Em Monlevade, ex-ministro de Lula defende Nobel da Paz para o cooperativismo
Roberto Rodrigues esteve em Monlevade nessa terça-feira
O embaixador especial para cooperativas na Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Governo Lula, entre 2003 e 2006, Roberto Rodrigues, 70, esteve em João Monlevade nessa terça-feira, 2 de outubro, para um evento sobre o cooperativismo. Ele defende que a atividade seja indicada para ganhar o Prêmio Nobel da Paz, por causa da quantidade de pessoas que reúne em prol de um bem comum.
O engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues foi convidado para ministrar uma palestra durante as comemorações do Ano Internacional das Cooperativas. Antes, recebeu a imprensa para uma entrevista coletiva, quando falou de assuntos diversos relacionados à atividade cooperativista. Em João Monlevade, são seis cooperativas com 9.970 associados e 110 empregados.
“Ao combater a exclusão social e a concentração de riqueza, o movimento cooperativista passou, de forma indireta, a ser um aliado da democracia e da paz. E governos democráticos ao redor do mundo apoiaram o cooperativismo, admitindo ser esse movimento um formidável aliado para o desenvolvimento harmonioso dos povos, uma vez que seus objetivos são os mesmos difundidos pelos verdadeiros democratas”, afirma o defensor do cooperativismo.
Roberto Rodrigues é o entrevistado da edição de setembro da Revista DeFato. Ele fala, claro, sobre a atividade cooperativista e também sobre a sua experiência à frente do ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, onde conheceu de perto os desafios que dificultam a expansão desse setor no país.
Confira:
1) De que forma o fato da ONU ter definido 2012 como Ano Internacional do Cooperativismo vai contribuir para esse tipo de atividade?
É uma grande conquista deste importantíssimo mecanismo de organização econômica da sociedade, assim como o sindicalismo é o seu braço político. Embora a doutrina cooperativa (cujo conceito fundamental é o de “corrigir o social através do econômico”) seja muito antiga e venha sendo estudada há alguns séculos, as cooperativas só tiveram sucesso e se firmaram como empresas competitivas após a Revolução Industrial ocorrida na Europa em meados do século XIX. Ao combater a exclusão social e a concentração de riqueza, o movimento cooperativista passou, de forma indireta, a ser um aliado da democracia e da paz, na medida em que estes fundamentos não se sustentam onde imperam aquelas condições. E governos democráticos ao redor do mundo apoiaram o cooperativismo, admitindo ser esse movimento um formidável aliado para o desenvolvimento harmonioso dos povos, uma vez que seus objetivos são os mesmos difundidos pelos verdadeiros democratas. Isso é mais do que suficiente para justificar a importante homenagem que o movimento internacional recebe da ONU. E este reconhecimento terá, sem dúvidas, desdobramentos muito positivos para o movimento e para a própria doutrina. As celebrações ocorrerão globalmente, sempre centradas no primeiro sábado de julho, que é reconhecido como o Dia Internacional do Cooperativismo.
2) O senhor é um grande entusiasta do cooperativismo e até defende que essa atividade receba o Prêmio Nobel da Paz. Quais os motivos?
Os sete princípios cooperativistas, hoje aceitos globalmente e defendidos pela Aliança Cooperativa Internacional, são todos baseados nos mesmos valores que a democracia incorpora: igualdade de oportunidades, distribuição de renda, segurança alimentar e do alimento, defesa do meio ambiente, pleno emprego e empregos cidadãos, educação e saúde para todos, enfim, as bandeiras da democracia e do cooperativismo são extremamente afinadas. E a defesa da paz está no DNA de ambos. No mundo existe, atualmente, quase 1 bilhão de associados ao cooperativismo em todos os continentes. Se cada um deles tiver mais três agregados, isso representa 4 bilhões de pessoas ligadas a uma única doutrina: talvez nenhuma religião tenha tamanha expressão numérica em termos de adeptos ou seguidores. Isso faz do cooperativismo o maior contingente humano do planeta trabalhando de forma articulada em prol da paz e da democracia. Ora, dadas todas estas condições, porque não almejar também para o cooperativismo o Prêmio Nobel da Paz? Nada seria mais justo do que isso. Outras instituições já receberam a distinção, como os Médicos sem Fronteiras, por exemplo, aliás, muito importante também.
3) O seu livro sobre cooperativismo se refere a uma “segunda onda” dessa atividade. O que seria isso?
