Documentário da UFMG revisita operação da PF sobre o Memorial da Anistia e retoma debate sobre o projeto interrompido
Produção da TV UFMG relembra conduções coercitivas e buscas na Reitoria em 2017, aponta arquivamento no MPF em 2020 e reacende dúvidas sobre o estágio atual do Memorial
A UFMG lança na próxima terça-feira (17), às 19h, o documentário “Esperança equilibrista”, um marco da luta da universidade em defesa da democracia, que volta ao dia 6 de dezembro de 2017, quando uma operação da Polícia Federal conduziu coercitivamente gestores da instituição durante investigação sobre supostas irregularidades no Projeto Memorial da Anistia Política do Brasil. A obra, com 90 minutos, busca reconstruir o episódio a partir de depoimentos de envolvidos e de especialistas ouvidos pela produção, e recoloca em pauta a relação entre investigação, exposição pública e autonomia universitária.
O filme parte do impacto simbólico do nome da operação, “Esperança equilibrista”, referência a trecho de O bêbado e a equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc. Segundo a divulgação da UFMG, o compositor protestou contra o uso e registrou repúdio por escrito na época. O documentário inclui entrevista com João Bosco no Rio de Janeiro, em que ele lê a nota que contestava o sentido político da apropriação do título da canção.
Além das conduções coercitivas, a operação cumpriu mandados de busca e apreensão no prédio da Reitoria e em outros endereços, com participação de auditores da Controladoria-Geral da União e do Tribunal de Contas da União, conforme a UFMG. Para o professor Fernando Jayme, da Faculdade de Direito, o aparato foi desproporcional, e o filme registra a crítica ao custo e ao uso de força num contexto em que, segundo ele, não houve resistência ao cumprimento das ordens.
A produção também retoma o desfecho da apuração, na qual o Ministério Público Federal em Minas concluiu que não havia comprovação de crimes e pediu o arquivamento da investigação policial em junho de 2020. A decisão foi homologada pela 5ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, com arquivamento também do inquérito civil que apurava supostas irregularidades ligadas ao Memorial. Em trecho citado na divulgação, a reitora Sandra Goulart Almeida relata alívio com o arquivamento e afirma que permaneceu uma sensação de injustiça por causa da repercussão que, à época, associou a Universidade a desvios de recursos.
Ao tratar do caso, o documentário traz avaliações de juristas e cientistas políticos sobre o uso da condução coercitiva. A professora Marjorie Marona, da UniRio, sustenta que o instrumento foi aplicado sem a presença das condições previstas em lei, como risco de fuga ou tentativa de obstrução, e que não houve convite prévio para colaboração. A obra também amplia o recorte para o contexto de ações policiais que atingiram universidades federais na década passada, sugerindo um padrão de atuação que extrapolaria um episódio isolado.
O Memorial da Anistia aparece como eixo central dessa narrativa, e a divulgação do filme ressalta que a investigação e sua repercussão atingiram o projeto. Ainda assim, o texto da UFMG não detalha, neste anúncio, em que estágio está hoje a implantação do Memorial, quais frentes seguem em andamento e quais entraves persistem para que o espaço cumpra a função pública anunciada quando foi concebido. É justamente esse ponto que tende a ganhar peso na leitura pública do documentário, já que o filme reabre a pergunta sobre o que ficou, na prática, para além do trauma institucional e do arquivamento formal das apurações.
Esperança equilibrista tem direção e produção de Olívia Resende e Tiago de Holanda, com roteiro assinado por Holanda. A estreia será no auditório da Reitoria, em sessão aberta à comunidade universitária.




