E por que Itabira não é Divinópolis?

Os políticos da terra do Poeta Maior não conquistaram uma mísera cadeira na Câmara Federal ou Assembleia Legislativa

E por que Itabira não é Divinópolis?
Em Divinópolis não tem Pico do Amor Foto: Divulgação

A pergunta, a princípio, provoca simples análise. Itabira e Divinópolis são diferentes em aspectos vários. Começa com a etimologia dos nomes. Uma é cidade do Divino, homenagem ao Espírito Santo.  Nada a ver com o estado federativo. Trata-se de reverência à terceira pessoa da Santíssima Trindade, um dogma do cristianismo. A outra é referência à valiosa pedra brilhante (ita+bira), mais conhecida por hematita nas altas rodas técnicas.

Os dois municípios encontram-se em situação geográfica extrema. Itabira está encravada entre montanhas do Centro- Leste mineiro. Divinópolis é capital informal do Centro- Oeste.  A pólis do Divino abriga 243 mil habitantes, praticamente o dobro da quantidade de moradores da velha Mato Dentro.  Há duas rodovias de ligação entre os dois municípios (221 km). A poesia é maravilhoso ponto de convergência. As localidades são berço de dois expoentes da literatura brasileira.  Carlos Drummond de Andrade é de cá.  Adélia Prado, de lá.

E chega de retórica masturbação. Basta de embromação. Vamos migrar para a ideia central do título da coluna. Aqui está o real sentido da pergunta. Politicamente, o que Itabira tem a ver com Divinópolis? Resposta óbvia ululante: absolutamente nada.  Neste quesito, Divinópolis situa-se a centenas de anos-luz.

A vida real esclarece esta dimensão. Veja bem. Na última eleição- assim como na penúltima e antepenúltima- Itabira não deu conta de eleger deputados.  Uma dúzia de abnegados se aventuraram no pleito de 2026. Veja o resultado final de tamanha “epopeia”.  Mesmo com quase 90 mil votantes, os políticos da terra do Poeta Maior não conquistaram uma mísera cadeira na Câmara Federal ou Assembleia Legislativa. E ponto.  Neste frouxo cenário, qualquer comparação com Divinópolis não faz o menor sentido.

Atenção, itabiranos! Acomodem-se em confortáveis poltronas, apertem os cintos e tomem uma garrafa do tranquilizante Campari.  Respirem fundo e anotem. Os divinopolitanos saíram das urnas com governador, senador, quatro deputados federais e um estadual.  Anotem a placa do caminhão. Que pancada! A vida é assim mesmo. Há anos, Itabira não consegue selecionar um bendito parlamentar. Por que será? Enquanto isto, Divinópolis fez barba(governador), cabelo(senador) e bigode(deputados). A minha narrativa não passa de indisfarçável inveja.

PS1: Vamos escalar o time de Divinópolis:

Governador: Cleitinho Azevedo

Senador: Domingos Sávio (foi vereador e prefeito da cidade)

Deputados federais: Ana Elisa (PT), Lohanna França (PV), Gleide Andrade (PT) e Gleidson Azevedo (Republicanos).

Deputado Estadual: Eduardo Azevedo (PL)

PS2: Coincidência. O “eu lírico” de Adélia Prado já contracenou com o “eu lírico” de Carlos Drummond de Andrade. Foi assim. No “Poema de Sete Faces” (1930), um gauche na vida se apresentou ao mundo:

“Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: vai, Carlos, ser gauche na vida”.

Tempos depois, Adélia respondeu, no poema “com licença poética” (1976), na voz de mulher sincera:

“Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira, carga muito pesada para mulher, esta espécie ainda envergonhada”.

Cisma de itabirano. Manha de divinopolitana. Apenas um ponto em comum.  É genial

Sobre o colunista

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

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