Dificuldades, orgulho, amor e frustração: prestes a deixar Itabira, Roberto Gaúcho abre o coração e fala sobre o turbilhão que foi dirigir o Valério
A temporada do Valério foi um misto de euforia, dificuldades e esperança. No final, o já conhecido gosto da decepção, desta vez com uma pitada de “foi por pouco”. Realmente passou perto. Mais perto do que nunca. O Dragão esteve a um jogo de chegar à final da Terceira Divisão e de garantir o acesso […]
A temporada do Valério foi um misto de euforia, dificuldades e esperança. No final, o já conhecido gosto da decepção, desta vez com uma pitada de “foi por pouco”. Realmente passou perto. Mais perto do que nunca. O Dragão esteve a um jogo de chegar à final da Terceira Divisão e de garantir o acesso ao Módulo II do Campeonato Mineiro. Mas perdeu quando não podia perder. Uma única derrota em toda competição. Fatal.
Por trás de toda essa trajetória onde sentimentos se confundiram estavam duas imagens muito conhecidas no futebol brasileiro. Roberto Gaúcho, técnico, e Marcelo Ramos, auxiliar, foram a sustentação em meses de turbulência. Enquanto a diretoria se desdobrava para honrar os compromissos financeiros, os dois seguravam o rojão nos vestiários. Os problemas se amontoavam, as dificuldades se agravavam, mas a dupla seguiu firme até o final.
Roberto Juceli Weber, o “Gaúcho”, tem 50 anos, 14 deles dedicado ao futebol dentro das quatro linhas. Começou a carreira no Joinville, em Santa Catarina, e viveu no Cruzeiro suas maiores glórias, nos anos 1990. Ergueu taças de Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Libertadores. Encerrou a carreira precocemente, nos Estados Unidos, por causa de problemas físicos. Mas jogou o bastante para acumular a vivência que o fez se enxergar nos jogadores do Valério. O principal motivo, segundo ele próprio, para permanecer em Itabira até o fim da Terceirona.
“Eu fui atleta, vim de família humilde e venci no futebol. Então eu olhava para os garotos correndo atrás de um sonho e isso não me deixou desistir”, comenta o treinador, que agora aguarda propostas para saber que rumo tomar na carreira.
Roberto recebeu a reportagem de DeFato Online na casa em que passou os últimos seis meses em Itabira, no bairro São Pedro, ao lado da esposa Heloísa Weber e do filho Robertinho, que fez parte do elenco do Valério. Em uma entrevista franca, não escondeu que o tamanho das dificuldades encontradas no clube o surpreendeu e até que chegou a pensar em desistir. Contou sobre como era o clima nos vestiários e de como ele e Marcelo Ramos tiveram papel determinante como “pais e psicólogos”, sobretudo para os mais jovens.
Roberto Gaúcho passa os últimos dias em Itabira resolvendo questões particulares. Marcelo Ramos já está em Salvador, com a família. Antes de ir embora, o agora ex-treinador declara amor ao Valério e gratidão às pessoas que o ajudaram em Itabira (fez questão de citar nomes). Confira tudo logo a seguir!

Sei que é complicado resumir tanta coisa em uma única resposta, mas se fosse fazer um resumo desse tempo em Itabira, como seria?
Foram seis meses de aprendizado. Foi bom para a gente. Apesar de tudo, de todas as dificuldades, a gente encarou. Sabíamos que não ia ser fácil, mas demos o melhor. Saímos de cabeça erguida, a comunidade nos ajudou bastante, o povo de Itabira é muito bacana. Eu vim com minha família, minha esposa, fizemos amizades com outras famílias. Uma pena que faltou o acesso por um detalhe. Mas futebol é assim mesmo, a gente que lida no meio da bola sabe disso. Fico na torcida para que o Valério consiga no ano que vem fazer um time forte e voltar à elite do futebol mineiro. É um time com muita tradição, tem camisa, tem torcida. Saímos tristes, mas é vida que segue. O Marcelo Ramos já está em Salvador e eu estou aqui ainda para resolver alguns problemas. A gente fez o que pôde, contribuiu, ajudou muito o Valério com muito trabalho e humildade. E o mais importante foi que os jogadores entenderam, eles que são as estrelas, e fizeram tudo dentro de campo. Apesar de todas as dificuldades, eles honraram a camisa do Valério.
