E se o dono do Banco Master topar uma delação premiada?
Daniel Vorcaro é produto final de uma receita onde se misturou talento para farejar dinheiro com ânsia incontrolável de holofotes
A resposta à pergunta acima de tão óbvia ficou ululante. Lógico. Se Daniel Vorcaro matraquear, a República literalmente vem abaixo. Não sobrará pedra sobre pedra no paraíso das bananas. Claro, tudo ainda se encontra no universo das suspeitas, mas as investigações avançam e os indícios de criminalidade são perturbadores. O “neobanqueiro” Vorcaro — natural de Belo Horizonte — nada tem de mineiro. Falta-lhe a discrição típica dos financistas das Gerais, mas sobram a empáfia e exibicionismo de novo rico. E, nesta configuração, deslumbramento não combina com bom senso.
O “astro” belorizontino é produto final de uma receita onde se misturou talento para farejar dinheiro com ânsia incontrolável de holofotes. Um composto pra lá de explosivo. Desta forma, o cara tornou-se pop star. Daniel só andava nos trinques. Desfilava pela passarela brega da alta soçaite nacional exibindo as mais caras grifes planetárias. E tomem Louis Vuitton, Hermès, Gucci ou Dior. São notáveis as festas que o bilionário promovia. O palco do rega-bofe é um condomínio de alto luxo, em Nova Lima, Região Metropolitana de BH. E quando o barulho intenso da balada perturbava algum vizinho? Vorcaro apresentava irrecusável solução para o “impasse”. O incomodado poderia se hospedar em magnífico hotel da capital mineira, com tudo pago. Neste estabelecimento, a diária encontra-se na casa de R$ 2 mil. E ponto.
Assim — com toda esta extravagância — o dono do Master conquistou a fina flor da elite tupiniquim e entrou no seleto grupo dos bilionários. O bico-doce das Alterosas levou na conversa as cabeças coroadas de Pindorama. A lábia encantou políticos, magistrados, artistas, conglomerados de mídia, megaempresários, jornalistas, clubes de futebol, intelectuais e a icônica Faria Lima. Tudo na base do “argent”. Rolou bastante “argent” na arenga.
O script pré-estabelecido se desenvolvia muito bem neste reino da fantasia. Mas, de repente, apareceu o Banco Central do Brasil (Bacen) e degolou a galinha dos ovos de ouro. Num instante, o conto de fadas virou filme de horror. O Bacen descobriu perigosas falcatruas e decretou a liquidação da Master arapuca. E nada é tão ruim que não possa piorar um pouco mais. Na sequência, a Polícia Federal (PF) cumpriu o seu dever institucional e meteu o caipira “gente fina” na cadeia.
A gravidade deste dramalhão, porém, vai além das aparências. Por motivo simples. Todas as esferas da República estariam envolvidas na encrenca. “Negos” do Executivo, Legislativo e Judiciário estariam mergulhados até o pescoço no perigoso mar de lama.O mineirinho come-quieto levou na prosa cintilantes estrelas da nação. Políticos dos mais diversos perfis estão encrencados na mãe de todas as fraudes. Os investigados são de direita, esquerda, centro, centrão, extrema qualquer coisa e até seres ideologicamente híbridos. Consequência da macumba monetária. Nuvens negras pairam ameaçadoramente no céu varonil desta terra abençoada por Deus e amaldiçoada pelo tinhoso da corrupção. Observem alguns indicativos do mau tempo:
- Daniel Vorcaro permaneceu poucos dias na prisão. Uma desembargadora — com rapidez que não condiz com os métodos de um judiciário paquidérmico — abriu as portas da cadeia para o nosso herói. Uma atitude inusitada. Afinal, no Brasil, prisão preventiva costuma durar uma eternidade. A tradicional morosidade legal, por si só, é o mais curto atalho para uma delação premiada;
- O relator da esculhambação do Banco Master, no STF, é o ministro Dias Toffoli. Esse magistrado apresenta comportamento, no mínimo, heterodoxo. De cara, meteu o processo em sigilo total. E qual o motivo para tanto segredo? A bancarrota não é de interesse público?;
- A classe política, de maneira surpreendente, mantém-se num silêncio sepulcral. Os papagaios das redes sociais se emudeceram. Deputado algum (ou senador) faz barulho em cima do rumoroso caso.
A perspectiva é a pior possível. O imbróglio, contudo, pode acabar numa pizzaria do STF. Nesta circunstância, o cadáver do Master seria sepultado numa catacumba da Suprema Corte. E, pior. Vorcaro ainda receberia polpuda indenização pelos “imensos transtornos” causados pelo Estado Nacional. E se esta aberração não prevalecer? Aí, meus caros, o Brasil mergulhará no mais pavoroso escândalo econômico e político da sua história. O Mensalão e a Lava Jato serão inocentes contos da carochinha diante da tempestade que se insinua na turva linha do horizonte. 2026 promete. Irmãos, oremos!
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.
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