E Deus ensinou o homem a transformar o lixo em riqueza

Reator molecular de gás: um projeto simples para acabar com a poluição total e ainda gerar riqueza

 
Doze meses são milhões de anos no contexto bíblico. Somente assim se pode entender que Deus criou o mundo em sete dias. No oitavo, descansou-se. Mas no nono, voltou ao trabalho e ensinou aquele a quem criou a transformar o lixo em riqueza. Um dos que ele deu esse poder nasceu na Itália, tem 68 anos de idade, casado, três filhos. É filho de um engenheiro que, talvez por capricho do destino, trabalhou para Mussolini durante a Segunda Guerra Mundial e andou projetando equipamentos substitutos de petróleo para serem usados em campos de batalha como energia. Após a derrota da Itália e da Alemanha, ou de Benito Mussolini e Adolf Hitler, os líderes fracassados e odiados do Fascismo e do Nazismo, ele acabou vindo para o Brasil, trazendo a família. No seio dessa família, o filho, que tinha seis anos de idade, batizado e registrado como Giuseppe Betti, chegava para, mais tarde, naturalizar-se brasileiro.
 
Depois de perambular pela Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, Betti foi parar em Praia Grande, no litoral de São Paulo, a 60 quilômetros da capital. Aí ele deu asas às suas ideias. Depois de inúmeras trombadas pela vida afora, conseguiu chegar naquilo que muita gente diria ser impossível: pegar todo o lixo, exceto o reciclável, que já tem destinação certa e é riqueza incontestável, e transformá-lo em produtos úteis e valiosos e torná-lo gás puro para mover automóveis, ou vapor que seria transformado em energia elétrica.
 
DeFato chegou ao homem que Deus criou, que estava em sua oficina de Praia Grande, no dia 2 de março, terça-feira, às 10 horas da manhã, e com ele falou ao lado de empresários itabirano e paulista. A entrevista está transcrita abaixo.
 
 
Como é essa história da solução encontrada pelo senhor para o lixo?
A história é muito mais prosaica do se pode pensar. Em 1978, houve a primeira grande crise do petróleo. Aí, a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) se formou, cortou os suprimentos dos americanos e do resto do mundo ocidental. O Brasil, que estava na fase de pau na máquina, historicamente, os combustíveis alternativos sempre foram pesquisados durante as guerras mundiais, porque os países da Europa que eram o lucro da Primeira e Segunda Guerra Mundial não têm petróleo. Na Primeira Guerra Mundial o mundo era movido a carvão, na 2ª Guerra Mundial o mundo era movido a petróleo, mas os carros, já em 1914, eram movidos a petróleo, então faltou o petróleo para os veículos, derivados dos altos-fornos siderúrgicos, que produzem uma grande quantidade de gás. Na Europa toda, principalmente na Itália e na França especialmente, desenvolveram gases a carvão vegetal para fazer gás para substituir a gasolina dos automóveis. Na série que vocês viram as fotografia, tem um negócio igual a esse pedal atrás, uma carretinha, enchia de carvão e ia embora até acabar o carvão, parava, enchia de novo. Isso ocorreu durante a Primeira Guerra e, quando veio a Segunda Guerra Mundial, a história se repetiu, só que a quantidade automóveis era muito maior. Então, desenvolveram-se pelo menos uns 30 projetos diferentes para os automóveis. Acabou a guerra, a gasolina virou ferro velho e todo mundo esqueceu. Quando veio a crise de 1978, especialmente em São Paulo as indústrias tiveram que parar os fornos porque as quartas de petróleo não davam. Durante a Segunda Guerra Mundial, meu pai era engenheiro da Marinha Italiana, do Laboratório Experimental… que é o segundo maior da Europa e como ele falava alemão, foi agregado a uma comissão mista Ítalo-Alemã para combustíveis alternativos. A Alemanha estava em guerra e precisava de combustível e eles não tinham petróleo, então eles começaram a fazer a gasolina sintética através de carvão mineral e começaram a re-pesquisar tudo aquilo que tinha sido feito em termo de gás ozônio, na época. Acabou a guerra, a Itália perdeu a guerra junto com a Alemanha, meu pai resolveu sair da Itália.
 
