E lá se foi o meu cachorro Chiquinho!

Qual o real sentido desta existência se, no final das contas, tudo termina em choro e lamentos?

E lá se foi o meu cachorro Chiquinho!
O nome Chiquinho era uma homenagem a São Francisco de Assis: Foto: arquivo pessoal
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Chiquinho era muito chique, ligeiramente charmoso.  O nome homenageava São Francisco de Assis. O Yorkshire foi a energia essencial da casa. O pequenino ser se sentia o dono daquele “imenso” universo. E com razão. O peludo mandava e desmandava, com autoridade e elegância. A sua vivacidade não tinha limites. O “onipresente” cara   perambulava serelepe por todos os cômodos. Ainda sobrava tempo para chegar à janela. Não perdia nada do que se via, ou ouvia, na rua.

Detestava a movimentação de motoqueiros. Contudo, jamais se amedrontava com trovões ou foguetes. Ignorava solenemente a barulheira. O seu cotidiano era previsível.  Corria para lá e para cá o dia inteiro, até certas horas da noite. O mais leve ruído provocava vigorosos latidos, com orelhas eretas e ligeiros abanos de cauda. O som da campainha da porta era motivo para festas e algazarras. O “agitador” adorava receber visitas.

Este xará do protetor dos animais era muito especial. A sua estampa física assemelhava-se à obra-prima do mais sublime dos pintores. Os pelos negros, lisos e brilhantes chamavam a atenção. Duas machas amarelas emolduravam as regiões acima dos olhos. Uma encantadora simetria com mesmo formato e tamanho. Longa pelugem branca se destacava no peito. Assim, o conjunto formava visual fascinante.

Chiquinho transbordava carinho, afeição, alegria e amor incondicional. Observava ritos específicos para momentos especiais.   Aguardava pacientemente, por exemplo, o preparo da sua alimentação. Nestas ocasiões, se esticava nas patas traseira e apoiava humildemente a cabecinha nas dianteiras. Acho que agradecia a Deus pela comida. Às vezes, eu ficava longo período na frente do computador.  Nestas circunstâncias, Ele invadia o escritório, tocava suavemente minhas pernas e encarava-me com firmeza magnética. Em seguida, deixava silenciosamente o local. A nobre atitude significava curiosidade e protesto: “rapaz, o que você tanto faz na frente desta máquina?”.

A magia desta narrativa acaba dramaticamente. De uma hora para outra, Chico foi acometido por grave insuficiência renal. Paradoxo extremo. Até então- com apenas sete anos de idade- desenvolvia uma rotina bastante saudável. Raramente fazia uso de remédios. Na avaliação do veterinário Alexandre Pereira, o pet ingeriu certa planta tóxica do jardim da nossa “nova” residência, apesar de intensiva vigilância.  A natureza é contraditória. Em algumas oportunidades, inspira poetas. Em outras, ocasiona tragédias.

Chiquinho passou por uma semana de intenso e severo tratamento. Durante a noite, o enfermo ficava em nosso lar. O dia inteiro, no entanto, permanecia no hospital. Foi tratado à base de soro e outros medicamentos. O quadro clínico, porém, se agravou. Não teve jeito. Na manhã de segunda-feira (6/7), recebi a tão temida ligação telefônica. Do outro lado da linha, o médico Rafael deu-me a pior das notícias: “infelizmente, o seu moço acabou de falecer”.  Os esforços e súplicas foram em vão.

Fui à clínica para a derradeira despedida. A imagem daquele frágil corpinho estendido na mesa do consultório ficará para sempre em minha memória.  Chiquinho conservava expressão serena.  Os olhos encontravam-se suavemente entreabertos. Pareciam mirar um mundo de sonhos e encantamentos. Naquele instante, invadiu-me uma tristeza dilacerante. Lágrimas desceram copiosamente. Aí pintou o inevitável dilema: qual o real sentido desta existência se, no final das contas, tudo termina em choro e lamentos? Tenho paliativa resposta: se a morte fosse o fim, a vida seria o mais inexpressivo dos fenômenos naturais. E não é.  Acredito na vida depois da vida. Essa teoria vale para humanos e bichos.

E lá se foi Chiquinho! O maravilhoso cão   deixou para a posteridade inesquecíveis exemplos de alegria, gratidão, afeto e amor incondicional. A humanidade tem muito a aprender com os cachorros.  Lá se foi Chiquinho!

PS1:  E lá se foi Chiquinho! O título desta crônica é da lavra de Chico Maia, um dos mais talentosos jornalistas da crônica esportiva nacional. Maia costumeiramente homenageia os amigos que fazem a definitiva viagem com a expressão “e lá se foi fulano”.

PS2: Relutei em redigir esta coluna. Finalmente, resolvi compartilhar o meu sofrimento com pessoas que vivenciaram experiência idêntica. Fica aqui, contudo, o didático alerta: cães não combinam com jardins. Deixem as flores apenas para os poetas.

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