavra ‘não’ vira ‘ônis’. Quando eu era pequeno o meu pai me ensinou. Ele veio de uma família de mineradores que sabiam a língua. Ensinei para os meus quatro filhos. E agora coloco meus poemas com a linguagem do camaco. É uma coisa de Itabira e temos que respeitar isso”, diz Marconi Ferreira. 
 
Atualidade
Com o tempo, a língua deixou de pertencer a um grupo restrito e foi sendo falada por todos que se sentiam parte da “resistência” da cidade. Durante as décadas de 60 e 70, os boêmios e intelectuais se encontravam no bar Cinédia de Itabira, no Centro, para conversarem em camaco. “Foi nesse momento que a língua perdeu sua ligação restrita com os operários da empresa, passando a ser uma característica do povo itabirano em geral. O camaco perdeu o seu sentido político”, explica o poeta Marconi. Segundo ele, a língua começou a ser utilizada como brincadeira e entre os jovens para conversarem sobre garotas e namoros na frente dos pais ou outro assunto que era mais particular. 
 
O aposentado Osvaldo Setembrino, 76 anos, aprendeu a linguagem do camaco na infância. “Naquela época era muito comum. Aprendi na rua. A meninada se divertia com isso. Hoje é uma coisa diferente, porque não é todo mundo que fala, mas não exige nenhum sacrifício”, comenta. Ele conta que seus três filhos sabem a linguagem do camaco por influência dele. “No dia a dia eu não uso a linguagem, mas sempre que encontro com ex-colegas, nós conversamos e nos saudamos em camaco. É muito divertido”, relembra. Segundo ele, falar o camaco é igual andar de bicicleta, quando se aprende uma vez não se esquece jamais. 
 
Solange Duarte Alvarenga, coordenadora do memorial Carlos Drummond de Andrade em Itabira e ex-presidente do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico e Artístico de Itabira (Comphai) acredita que a linguagem do camaco deve ser sempre passada de geração em geração, porque é um fruto da cultura itabirana. “Meu pai tem 82 anos e fala a língua. Meus irmãos de 50 e 53 anos falam. Meus sobrinhos também. Vai passando as gerações e a língua continua”, diz. 
 
Mas, segundo Solange, esse bem cultural é pouco difundido hoje em dia. Ela defende que o “idioma” deva ser ensinado nas escolas. “A língua deveria ser ensinada de uma forma lúdica nas escolas, para as crianças conhecerem a linguagem que foi criada em Itabira e para que eles percebam como isso pode ser diferente e importante para nós. A escola é o melhor lugar para a língua não se perder, para sempre darmos continuidade”, diz Solange. 
 
Patrimônio imaterial
A arquiteta Gláucia Araújo, diretora de patrimônio histórico da Prefeitura de Itabira e membro do Comphai conta que até o final deste ano a linguagem camaco irá se tornar um patrimônio imaterial do município. São considerados bens imateriais as práticas, as representações, as expressões, os conhecimentos e as técnicas junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais a eles associados. O instrumento que preserva o bem como imaterial é o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial. “O patrimônio imaterial no Brasil é o samba e a capoeira, com exemplo. Já a linguagem do camaco será para Itabira”, explica a diretora. 
 
Gláucia e outros membros do Comphai começaram em 2013 a jornada para tornar a linguagem do camaco um bem imaterial de Itabira. “Só que descobrimos que Itabira não tinha a Lei de Registro, que permite o registro do bem imaterial. Então, tivemos que trabalhar junto com a Câmara Municipal o processo de desenvolvimento da lei, até que no ano passado o prefeito Damon a aprovou”, conta. Em março deste ano, o Comphai aprovou a inscrição de registro da linguagem do camaco, seguindo os passos definidos pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) para o tombamento da língua. “Estamos trabalhando muito para que ainda neste ano possamos tornar o camaco um bem imaterial da nossa cidade”, diz, empolgada. 
 
Segundo Gláucia, o bem imaterial é muito importante para a cidade. É uma condição para que Itabira aumente sua pontuação no sistema que define como é repartido o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) Cultural. “A língua é uma exclusividade nossa. É mais do que apenas um reconhecimento, é uma valorização. Os itabiranos que falam a linguagem do camaco se entusiasmam muito em saber que a língua vai virar um patrimônio imaterial, sentem o reconhecimento do processo cultural. A exclusividade de Itabira com a linguagem do camaco abre margem para buscarmos reconhecimentos maiores. Pois ela é muito única e significativa. Será que no futuro ela não poderá ser registrada como patrimônio imaterial de Minas Gerais?”, indaga Gláucia.