Seu pai defendia o Nazi-Fascismo?
Sim, meu pai era da Marinha Italiana, ficou do lado do Mussolini e de Hitler. Nada a ver. Ele acompanhou a guerra até o fim, depois de 1945, como engenheiro da Marinha e técnico submarino, especializando-se em submarinos. Quando ele se mudou aqui para o Brasil, veio trabalhar e montou indústrias em várias cidades brasileiras. Eu tinha seis anos, andei com ele em todas as indústrias que ele montou. Já estava alfabetizado em italiano com seis anos, porque aprendi a ler muito cedo, gostava de leitura, minha mãe me ensinou a ler e escrever. Não me lembro de quando aprendi português, me lembro de não ter tido nenhuma dificuldade em me enturmar com a molecada da rua.
 
Como vamos chegar à questão do lixo? Às suas descobertas?
Vamos com calma que chegaremos lá. Volto a repetir que a história é longa e quero falar de maneira clara para ser entendido por todos. Olha, que nunca fui entrevistado por repórter nenhum sobre esse assunto. Então, vamos. Ao vir para o Brasil para trabalhar, meu pai trouxe a biblioteca técnica dele, inclusive todas as anotações que tinha da tal comissão mista de combustíveis alternativos de que falei. Quando fundamos a nossa pequena empresa em 1976, o objetivo era resolver problemas de energia, gerar energia.
 
Já que temos que ter mesmo paciência, vamos por etapas: como foi a sua trajetória no Brasil?
Em 1972, já estávamos no Brasil e fomos para Camaçari, na Bahia. Mas fui criado no Rio de Janeiro, daí fui para Betim, depois chegamos a São Paulo, onde fiquei o resto da vida, aqui em Praia Grande. Também, morei cinco anos na Bolívia, onde me nasceu a idéia de montar a empresa como ela é, que é uma empresa multidisciplinar para resolver problemas pontuais. Fundamos a empresa recuperando a Adutora Itapacurá no Recife. Naquela época, a adutora tinha sido feita, estava novinha, tendo custado 40 milhões de dólares e a água não chegava a Recife. A adutora ia ser abandonada porque não tinha solução, aí inventamos uma solução, vendemos a solução para Compesa (Companhia Pernambucana de Saneamento), recuperamos a adutora e hoje está lá, 30 anos depois está lá funcionando.
 
Aí, vamos chegar na crise do petróleo?
 
Baseado em todas essas informações acumuladas durante duas guerras, quando houve a crise de 1978 meu pai falou: a gente precisa fazer alguma coisa para resolver esse negócio do petróleo, as empresas estão parando, e chegou a hora de fazer alguma coisa; tem aquele estudo sobre gás ozônio, aí nós desenterramos tudo isso e pegamos um projeto básico, a indústria do papel, que é a que está mais na frente no uso da bioenergia, já estava acostumada a plantar eucalipto, fazer energia para fazer papel. Para eles não é segredo nenhum, então, o que tem aqui à vontade, sol, água e calor, isso dá o que necessitamos, a biomassa. O que digo para os meus filhos, como é que funciona o mundo, o mundo funciona assim: florestas, dez milhões de anos, carvão e petróleo, esse é o mundo atual. Voltando à história desse gás ozônio específico, fomos para a prancheta, desenhamos alguma coisa, colocamos para funcionar, funcionou perfeitamente, saímos vendendo equipamentos para indústria, apareceu um cidadão de Recife que comprou a tecnologia, levou e não pagou, acabou quebrando e a gente rodou junto. Nesse meio tempo, o petróleo voltou a ser barato e todo mundo estava acostumado a bombear petróleo, não carregar toco de palito, então, o mercado se esfriou, desapareceu e por um bom tempo.
 
Veio a quebradeira para a família Betti? Durante quanto tempo?
Ah, foram 30 anos de paradeiro completo, depois as condições do mundo mudaram completamente. Nessa época, já tinha registrada a patente da invenção. Mas, vamos continuar por etapas: primeiro surgiu para a consciência humana o problema da poluição, do aquecimento global; segundo, o mundo passou a ficar afogado em lixo; terceiro, a energia custa hoje, seja o petróleo ou gás natural, praticamente quatro vezes mais o que custava há 30 anos em valores reais. O Brasil é privilegiado em energia elétrica, mas agora estamos zerados. Se a economia pegar, não tem mais energia, podemos parar sem mais nem menos. Pode ser que essa energia de que dispomos não sustente o crescimento que se espera do país. A partir de uma caldeira que tínhamos e que precisávamos fazer funcionar para testes, sem querer, a partir de resultados que surgiram, transformamos lenha em gás puro.
 
