Em Itabira, Conceição Evaristo defende a escolha de uma mulher negra para o STF

Não sei se vai acontecer, mas se acontecer seria muito justo e necessário’’, disse a escritora mineira.

Em Itabira, Conceição Evaristo defende a escolha de uma mulher negra para o STF
Conceição Evaristo em coletiva de imprensa no terceiro dia do III Flitabira (Foto: Filipe Abras)
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Na manhã de sexta-feira (3), a escritora mineira Conceição Evaristo concedeu uma coletiva de imprensa no Festival Literário Internacional de Itabira – Flitabira. Em pauta, estiveram temas como o seu projeto literário e sua escolha como Intelectual do Ano do Troféu Juca Pato, outorgado pela União Brasileira dos Escritores – UBE. No entanto, ao ser questionada pela DeFato sobre a possibilidade de uma mulher negra ocupar a vaga deixada pela ministra Rosa Weber, que se aposentou de suas funções no Supremo Tribunal Federal (STF), ela foi categórica: ‘‘O Brasil e a Justiça brasileira não podem ser pensados só a partir de homens brancos’’.

‘‘Eu acho que deveria ser uma ministra negra. O que eu percebi é que foi uma reivindicação, sem sombra de dúvidas, das coletividades negras, mas que algumas pessoas brancas mais conscientes também encamparam. É uma exigência justa, o Brasil e a Justiça brasileira não podem ser pensados só a partir de homens brancos ou de poucas mulheres brancas. É necessário e justo ter pessoas negras nesses lugares de poder e decisão, e nós temos pessoas muito competentes para isso. Não tem mais a desculpa de que não há pessoas negras com essa formação. Não sei se vai acontecer, mas se acontecer seria muito justo e necessário’’, disse a escritora mineira.

Anteriormente, ao longo da coletiva, uma frase citada algumas vezes pela escritora durante o bate papo expôs uma transformação que tanto as suas obras quanto a sua premiação são símbolos importantes: “O trem está mudando”. Conceição Evaristo destacou a importância de receber o Troféu Juca Pato na terra de Carlos Drummond de Andrade – vale lembrar que o próprio Drummond foi premiado em 1982. “O trem está mudando, no sentido do reconhecimento de que a literatura tem várias faces. Eu represento, sem sombra de dúvidas, essa diversidade. Essa rota muda por conta de nossa luta, de nossos esforços”, complementou a escritora.

Perguntada sobre a questão do “Lugar de fala”, Conceição Evaristo comentou que sujeitos e comunidades antes silenciadas começaram a falar e reivindicam o seu próprio lugar de fala. “Eu, como mulher negra, por mais que me cumplicie com a luta das mulheres indígenas ou das mulheres ciganas… tem algo que eu não experiencio nessa realidade. Há um lugar que é o do outro. Lógico, todos nós temos lugar de fala. Mas o seu é diferente do meu”. A escritora também falou sobre seu último romance, “Canção para ninar menino grande”: “Em quase toda a minha obra as mulheres estão no centro da cena . Neste livro, temos um protagonista machista, um Don Juan negro. Mas, na medida em que a história se desenvolve, a gente vê a solidão do homem negro. Esse é um ponto muito importante. Esse homem precisa de afeto”.

Ao falar da visita ao Quilombo Morro Santo Antônio, Evaristo disse ter sido um dos momentos mais significativos de sua visita à Itabira. Para ela, “Ir ao quilombo é como retomar a nossa casa. É voltar para um um solo que é nosso, por mais diferente que ele seja”. Numa tocante conclusão, ela destacou: “Estar ali foi como rever a minha mãe, a minha tia, as minhas primas. Pensar no quilombo é realmente pensar uma ancestralidade”.

A escritora mineira celebrou iniciativas como o Flitabira e a importância de festivais literários gratuitos para a democratização da leitura no país: “Do mesmo jeito que as classe populares tem os desejo por uma boa casa, uma boa saúde, uma escola de qualidade, ela também quer acessar a literatura e outros objetos de arte “.