Custo da dívida pública brasileira só se compara a países em guerra, diz economista

Embora o país não esteja envolvido em conflitos geopolíticos, o Brasil lidera ou disputa a liderança dos rankings globais de maiores taxas de juros reais

Custo da dívida pública brasileira só se compara a países em guerra, diz economista
Dívida pública brasileira é semelhante a países em conflito na geopolítica- Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O custo para financiar a dívida pública do Brasil atingiu um patamar tão crítico que só tem paralelo com nações que enfrentam guerras ou graves crises cambiais conforme alertado por economistas e ex-secretários do Tesouro Nacional.

Embora o país não esteja envolvido em conflitos geopolíticos, o Brasil lidera ou disputa a liderança dos rankings globais de maiores taxas de juros reais do mundo (taxa básica descontada a inflação), revezando a primeira posição com a Rússia, que arca com juros altos devido aos impactos econômicos de uma guerra. Já o Brasil sofre com o peso de suas disfunções fiscais.

A vulnerabilidade brasileira não está exatamente no tamanho bruto da dívida em si, mas sim no preço que paga por rolar o endividamento.

O Brasil consome cerca de 8% do seu PIB apenas com o pagamento de juros da dívida. Como comparação, economias desenvolvidas e muito mais endividadas gastam uma fração disso: os Estados Unidos desembolsam 4,7% do PIB com juros, a França gasta 2,2% e o Japão, cuja dívida ultrapassa 230% do PIB, consome apenas 1,3%.

Mesmo com a taxa Selic oscilando e com cortes graduais, na casa de 14% ao ano, o juro real brasileiro permanece fixado acima de 9%, quase o dobro praticado  por outros países emergentes com economias comparáveis, como o México.

Sem o “grau de investimento” (selo de bom pagador), a participação de investidores estrangeiros financiando os títulos públicos caiu pela metade. O governo passou a financiar quase totalmente captando recursos no mercado interno.

O desajuste fiscal  e as taxas de juros elevadas geram consequências imediatas e travam o desenvolvimento social e o crescimento econômico do país.

Como o governo possui um orçamento disfuncional e precisa de muito dinheiro para se financiar, ele “avança” sobre a poupança interna, o que esvazia o crédito e deixa um pedaço muito pequeno de recursos disponíveis para o financiamento de famílias e empresas.

O aumento constante do endividamento obriga o Banco Central a praticar juros mais altos para conter riscos inflacionários e atrair compradores para os títulos do Tesouro. Quanto maior o juro, mais a dívida cresce, gerando um ciclo vicioso.

A desconfiança do mercado faz com que os investidores aceitem comprar apenas papéis de curto prazo do governo, exigindo retornos rápidos e caros, o que encurta o perfil da dívida e eleva o risco de refinanciamento.

Com grande parte do Orçamento Federal carimbada para pagar o custo da rolagem da dívida e despesas obrigatórias, sobram poucos recursos públicos para investimentos estruturais essenciais, como infraestrutura, pesquisa, saúde, educação.

Segundo o economista Jeferson Bittencourt, chefe de macroeconomia do ASA e ex-secretário do Tesouro Nacional, o Brasil apresenta uma situação especialmente desfavorável tanto na comparação com outros países quanto pelo custo do financiamento da dívida.

“Se a gente for traçar qual o setor, setor público, setor privado, famílias, internacional ou nacional, se a gente olhar qualquer recorte, a dívida pública brasileira é o pior caso”.

“Se a gente olhar internacionalmente, o Brasil comparado com seus pares, os países emergentes, tem uma dívida de cerca de 20 pontos percentuais do PIB superior ao dos seus pares. Em termos de custo, o custo da nossa dívida se compara com países que estão tendo algum tipo de crise, alguma crise cambial, alguma guerra. O custo da nossa dívida não é mais alto do que nossos pares, é mais alto que qualquer país do mundo”.

*Fonte: CNN Brasil/G1