Só para entender melhor a sua história, depois de 30 anos parados, quando começou essa história nova, que ano era?
Final de 2008. Foi aí que fizemos para uso próprio uma caldeira de madeira com o projeto modificado. Por motivos práticos, desenvolvemos um projeto horizontal que aceita a madeira como ela é introduzida no recipiente. O que acontece é que você tinha que alimentar esse equipamento com um toco de eucalipto de 10cm e era uma mão de obra, era um custo agregado, enquanto na horizontal você alimenta com o pau de eucalipto e vem para padaria de um metro, ou de dois, sem precisar manuseá-lo, pois ele vem da floresta cortado, tem capacidade de aceitar a madeira em tamanhos maiores, até quatro metros podemos usar.
 
Agora chegou a hora do lixo: resolveu o seu problema por acaso?
Durante uma das operações de gerar vapor, achávamos madeira velha na rua, não precisava comprar madeira para fazer o vapor, esse saía de graça, estava sobrando nos restos de construção civil, móveis velhos, tudo o pessoal joga na rua. E adicionamos mais ingredientes, como o lixo orgânico. Só material orgânico, plástico não, esse é energia pura, um quilo de plástico equivale a um quilo de petróleo. Estávamos queimando normalmente junto com a lenha, luva velha, sapato, porque a gente precisava de vapor e fizemos, portanto, o teste com o lixo orgânico, que é uma grande dor de cabeça humana.
 
Aproveitando a informação, quando o senhor fala na segunda pessoa do plural, nós, refere-se a quem?
Ao meu pai, que já faleceu e aos meus três filhos que trabalhavam comigo. Hoje só tenho um que está aqui comigo, os outros foram criar filhos no Canadá.
 
O senhor achou a solução, passou a transformar lixo mais madeira ou resíduos de poda de árvore em gás natural, montou esse projeto-piloto. Qual a capacidade dessa usina?
 O reator molecular de gás combustível produz mil kg por hora. Os módulos que a gente aconselha são 100 toneladas de lixo por dia. O espaço que ele ocupa é metade desse barracão aí, ou, aproximadamente uns 100 m².
 
Quanto custaria esse projeto para industrializar 100 toneladas de lixo por dia?
O custo do equipamento, só da parte de fabricar gás é da ordem de um milhão a dois por tonelada/hora. Seria preciso organizar tudo, preparar, montar. Só tenho que dizer que o projeto, além de não custar caro, além de acabar com o lixo, transforma o lixo em riqueza. O retorno do investimento é imediato. E pode ser usado no aproveitamento do vapor para ser transformado em energia elétrica.
 
Se chegarem aqui 50 prefeitos e disserem que querem montar uma usina, o senhor tem condição de resolver o problema deles?
Sim e vou lhe dizer uma coisa que sempre digo a todo mundo: me traga um contrato e arrumo o dinheiro, os bancos do mundo inteiro têm dinheiro sobrando para projetos verdes.
 
E não apareceu nem um prefeito ainda para encomendar um projeto?
Não apareceu porque estamos a menos de um ano no mercado com esse modelo e projeto, e há uma resistência muito grande: existem dois fatores, primeiro o estado da técnica é o pior inimigo da inovação porque sempre se fez assim, funciona assim. O prefeito, que só pensa em acomodação, diz logo de si para si por que que vou mudar, dá trabalho, e quem decide geralmente não é o dono; então, todas as grandes mudanças aconteceram por pressão de necessidade, agora estamos chegando numa época que o mundo precisa mudar o jeito de encarar o lixo, mas ainda agora no Brasil estão licenciando aterros sanitários para resolver o problema do lixo. Então, enquanto aterro sanitário for a solução, mesmo paliativa, e que dá o grande dinheiro sem muito trabalho, que o lixeiro ganha 50,00 por cada lixo que entra e quando entra e só tem que enterrar, isso aqui só vai interessar dois tipos de clientes: aquele que não pode mais fazer aterro de jeito nenhum e está com problema, ou aquele que vislumbra que vai ganhar dinheiro lá na frente com isso, mais do que ele ganha com aterro. Esse processo instalado no aterro aumenta o horizonte útil do aterro porque o orgânico vai ser consumido e rende a energia que fornece o processo.
 
