Delegado critica sensacionalismo na imprensa em casos de violência contra mulheres e alerta para culpabilização das vítimas
Segundo ele, manchetes que associam o crime ao comportamento da vítima acabam normalizando a violência

Durante participação no podcast Estúdio DeFato Caraça, realizado na última quarta-feira (6), o delegado João Martins Teixeira, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Itabira, destacou a importância da imprensa na divulgação de informações, na conscientização da população e no apoio às investigações. No entanto, ele também fez um alerta sobre os limites da cobertura jornalística em casos de violência contra a mulher, criticando abordagens sensacionalistas e a culpabilização das vítimas em manchetes e narrativas midiáticas.
O delegado criticou práticas consideradas sensacionalistas por parte de veículos de comunicação. Ele alertou para os riscos da divulgação precipitada de informações, da revitimização das mulheres e da construção de narrativas que acabam culpabilizando as vítimas de violência.
Como exemplo, João Martins comparou diferentes formas de noticiar um feminicídio. Segundo ele, manchetes que associam o crime ao comportamento da vítima acabam normalizando a violência.
“Em vez de dizer que um homem praticou feminicídio, colocam que a mulher morreu porque traiu o marido. É o mesmo fato contado de maneiras diferentes. Em um caso, o foco está no crime; no outro, no comportamento da mulher, como se isso justificasse a violência”, pontuou.
O delegado ainda destacou a responsabilidade ética da imprensa na cobertura desses casos e reforçou a necessidade de abordagens que priorizem a informação correta, o respeito às vítimas e o combate à violência contra as mulheres.
“Quarto Poder”
Ao comentar sobre a relevância da mídia, o delegado afirmou que a imprensa funciona como uma ponte entre os órgãos públicos e a população, ampliando o alcance de orientações, denúncias e debates sobre o tema. “Muitas pessoas chegam a considerar a imprensa como o quarto poder da República”, afirmou.
Segundo João Martins, a divulgação de canais de denúncia e a repercussão de discussões sobre violência doméstica ajudam mulheres a reconhecer situações abusivas e a procurarem ajuda. Ele ressaltou que a polícia, sozinha, não consegue alcançar toda a população da mesma forma que os meios de comunicação.
Ele lembrou que, em diversos casos registrados em Itabira, a repercussão na imprensa contribuiu diretamente para o avanço das investigações. Segundo ele, a exposição de determinados casos encoraja outras vítimas a procurarem ajuda e pode levar novas testemunhas a colaborarem com a polícia.
Durante a entrevista, João Martins também defendeu uma atuação integrada entre polícia, assistência social, saúde, educação, Judiciário e imprensa no combate à violência contra as mulheres. “A solução precisa ser coletiva. A violência contra a mulher afeta toda a sociedade”, afirmou.




