Duas em cada três pessoas com Alzheimer são mulheres; sintomas podem começar aos 45 anos
Pesquisadores afirmam que o Alzheimer pode começar a se desenvolver décadas antes dos primeiros sintomas
Durante muito tempo o Alzheimer foi associado apenas ao envelhecimento, mas estudos investigam como as oscilações hormonais durante a perimenopausa e a menopausa afetam o cérebro feminino.
Pesquisadores afirmam que o Alzheimer pode começar a se desenvolver décadas antes dos primeiros sintomas.
Reportagem do Fantástico, noticiário dominical da Globo, perguntou a mulheres sobre a doença, que hoje faz parte da vida de Maria Edileusa da Silva e família, que teve sua rotina completamente alterada para dedicar cuidados à mãe, portadora desse mal.
A reportagem encontrou histórias semelhantes em outras família.
Há quem tenha convivido com a doença da mãe, da tia, da patroa ou de vizinhos e até trabalhe diariamente com pacientes diagnosticados com Alzheimer.
Essas histórias levaram a neurocientista italiana Lisa Mosconi a se aprofundar no tema. Sua avó teve Alzheimer, e das quatro irmãs da família, três desenvolveram a doença, enquanto o único homem não foi diagnosticado, o que levou Lisa a concentrar as pesquisas no efeito Alzheimer sobre o cérebro feminino.
Em uma universidade dos Estados Unidos, ela lidera um estudo de três anos sobre a saúde cognitiva das mulheres e, segundo ela, os resultados obtidos já no primeiro ano apontam descobertas importantes, indicando que em cada três pessoas com Alzheimer, duas desenvolvem a doença.
“Essa diferença não pode ser explicada apenas pelo fato de as mulheres viverem mais que os homens”.
As pesquisas levaram à conclusão que as oscilações hormonais que ocorrem durante a perimenopausa, fase que antecede a menopausa, e a menopausa, também desempenham um papel importante.
Lisa explica que o hormônio exerce diversas funções importantes para o cérebro feminino, e o estrogênio contribui para os níveis de energia, melhora o fluxo de sangue para o cérebro, tem ação antioxidante e anti-inflamatória, participando do funcionamento dos neurônios.
“Quando seu níveis diminuem, o cérebro deixa de contar com essa proteção. O cérebro passa a perder um hormônio importante. O Alzheimer não é uma doença da velhice. Ele começa na metade da vida, podendo ter início de forma silenciosa por volta dos 50 anos ou até antes, a partir dos 45”.
O neurocientista brasileiro Mychael Lourenço explica que já existem exames capazes de identificar alterações iniciais relacionadas à doença; marcadores presentes no sangue conseguem indicar sinais precoces do Alzheimer.
Esse exames já foram aprovados nos Estados Unidos e poderão chegar ao Brasil nos próximos anos. “Vai ser um avanço importante”.
No entanto, Mychael ressalta que é importante diferenciar os esquecimentos ocasionais de um quadro neurodegenerativo.
O principal sinal de alerta é quando a perda de memória interfere na rotina e apresenta piora progressiva ao longo do tempo.
“É importante saber diferenciar um esquecimento temporário, que pode ser recuperado depois, de um quadro neurodegenerativo”.
Lisa Mosconi afirma que reduzir o risco de Alzheimer passa por uma combinação de cuidados com a saúde, como a reposição hormonal para mulheres sem contraindicações, atividade física regular, alimentação saudável, redução do consumo de alimentos ultraprocessados, controle do estresse, boa qualidade do sono, evitar o cigarro e reduzir o consumo do álcool.
“Níveis elevados de cortisol, hormônio relacionado ao estresse, podem prejudicar o humor e a memória”.
O Fantástico também ouviu mulheres que já adotam hábitos como atividade física, alimentação equilibrada e exercícios para manter o cérebro ativo, como a artista plástica Maria do Socorro Leal, de 90 anos, que segue trabalhando e acredita que cuidar da saúde é fundamental.
Para ela, “é importante saber que a ajuda está no caminho”.