O cooperativismo surgiu, enquanto doutrina, há muitos séculos. Mas as cooperativas só surgiram quando houve a Revolução Industrial, em meio à exclusão social e o acúmulo de riquezas. As pessoas excluídas encontraram no cooperativismo uma forma de serem incluídos. O resultado foi muito positivo e o cooperativismo espalhou-se pelo mundo inteiro e tornou-se uma doutrina muito forte. Nesse período, o cooperativismo era tratado como a terceira via. A primeira via era o capitalismo, a segunda o socialismo e a terceira o cooperativismo. Então, esse modelo, eu brincava que era como um rio fluindo entre duas margens. O capitalismo de um lado, o socialismo de outro e o cooperativismo fluindo como um rio entre as duas. Esse modelo eu chamo de primeira onda. Aí quando caiu o muro de Berlim, o socialismo sofreu um duro golpe e o capitalismo virou liberalismo. Então as margens se desmancharam. Sem as margens, não tem rio. Se não havia mais a primeira e nem a segunda via, como o cooperativismo seria a terceira via? Foi então que eu cunhei, digamos assim, essa nomenclatura de segunda onda. Porque o cooperativismo deixou de ser um rio entre duas margens, para se transformar em uma ponte entre outras margens. Uma delas é o mercado, no qual as cooperativas estão inseridas, com empresas competitivas. E a outra é o bem estar coletivo. Dessa forma, a segunda onda é a transformação do cooperativismo de um rio entre duas margens para uma ponte entre a competitividade do mercado e a felicidade.
4) Quais as consequências de uma cooperativa mal administrada?
Uma cooperativa mal administrada, como qualquer coisa mal administrada, quebra. Gestão profissional em cooperativismo é uma coisa fundamental. O mundo moderno, competitivo e disputado, não admite mais amadorismo em gestão de nada, e isso inclui as cooperativas. O cenário atual passou a exigir que as cooperativas contemporâneas deem resultados positivos, que as sobras existam e que os serviços possam ser prestados com eficiência. Uma administração ruim impossibilita tudo isso. E uma cooperativa que quebra afeta em efeito dominó um mundo de gente que não tem nada a ver com a gestão mal feita. Então é mais uma razão para que a administração seja muito profissional dentro das cooperativas.
5) O senhor foi ministro na pasta de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Não é estranho o Governo Federal ainda ter os ministérios do Desenvolvimento Agrário e da Pesca e Agricultura?
É uma barbaridade. No mundo inteiro existem o ministério de Agricultura, Floresta e Pesca. Aqui nós temos dois de Agricultura, um de Florestam que é o Meio Ambiente, e outro de Pesca. Ou seja, temos quatro ministérios cuidando de um tema que o mundo inteiro trabalha em um único ministério. E não é só isso. A política agrícola do Brasil é feita pelo Ministério da Agricultura, mas o Orçamento quem faz é o Planejamento, a liberação dos recursos quem faz é a Fazenda, a taxa de juros quem define é o Banco Central, as alianças internacionais são com o Itamaraty e as regras de comércio são do MDIC (Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior). Então, fora a subdivisão da política de agricultura, a sua implementação depende de outros dez, 11, ministérios. Não tem estratégia, esse é o grande problema. Não é só estranho, é realmente um negócio que inviabiliza uma estratégia agrícola para o Brasil.
6) Com a experiência adquirida na área da agricultura, de que forma analisa o Novo Código Florestal?
Se o novo Código sair da maneira que está tramitando agora, não acho ruim. Eu acho que ruim é como nós estamos, sem uma legislação adequada e todo mundo na ilegalidade. Definimos o Código Florestal e agora cada um tem que procurar se adequar e seguir para frente. Eu acho que ter um Código Florestal razoável é melhor do que estava antes. Ele é bom para nós? Não, não é. Mas é bom para o país porque define as regras de uma vez por todas. Tem estabelecidas umas questões novas que são importantes. O próprio Cadastro Ambiental Rural (CAR) é uma novidade interessante, porque da muito mais orientações aos produtores rurais; tem também a incorporação da APP (área de proteção permanente) na área de reserva legal; a desobrigação de registrar em cartório a área reflorestada. Então, tem uma série de novidades nessa legislação que aliviaram muito a agricultura. Não é o ideal, mas aliviaram.
7) O senhor já disse em outras oportunidades que a logística é um dos grandes gargalos da produção agrícola. Esse problema ainda está distante de ser solucionado?
Está sim, embora nas últimas semanas a presidente da República tenha tomado uma decisão muito importante, que foi a adoção de parcerias público-privadas nesse setor. Na verdade é um tipo de privatização de ferrovias, rodovias e portos. Ela abriu a possibilidade de que a solução da logística seja encontrada. Não vai resolver já, porque são investimentos pesados e há mais de 20 anos ninguém faz nada em termos de logística no Brasil. O atraso é muito maior do que a capacidade de resolver em um curto prazo. Mas, pelo menos, agora temos um sinal positivo e a gente pode confiar que as coisas vão melhorar em um médio ou longo prazo.
8) E os pequenos produtores, quais os principais problemas eles enfrentam?
Essa é uma questão muito relevante. A globalização da economia abriu uma competitividade muito maior do que havia antes. A exposição dos mercados ficou muito maior e as margens por unidade de produção agrícola caíram muito no mundo inteiro. Então, isso fez com que a renda rural despencasse. A alternativa para o pequeno produtor rural é associar-se a outros colegas em cooperativas. Porque em uma cooperativa, os pequenos em conjunto ficam grandes. E aí agrega valor. O pequeno produtor tem no cooperativismo uma solução quase que única para salvar a sua rentabilidade.