Crise chega ao pequeno produtor rural

Preço da carvão caiu para menos da metade

Produtores rurais de carvão vegetal, principalmente os de pequeno porte, estão sentindo no bolso o resultado da crise internacional. O efeito cadeia, que começou nos Estados Unidos e se espalhou para o resto do mundo, afetou a economia real e refletiu na produção fazendo com que empresas siderúrgicas e metalúrgicas se desacelerassem. Conseqüentemente, a demanda por matéria-prima também caiu e o resultado foi a queda nos preços, devido ao excesso de oferta.
 
Com isso, o pequeno produtor rural que vive no interior e depende do carvão está vendo sua renda ficar cada vez mais curta. Luiz Carlos Pereira, morador de Lavras, região rural de Santa Maria de Itabira, é dono de uma pequena propriedade de terra onde cultiva eucalipto para carvoaria. O camponês lamenta a drástica queda no preço da commodity que caiu para menos da metade do valor de uns quatro meses atrás. “Os mais afetados somos nós que fazemos para comer. Os grandes empresários tem muito dinheiro”, disse.
 
Ademir Pereira, de Cuité, também zona rural de Santa Maria, confirma a situação. Para ele, o momento é de preocupação e quem não tem como mudar de ramo para sobreviver vai “passar apertado”. “O preço do carvão aqui ainda é mais baixo que lá na descarga [siderurgia] pois tem o frete e outros gastos”, disse Ademir. Ele disse ainda que na região, a maioria das famílias vive da atividade, pois são poucas empresas que gera emprego e as pouca que têm são distantes.
 
Muita oferta, pouca demanda
A produção de toda região, principalmente dos pequenos carvoeiros, era vendida, em geral, para a Socoimex Siderurgia, de Itabira, e para a Nova Era Silicom Metalurgia, do Piçarrão. Como a Socoimex paralisou as operações sem previsão de volta, a produção, que antes vinha para a usina, foi distribuída para outras empresas e grande parte do carvão está sendo recebido pela Nova Era Silicon. 
 
A metalúrgica informou que não tem previsão de diminuição no ritmo de produção, pois faz parte de um grupo japonês, mas o preço do carvão desvalorizou consideravelmente. Há cerca de três meses o metro cúbico do produto estava a R$ 170,00. Esse valor caiu para R$ 70,00 e pode diminuir ainda mais, segundo a empresa. De acordo com a Nova Era Silicon, o fenômeno é uma questão de lei de mercado. Se há muita oferta e pouca procura, os preços caem.
 
Prejuízos
Todos os trabalhadores de carvoeira ouvidos confirmaram que, do jeito que está, não tem como trabalhar. “Não se pode fazer mais carvão de mata nativa devido às leis ambientais. Então plantamos eucalipto; mas o preço de custo é muito alto e na hora de vender o carvão a gente tem prejuízo. É pagar para trabalhar”, disse José Alves, fazendeiro e dono de uma bateria de fornos de carvão na comunidade de Quebra-Canjica.
 
Ele contou que um pai de família que trabalha na região, junto de mais uns dois companheiros, faz um caminhão de 40 metros cúbicos por mês da matéria-prima. “Quando ele estava a R$ 170,00, dava para tirar uns R$ 6.500,00 por gaiola. Esse valor era dividido entre os sócios. Agora, esse valor caiu para cerca de R$ 2.500,00”, explicou.
 
A alternativa, segundo os camponeses, é mudar de ramo. Uns disseram que vão trabalhar com farinha, outros com compra e venda de gado até que a situação melhore.