Dezembro Verde: Mês de conscientização contra abandono e maus-tratos animais expõe custo ambiental do abandono de cães e gatos
Campanha alerta para explosão de casos no verão e impactos na fauna; biólogo defende que tema seja tratado como questão de saúde pública
O avanço do abandono de cães e gatos no país transformou um gesto individual em um problema ambiental de larga escala. Ao iniciar mais uma edição do Dezembro Verde, especialistas e instituições chamam atenção para as consequências que vão muito além das ruas e dos abrigos superlotados, atingindo ecossistemas inteiros, alterando dinâmicas da fauna nativa e ampliando riscos sanitários justamente no período em que os números disparam.
Criada no Ceará em 2015, a ação se espalhou pelo país com a mensagem de que abandonar é crime e tem consequências que ultrapassam o sofrimento individual do animal. A cor verde, símbolo da campanha, remete à vida e à esperança de uma convivência mais responsável. O foco vai além do apelo emotivo, a ideia é expor o abandono como problema de saúde pública e também ambiental, que se arrasta até fevereiro, período em que as viagens e festas se intensificam.
Para o biólogo e educador ambiental Samuel Igínio, o principal desafio é romper a fronteira entre o afeto e a responsabilidade. “O ser humano criou um laço muito forte com gatos e cães”, afirma. Se antes esses animais eram vistos sobretudo como força de trabalho, hoje ocupam um lugar íntimo nas casas. Essa proximidade, no entanto, não pode encobrir o fato de que, soltos em ambientes inadequados, eles geram riscos sanitários e ecológicos. “É importante mostrar que, por mais que gostemos dos nossos companheiros, eles podem representar problemas sérios quando inseridos no contexto errado”, pontua.
Uma pesquisa da iniciativa social Cobasi Cuida, de 2024, apontou aumento próximo de 90% nos casos de abandono durante o verão. É quando férias, fugas da rotina e a dificuldade de encontrar onde deixar o animal se cruzam com decisões apressadas. Em nível mundial, a Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 30 milhões de animais estejam hoje nas ruas brasileiras. Em Belo Horizonte, o último levantamento da PBH, em 2022, registrou 48 mil animais soltos nas vias, frente a 479 mil cães e gatos domiciliados. Mesmo assim, faltam dados atualizados e precisos, o que levou à apresentação, em 2025, de um projeto de lei na Câmara Municipal para criar o primeiro Censo Municipal de Animais Domésticos, com coleta periódica de informações sobre castração, vacinação, abandono e microchipagem.
Samuel lembra que, no papel, a legislação já avançou mais para proteger a fauna doméstica do que a fauna silvestre. O ponto frágil está na aplicação. A impunidade ajuda a alimentar o ciclo e, apesar do abandono ser crime previsto em lei federal, as responsabilizações ainda são raras. O problema se agrava quando o “descarte” ocorre em áreas naturais. Cães e gatos, soltos em ambientes silvestres, funcionam como vetores de doenças para espécies nativas, que não têm o mesmo histórico de contato com agentes infecciosos.
Um dos exemplos citados pelo biólogo é o aumento de casos de sarna canina em lobos-guará, associado à circulação de cães domésticos em áreas de Cerrado. No caso dos gatos, o impacto vai além. Eles são caçadores eficientes e, diferente de muitos felinos nativos, adultos continuam caçando mesmo sem necessidade alimentar, por instinto lúdico. “Um único gato pode predar um número considerável de animais num único dia”, explica. Com o tempo, isso provoca defaunação, que significa a queda drástica na abundância de espécies e até extinção local, fenômeno já documentado em ilhas ao redor do mundo.
A presença de pets em áreas naturais protegidas, como cachoeiras e trilhas, também preocupa, segundo Samuel. Muitas dessas áreas estão dentro de unidades de conservação, criadas justamente para reduzir interferências humanas. A entrada de animais domésticos nesses locais gera estresse na fauna, desequilíbrio ecológico e risco de contaminação. Fezes de cães, por exemplo, podem carregar patógenos capazes de alterar a dinâmica de rios e solos. Do outro lado, o próprio animal de estimação pode contrair doenças que ficariam restritas à natureza se não houvesse esse contato.
Diante desse cenário, debates recentes na área de manejo ético falam sobre castração, identificação por microchip, programas de captura, esterilização e devolução (TNR) e educação comunitária. Samuel evita hierarquizar soluções, ele insiste que nenhuma medida isolada dá conta do problema. É preciso combinar políticas públicas, dados sólidos e engajamento da população. Nesse contexto, destaca dois programas federais lançados recentemente: ProPatinhas e SinPatinhas.
O ProPatinhas pretende mobilizar municípios para elaborar planos de manejo populacional ético, com controle integrado de cães e gatos. Já o SinPatinhas busca “tirar os animais da invisibilidade”, reunindo informações para orientar castração, vacinação, microchipagem e ações contra o abandono e os maus-tratos. “A existência de um programa nacional certamente trará impactos positivos a médio e longo prazo”, avalia. Uma das primeiras mudanças visíveis é a possibilidade de gerar, pelo Gov.br, uma espécie de “identidade” para o pet, passo simples que pode fortalecer a responsabilização de tutores.