De certa forma, as dificuldades encontradas no Valério o surpreenderam?
Eu imaginava que teríamos dificuldades, mas não tantas como encontramos. Eu e o Marcelo Ramos fomos treinadores, psicólogos, pais, ajudamos o Valério financeiramente de várias maneiras. O pessoal nos ajudou e confiou em nós pela nossa transparência, nossa humildade e pela nossa história no futebol. Torcedores do Cruzeiro, do Atlético, do Valério, nos ajudaram bastante. Só temos que agradecer a várias pessoas, que nos deram alimentação e dinheiro. Só temos que agradecer à comunidade de Itabira, que nos abraçou e abraçou aos jogadores. Foram seis meses de muito trabalho. E também de muitos problemas. Mas a gente superou todos.
Teve um momento que te abalou mais, algo mais forte que o fez balançar?
Tiveram vários momentos. Eu chegava em casa e minha mulher via que eu estava arrasado, não conseguia nem dormir. Ficava muito chateado pelos atletas, você pega amor por eles, meu filho estava jogando também. Eu fui atleta, vim de família humilde e venci no futebol. Então eu olhava para os garotos correndo atrás de um sonho e isso não me deixou desistir. Cortaram a luz, não tinha material para treinar, não tinha campo, não tinha ônibus, não tinha academia. Isso tudo a gente conseguiu providenciar. É muito triste, mas, graças a Deus, o povo abraçou e o Valério chegou onde chegou. Por um detalhezinho a gente não subiu. Chegamos na partida decisiva com quatro titulares absolutos machucados e assim mesmo jogamos de igual para igual. Empatamos fora de casa e perdemos em casa por uma fatalidade. Em 14 jogos, perdemos só um. Mas é como falei, a gente sai de cabeça erguida, com a consciência de que fizemos um trabalho brilhante, dentro e fora de campo.

Você se reconheceu nesses atletas?
Um pouco foi. O Marcelo também tem essa história, saiu de uma favela de Salvador, jogou em alto nível em vários países, é ídolo. A gente conversava muito, temos uma amizade de 25 anos. E nós sentimos muito pelos jogadores, porque tudo que eles passaram eu passei no meu início de carreira. Dificuldades de alimentação, não tinha campo para treinar, não tinha bola. O torcedor não sabe de muita coisa. A gente não passava para não ter mais problemas. Mas nos abraçamos, nos fechamos no vestiário, comissão técnica e jogadores. Eles nos respeitaram bastante. Eu fui um pai para muitos desses jogadores, especialmente os mais jovens. Eu sai de casa com 14 anos, sonhando em ser um jogador de futebol, e ali tinham vários atletas com potencial para jogar em time grande. Agora fico na torcida, devo acertar com algum clube em breve e, com certeza, vou levar vários dos jogadores que nos ajudaram aqui, além de indicar para times que temos bons relacionamentos.
De verdade, pensou em desistir em algum momento?
Cheguei a pensar, mas aí vinha para casa, ficava refletindo sobre o compromisso, demos nossa palavra ao presidente e aos atletas. Eu acredito que se a gente tivesse largado, os jogadores iriam embora. Eles viam que a gente comprou a briga e que dávamos o melhor a eles. O que eu, o Marcelo e a comissão técnica podíamos fazer, a gente fez. Levávamos os atletas para comer no Campolar, comida boa; e no Chico Savassi, onde todos os dias iam quatro jogadores para almoçar. Ainda temos que agradecer muito à Tia Eliana, que forneceu tudo para nós; ao João, do Hortifruti Central, que é um irmão que eu fiz, onde eu peguei quase R$ 3 mil de frutas e carnes; ao pessoal do JL, o Kiko e o Joel, que nos ajudou com muitos alimentos; ao Amigão, das ferragens, por toda a suplementação; e a outras pessoas que se eu estou esquecendo peço perdão. Muitas coisas a gente conquistou através da amizade, do nosso trabalho e da nossa história no futebol.
