Eles precisam de amparo
Presidente da Ampari, Maria Clara Macedo, segura um animal resgatado das ruas durante feira de adoção na clínica Clinvet, em Itabira. A cada edição, o evento atrai dezenas de interessados.
O cão é o melhor amigo do homem, mas a recíproca nem sempre é verdadeira. Se fosse, não haveria tantos animais abandonados nas ruas à mercê da própria sorte. Cenas de cachorros famintos, doentes e maltratados são comuns nos centros urbanos e têm despertado em alguns apaixonados por animais o desejo de fazer algo para mudar a situação.
A Associação Municipal de Proteção Animal da Região de Itabira (Ampari) é uma dessas entidades, criada com o objetivo de resgatar cães e gatos e dar-lhes um novo lar com muito amor e carinho. A associação foi fundada em outubro do ano passado e, desde então, promove ações preventivas e educativas em parceria com órgãos públicos e comunidade.
Como toda organização sem fins lucrativos, a Ampari conta com a colaboração indispensável dos voluntários (14 no total) para resgatar os animais, tratá-los e conseguir novos lares por meio de feiras de adoção. Para levantar recursos, os integrantes fazem paradas solidárias e usam as redes sociais e os meios de comunicação para divulgar o trabalho. “Os animais que a gente vai resgatando e que realmente necessitam de maiores cuidados, precisamos colocá-los em lares temporários”, afirma a presidente da Ampari, Maria Clara Macedo.
Encontrar lares provisórios, contudo, tem sido um dos grandes desafios, porque é a fase em que o animal precisa de zelo para ficar adotável. “A pessoa precisa dar remédio no horário certo, cuidar, dar uma alimentação de qualidade, dar banho e carinho até que aconteça a feira”, explica a presidente. Na falta de alguém que se disponha a cuidar dos cães temporariamente, os próprios voluntários assumem a tarefa – mas é pouco voluntário para muito cachorro.
Outro desafio para a associação é vencer a falta de verbas, já que a Ampari sobrevive de doações e de recursos dos próprios associados. Para continuar o trabalho, a entidade precisa de remédios, ração, dinheiro e pessoas que ajudem na captura dos animais e na organização das feiras.
Kelley Pinho é uma das integrantes da entidade. Ela afirma que inúmeros fatores contribuem para o abandono de animais, principalmente a irresponsabilidade dos donos. “Se há tanto animal nas ruas é porque há um número alto de pessoas que os abandonam. Ser um dono responsável é pensar bem antes de ter um animal. É não transferir uma responsabilidade dele para outros”, diz.
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João Monlevade
Trabalho semelhante também é realizado em João Monlevade. Incomodada com o grande número de animais nas ruas, antes mesmo de se mudar para a cidade, a jornalista belo-horizontina Karen Sartori Lemos procurou saber se já havia algum trabalho de proteção aos animais no município. Ela encontrou, em 2011, Daniela de Paula, que trabalhava no canil municipal. Karen realizou campanhas de arrecadação de ração e medicamentos e abraçou a causa. Com o apoio de Daniela, criou o grupo Cãopanhia do Bem, que conta atualmente com um pequeno grupo de voluntários. “O nosso amor pelos animais nos dá força para seguir em frente, mesmo diante das barreiras que insistem em nos limitar”, afirma Karen.
Os voluntários vão ao canil quase todos os finais de semana, lavam o local, alimentam os animais quando necessário e os levam para passear. “Principalmente damos carinho, que só é cabível a quem de fato sabe amar e respeitar os animais”, comenta a jornalista. A população tem apoiado a causa, com doação de ração e material de limpeza. Com o aumento da quantidade de voluntários, o Cãopanhia do Bem também começou fazer regates nas ruas, com recursos de donativos e da venda de rifas. A associação de proteção está sendo formalizada e já tem o estatuto pronto, com expectativa de aprovação em breve. “Transformar o grupo em associação nos permitirá emitir carnês para pessoas que desejam contribuir mensalmente, fazer convênios e parcerias com empresas ou até mesmo com a prefeitura, o que facilitará muito a nossa luta em prol dos animais”, argumenta Karen.
Pouca gente sabe, mas a Lei Federal 9605/98 prevê que maus-tratos ou abandono de animais é crime, com penas previstas no Código Penal. A pena pelo Artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais é de detenção de três meses a um ano e multa. A pena prevista no Artigo 164 do Código Penal é de detenção de 15 dias a seis meses ou multa. Para punir os culpados e acabar de vez com as situações que vão contra os direitos dos animais, a participação da população é fundamental, denunciando os casos à polícia através do 190 ou 181. O esforço das instituições e dos voluntárias só será recompensado se os donos de animais assumirem a responsabilidade e não abandoná-los, como se fossem descartáveis.
Bom exemplo
Há cerca de três anos, a basset Maria Antônia teve uma hérnia de disco na coluna e, em dois dias, parou de andar. Imediatamente, a professora itabirana de dança Yvone Ayres encaminhou Tunica, como é carinhosamente chamada, ao Hospital Veterinário da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde passou por uma cirurgia. A professora fez de tudo para que Tunica voltasse a andar. Até por sessões de fisioterapia e acupuntura a cadela passou (hoje ela ainda faz sessões de corrente russa). Tratada como um membro da família, a cadelinha ganhou de Yvone uma cadeira de rodas sob medida, que lhe permite se aventurar até em cachoeiras. Tunica anda com as patas dianteiras e arrasta as traseiras, mas com a ajuda do equipamento, não há limites para a fiel escudeira da família. “Desde pequenininha, sempre me acompanhou nas viagens e passeios. Hoje nossa relação é ainda mais próxima. É um momento de se pensar que muitos donos optam por sacrificar o animal, mas a adaptação à nova situação é possível e gratificante”, orgulha-se a professora. Um belo exemplo de amizade mútua.