Quando o tema é castração, Samuel recusa tanto o tom de panaceia quanto o de demonização. Ele vê o procedimento como ferramenta importante, mas limitada se não houver política consistente por trás. “A castração é só um dos instrumentos que podem ser utilizados no controle populacional de cães e gatos; sem um programa mais robusto, acaba sendo ‘enxugar gelo’”, resume. Para ele, Dezembro Verde precisa ir além de mutirões pontuais e funcionar como um convite a olhar a relação com os animais de forma menos romantizada e mais consequente.
Essa mudança passa por rever a linguagem do cotidiano. O biólogo questiona o uso massivo de expressões como “mãe de pet” ou “pai de pet”. Não se trata de policiamento de vocabulário, mas de lembrar que parentalidade envolve preparar um ser para viver de forma autônoma, algo que não vale para cães e gatos. “A relação com um pet não é de cuidado parental, mas de minimização de danos numa convivência entre um animal não humano e um ambiente construído essencialmente para humanos”, explica. No caso dos gatos, que sofreram poucas alterações genéticas na domesticação e podem percorrer quilômetros em uma noite, o desafio é conciliar seus comportamentos naturais com a segurança deles e da fauna ao redor.
Na avaliação de Samuel, falar em “convivência responsável” é reconhecer que esses animais foram moldados ao longo do tempo pela intervenção humana e, por isso, não podem ser simplesmente recolocados em ambientes silvestres. “Cabe-nos a responsabilidade pelo seu bem-estar. Devemos garantir cuidados adequados e proporcionar qualidade de vida aos animais com quem escolhemos partilhar parte da nossa própria história”, afirma. Tratar cães e gatos como objetos substituíveis, passíveis de descarte quando incomodam, contraria essa lógica.
A presença de animais domésticos em áreas naturais também preocupa o biólogo. Ele afirma que a entrada de cães e gatos em ambientes como trilhas e cachoeiras não representa apenas um risco ao ecossistema, mas também ao próprio animal. “As cachoeiras, de forma geral, estão inseridas em unidades de conservação. Esses espaços são protegidos porque a presença de animais domésticos pode causar estresse à fauna local, atuar como vetor de doenças e desequilibrar processos ecológicos”, explica. Ele acrescenta que os riscos são compartilhados. “Os pets também podem contrair enfermidades que permaneceriam isoladas no ambiente silvestre. Às vezes, a pessoa acha que está oferecendo um lazer ao animal, mas na verdade está expondo duas populações distintas a um perigo real.”
Para Samuel, o debate sobre abandono precisa ser acompanhado de discussões sobre manejo ético, microchipagem e educação comunitária. Ele reforça que nenhuma ação isolada é suficiente. “Não existe solução única. Qualquer política pública séria precisa de dados concretos e de um conjunto de medidas articuladas”, afirma. Nesse sentido, ele vê avanços no surgimento de programas federais recentes. “O ProPatinhas e o SinPatinhas são iniciativas importantes porque mobilizam municípios, organizam informações e tiram esses animais da invisibilidade. Só é possível planejar políticas eficazes quando sabemos quantos animais existem, onde estão e em quais condições vivem.”
O biólogo também destaca a criação da carteira de identidade para pets, disponível pelo Gov.br, como um passo simples com potencial de impacto. Para ele, a identificação facilita o controle populacional e fortalece a responsabilização dos tutores. “A sociedade precisa entender que esses animais não podem mais ser tratados como elementos descartáveis. Nós os domesticamos e alteramos profundamente suas características ao longo do tempo, o que significa que a responsabilidade é nossa.”
Ao falar sobre convivência responsável, Samuel defende uma visão menos romantizada da relação entre humanos e animais. “É fundamental compreender de onde vem esse vínculo e o que ele significa na prática. Cães e gatos não são filhos, porque parentalidade envolve preparar alguém para viver de forma autônoma”, afirma. Ele explica que essa diferença não diminui o afeto, mas coloca a relação em outro campo. “Trata-se de garantir bem-estar, segurança e qualidade de vida. Esses animais não podem ser reintroduzidos na natureza e dependem inteiramente de nós.”
Segundo ele, a ideia de abandono como problema individual impede compreensão mais ampla do fenômeno. “Cães e gatos foram domesticados por nós. Perdemos o controle da situação e precisamos recuperá-lo de forma responsável. Não se trata apenas de sofrer pelas histórias que vemos, mas de agir coletivamente para evitar que elas se repitam.” Samuel aponta que abandono, maus-tratos, impactos ecológicos e problemas de saúde pública são todos sintomas da mesma origem: a falta de gestão adequada de uma população criada por humanos.
Quando questionado sobre a castração, ele é categórico ao afastá-la do papel de solução mágica. “A castração é uma ferramenta importante, mas sem um programa robusto acaba virando enxugar gelo”, relata. Para ele, Dezembro Verde deveria funcionar como um período de reflexão mais profunda sobre o que significa manter um animal doméstico. “A relação com um pet exige consciência de que estamos compartilhando nossa vida com uma espécie não humana, cujas necessidades são diferentes das nossas. A campanha só faz sentido se conseguir provocar esse tipo de reflexão.”