De qualquer forma, podemos dizer que essa experiência no Valério te deu uma “casca” muito grande como treinador…
Verdade. Estou preparado. Fui atleta profissional, comentarista da Globo e do SporTV, empresário e agora fui treinador e gestor de pessoas. Estou preparado para ser treinador de qualquer clube. Eu sempre falei que meu sonho é treinar o Cruzeiro. Dentro de dois ou três anos acredito que Deus vai me dar essa oportunidade. Vai aparecer algum clube. Todo mundo estava falando que a gente tinha acertado com o Ipatinga, mas a gente não chegou ao acordo. Agradeço o interesse deles, mas afirmamos que só iríamos conversar após as finais. Acho que eles ficaram um pouco chateados e não chegamos a um acordo. Estamos livres para conversar e esperamos o mais rápido possível assumir uma nova equipe. Tomara que tenha uma estrutura boa, para que possamos nos preocupar somente com o trabalho dentro de campo.

Nesses seis meses, você e o Marcelo viram de perto o que é a última divisão do Campeonato Mineiro. Que análise faz da situação do futebol estadual?
É difícil. São muitos gastos, estádios sem condições nenhuma de jogar. Na minha opinião, o estádio do Valério era um dos três melhores e não entendo até agora porque não pudemos usá-lo. Fizemos todos os jogos fora de casa, a torcida não viu o time jogar na sua cidade. E o estádio do Valério é muito bom, tem totais condições. Jogamos em estádios que o vestiário não dava nem para entrar, não tinha como entrar com o ônibus. Mas também jogamos em estádios muito bons, como o de Pouso Alegre e a Arena do Calçado, em Nova Serrana. Sobre as equipes, fiquei surpreendido. Tinham times muito fortes, a terceira divisão daqui é bem mais forte que a de Santa Catarina e a do Rio Grande do Sul, mas a Federação Mineira deveria ajudar muito mais a competição. Ajudar com dinheiro, com bola, não cobrar pela arbitragem. É um absurdo você pagar R$ 3 mil a cada jogo. A Federação Mineira não ajudou em nada, isso é muito ruim para os times pequenos. Parece que eles não querem que o futebol do interior cresça.
As tratativas com o Ipatinga deram errado, mas há algo engatilhado para o futuro?
Estamos esperando. Nosso empresário é de Belo Horizonte e está em contato com clubes. O Marcelo continua comigo, é meu auxiliar. A qualquer momento pode tocar o telefone e a gente vai embora. Ainda não sei se será aqui em Minas ou outro estado. A única proposta concreta que tivemos foi do Toledo, no Paraná, e estamos esperando uma resposta. Eu conversei com o presidente, mas ele já estava em contato com outro treinador. Se não houver acerto, ele deve nos levar. É um time de tradição e de muita estrutura.
Ao fim de mais uma temporada sem o acesso, o Valério terá novamente que se reerguer, começar do zero. Como imagina que será essa retomada e o que deixa de mensagem para o clube e o torcedor?
Vai ser difícil. Mas eu deixo meu carinho e minha gratidão por terem aberto as portas para mim e ao Marcelo Ramos. A gente sai de cabeça erguida. Podem ter certeza que sempre estarei torcendo pelo Valério. Peguei um amor muito grande pelo clube, pela instituição, pelas pessoas que trabalham ali dentro. Deixo meu abraço a todos os funcionários que cuidam de tudo ali com muito carinho. Que o Valério se reestruture, se apegue a pessoas competentes para fazer uma gestão bacana. E que volte. Porque é clube de muita tradição e muita camisa. Tem que fazer categoria de base e se fortalecer. Fazendo assim, tenho certeza que em dois ou três anos o Valério estará de volta à primeira divisão. Mas tem que começar a fazer o planejamento desde janeiro, para começar a trabalhar já em março, ou abril, como foi com a gente. Começamos a trabalhar três meses antes de começar a competição, por isso que conseguimos trazer os jogadores certos. Isso é muito importante. Se tiver uma comissão que vista a camisa e uma gestão séria no futebol, tenho certeza que o Valério vai voltar à primeira divisão, lugar de onde nunca deveria ter saído. Da minha parte, eu só tenho que agradecer a todo mundo de Itabira, fiz amizades muito sinceras enquanto estive aqui. Vou levar o Valério no meu coração.