Já lhe foi encomendado algum estudo ou projeto voltado para a sua usina?
 
Em 1978 e 1979, fizemos gratuitamente um estudo determinando que quantidade de madeira a bacia amazônica trazia nas suas águas, chegamos a um número que correspondia na época a 300.000 barris de petróleo por dia em termos de energia. Isso não deve ter mudado muito, toda árvore que cai no rio, o rio vai trazendo. Baseados nisso, montamos um projeto, oferecemos ao César Cals, que era o ministro de Minas e Energia, um projeto que previa a colocação de postos de coleta ao longo dos rios e amontoa essa madeira em pontos conhecidos, picam essa madeira e parte para a gaseificação de todo o desperdício da região amazônica. Mas o projeto acabou dando em nada, não foi executado.
 
Como funciona a máquina que acaba de nos mostrar, tecnicamente?
Coloca-se fogo na caldeira, faz vapor e com o vapor tocam-se indústrias, faz energia elétrica. Para fazer vapor você coloca o equipamento do lado da caldeira e vai alimentando o gaseificado e o maçarico vai tocando a caldeira. Para o caso de gás natural, só pode ser comprimido a 200kg de pressão para tanques de automóvel. Se você quiser o gás feito ali na outra esquina, você pode botar um cubo com um compressor que manda esse gás para onde você quiser.
 
Então, esse projeto que está diante de nós produz gás?
Gás puro, gás combustível que pode ser usado para qualquer coisa e não perde nada. A única coisa que você precisa é fazer uma pré-seleção do lixo pra evitar que produza o que você não quer. Não vai para a atmosfera e não polui.
 
A Grande São Paulo tem vinte e seis milhões de habitantes. Como o senhor faria para resolver esse problema, considerando que a usina transformaria apenas 100 toneladas por dia?
Vamos esquecer São Paulo, o nosso negócio agora é cidades com até cem toneladas de lixo por dia ou um pouco mais. Para cidades maiores, o tratamento se subdividiria por mais quantidades de usina. Espero que entenda, mas que fique claro: o retorno do investimento é imediato.
 
Conte um segredo para nós: a Rede Globo contratou o senhor para executar um projeto?
Não, estamos sendo contratados por uma empresa que presta serviços para a Rede Globo. Seria um trabalho terceirizado. Uma outra caldeira está sendo montada ali. É um projeto que desenvolvo para a Jonhson & Jonhson.
 
Então, quer dizer que eu, diretor da revista DeFato, de Itabira, humilde e carregando uma bandeira muito simples, a do idealismo apenas, sou o primeiro repórter que o entrevista sobre esse assunto?
 
Sim, você é o primeiro.
 
Em tempo:
 
1.Na evolução dos acontecimentos, um projeto foi preparado para funcionar em Itabira — acredito que não tenha sido, ainda, levado ao conhecimento das autoridades — criado a partir do projeto de Giuseppe Betti — que transformaria o lixo itabirano em energia elétrica com capacidade para abastecer uma cidade das dimensões de Belo Horizonte.
 
2. Esta entrevista é o meu trunfo para o futuro. Vou deixá-la guardada para os anais de minha vida. No futuro, quando estiverem coroando quem resolveu o problema do lixo, evitou que ele poluísse mais, destruísse as nascentes e os cursos de água, podem dizer que pelo menos tentei fazer alguma coisa. Mas, nesse futuro, caso falte alguma coisa para que a vida prossiga normalmente na terra, todas as novas gerações — e não apenas netos, bisnetos, trinetos e outros descendentes — estejam diante do dilema, molhem a boca com a água que resta, se restar, e leiam que esta é mais uma prova de que fiz alguma coisa. E fiz assim: arranquei-me de Itabira, voei para São Paulo e tive a ajuda dos empresários Roque Augusto Liberato e Sérgio do Amaral para chegar ao mapa da mina, além de Marco Antônio Lins Beltrão e Maria Geralda Silveira Costa da B & C Associados.