De empregada doméstica a doutora em Educação: a trajetória da capixaba que se formou na Ufes

Aos 41 anos, defendeu sua tese de doutorado em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

De empregada doméstica a doutora em Educação: a trajetória da capixaba que se formou na Ufes
Claudiana: de empregada doméstica a doutora em Educação- Foto: Arquivo pessoal/Via Folha Vitória

Claudiana Raymundo dos Anjos, filha de uma empregada doméstica e criada na periferia de Vitória, trabalhou como babá e mais tarde, assim como sua mãe, foi empregada doméstica.

Aos 41 anos, defendeu sua tese de doutorado em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), pesquisa que a levou por três vezes ao México.

Claudiana é a primeira pessoa da família a ingressar no ensino superior, abrindo portas para que outras mulheres se inspirem, como uma de suas primas, que hoje está próxima de concluir Medicina na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), enquanto outra cursa Medicina Veterinária em uma universidade federal.

“Eu sou a primeira pessoa da família a ter um ensino superior. Não digo nem o doutorado, porque isso é um nível mais alto. Então, isso pra mim também é muito significativo”

Claudiana passou a infância no bairro Resistência, onde começou a estudar numa escola pública e, ainda nos primeiros anos do ensino fundamental, a professora já percebia seu grande potencial e sugeriu que a mãe a matriculasse em outra escola.

A mãe seguiu o conselho e a matriculou na Escola Marieta Escobar, em Santa Martha, onde cursou o ensino fundamental. Depois fez o ensino médio em escola da rede estadual.

Cursar uma faculdade não estava nos seus planos.

Sem condições financeiras para pagar uma instituição particular, ela não visualizava uma universidade como algo concreto. Ao terminar o ensino médio, começou a trabalhar, assim como muitas outras colegas.

“Assim que eu terminei, como todas as meninas da minha sala naquele período, eu fui trabalhar numa outra casa de família, Comecei como babá. Dois anos depois, fui trabalhar numa outra casa de família, agora como empregada doméstica, seguindo a trajetória de boa parte das mulheres da minha família”.

O rumo começou a mudar quando suas amigas da igreja perceberam seu potencial e passaram a incentivá-la a tentar uma vaga na Ufes. Duas dessas amigas a matricularam em um pré-vestibular comunitário, o Atitude, que funcionava em Goiabeiras.

A rotina era cansativa, com Claudiana trabalhando durante todo o dia e estudando a noite. Saía de casa por volta das 6h30 e só retornava próximo da meia-noite. Em 2008, fez a primeira tentativa de entrar na Ufes, para Pedagogia, ficando a seis décimos da aprovação.

“Quando vi que ficaram faltando seis décimos, eu comecei a perceber que entrar na universidade era uma realidade possível para mim. Então, aí, a partir disso, no ano seguinte eu já iniciei em fevereiro, já estudando com a mesma rotina, focada em passar no vestibular”.

No ano seguinte ela tentou novamente, escolhendo o curso de Artes e conseguiu a aprovação. Em agosto de 2010, aos 26 anos, entrou na Ufes.

Para conseguir se manter durante a graduação, guardou dinheiro antes de começar, já que o curso era integral e não permitiria que continuasse trabalhando.

A mãe e o padrasto foram fundamentais naquele momento, com apoio financeiro e emocional para que ela deixasse o emprego e estudasse.

Poucos meses depois de entrar na universidade, Claudiana conseguiu uma bolsa no Programa de Educação Tutorial (PET), experiência que mudou sua relação com a academia despertando um interesse que ela não imaginava ter: a pesquisa.

Em 2015 concluiu a graduação e começou a trabalhar como professora de Arte na rede estadual, por meio de contrato temporário, mas sem abrir mão dos grupos de pesquisa da Ufes.

Nesse período, se aproximou da área que se tornaria sua especialidade: a educação especial. No Trabalho de Conclusão de Curso pesquisou a relação entre o ensino da Arte e estudantes com deficiência visual.

“Na graduação me aproximei de um grupo que tratava diretamente educação especial. No meu TCC, trabalhei essa interface entre educação especial e o ensino de Arte, tentando entender a prática pedagógica de professores de Arte com deficiência visual. No mestrado continuei com o mesmo tema e passei a analisar a prática pedagógica de uma professora de Arte com estudantes com deficiência visual”.

Claudiana concluiu o mestrado em 2020, justamente quando a pandemia de Covid-19 interrompeu a rotinas das escolas. Sem conseguir um novo contrato como professora, ela também descobriu que estava grávida.

A combinação das duas situações trouxe incertezas para quem planejava fazer doutorado.

Sem a renda do trabalho e sem a bolsa do mestrado, a alternativa foi alfabetizar crianças dentro da própria casa, chegando a atender cerca de dez alunos em horários diferentes, durante o fim daquele ano.

Com a retomada das aulas em 2021, voltou a trabalhar como professora de Arte e de educação especial nos municípios de Serra e Vitória.

No mesmo ano surgiu outra oportunidade: o processo seletivo para doutorado na Ufes.

Ela foi aprovada e começou o doutorado em 2022, inicialmente conciliando os estudos com o trabalho. Posteriormente, conseguiu uma bolsa de pesquisa passando a se dedicar integralmente à formação.

A tese tratou da formação continuada de professor de educação especial em uma pesquisa comparativa entre o Brasil e o México, trabalho que a levou três vezes ao país para realizar a pesquisa.

“Eu acho que a minha história pode contribuir também para mudar a vida de muitas meninas que vivem na mesma realidade que eu e também não acham que ingressar no ensino superior, ensino superior público, é possível. Eu acho que a minha trajetória tem contribuído para esse movimento de transformação, para as novas gerações de mulheres da minha família, sem dúvida nenhuma”.

*Fonte: Folha Vitória