Em Roma, Lula demonstra irritação com proposta da União Europeia e manutenção da taxa de juros no Brasil

O presidente brasileiro também falou sobre a guerra na Ucrânia e a perseguição do governo da Nicarágua a membros da igreja

Em Roma, Lula demonstra irritação com proposta da União Europeia e manutenção da taxa de juros no Brasil
Foto: Ricardo Stucker/Presidência da República

Em sua passagem pela Itália, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se encontrou com o presidente da Itália, Sergio Mattarella, com a primeira-ministra do país, Giorgia Meloni, com o prefeito de Roma, Roberto Gualtieri, e com o Papa Francisco. Antes de embarcar para Paris, onde participa da cúpula sobre o Novo Pacto de Financiamento Global, além de um encontro bilateral com o presidente francês Emanuel Macron, o brasileiro concedeu entrevista coletiva em que abordou a proposta comercial da União Europeia para o Mercosul, a perseguição do governo Daniel Ortega à membros da igreja e a manutenção da taxa de juros no Brasil.

Sobre as relações de comércio entre União Europeia e Mercosul, Lula afirmou que é “inaceitável a proposta de estabelecer punição para quem descumprir os termos do Acordo de Paris [tratado internacional sobre mudanças climáticas adotadas em 2015]”. “Essa proposta não está em conformidade com aquilo que é o sonho dos países da América latina e o Brasil, que quer ter o direito de recuperar sua capacidade de industrialização. O Brasil já teve um Produto Interno Bruto (PIB) industrial de 30%. Hoje, o nosso PIB é de apenas 10%”, disse.

“A carta adicional que a União Europeia mandou para o Mercosul é inaceitável. Nem eles cumpriram o Acordo de Paris, o Protocolo de Kioto, a decisão de Copenhague, então é preciso que a gente tenha um pouco mais de humildade. Nós estamos preparando a nossa resposta à União Europeia para um acordo que favoreça aos dois continentes”, completou.

No encontro bilateral com Macron, Lula pretende debater a aprovação na semana passada, pela Assembleia Nacional da França, de uma resolução contra a ratificação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, cuja medida foi dura no entendimento do presidente brasileiro.

“A França sempre foi dura nos seus interesses agrícolas, mas a gente tem que entender que os outros têm também direitos de defender as suas agriculturas. É preciso que cada um abra mão do seu perfeccionismo e protecionismo para que possamos construir a possibilidade de um acordo que melhore a situação da União Europeia e da América do Sul”, defendeu Lula.

Aprovado em 2019, depois de 20 anos de negociações, o acordo entre os continentes precisa ser ratificado pelos parlamentos de todos os países dos dois blocos para que possa vigorar. São 31 países envolvidos e a negociação pode levar anos e enfrentar muitas resistências.

Conflito entre Rússia e Ucrânia 

Sobre a guerra na Ucrânia, Lula disse que é preciso colocar muitos atores envolvidos numa mesa de negociação. “É preciso parar de atirar e encontrar uma solução pacífica porque o mundo tem mais de 800 milhões de pessoas que vão dormir toda noite sem ter o que comer. Não é justo se gastar bilhões de dólares com uma guerra desnecessária. Um acordo de paz não é uma rendição. Num acordo de paz, os envolvidos têm que ganhar alguma coisa, senão, não tem acordo”, avaliou.

Lula reafirmou suas críticas à postura dos países-membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas de promover guerras pelo mundo e defendeu uma nova governança global, com o apoio de mais países nas mesas de decisão.

Lula voltou a afirmar que a posição do Brasil é de condenar a ocupação pela Rússia de território ucraniano. “É moda que os membros Permanentes do Conselho de Segurança da ONU invadam outros países sem pedir licença. Os norte-americanos invadiram o Iraque, a Inglaterra e a França invadiram a Líbia e, agora, o Putin invade a Ucrânia. Eles são as pessoas mais poderosas no sistema ONU e não poderiam estar fazendo isso”, destacou.

São membros-permanentes do Conselho de Segurança da ONU: China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia.

Igreja

Apesar de o tema predominante nos encontros em Roma ter sido a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, Lula dedicou um momento para se encontrar com o Papa Francisco, a quem convidou para visitar o Brasil durante as comemorações do Círio de Nazaré, em Belém do Pará, no mês de outubro.

A primeira viagem do Papa Francisco, após assumir o trono, foi ao Rio de Janeiro, em 2013. Segundo Lula, não houve uma resposta positiva do sumo-pontífice sobre o convite, mas ressaltou que “pelo sorriso no rosto dele, ele tem vontade de vir. Não sei se vem, mas ele deve levar em conta a grandiosidade da Igreja Católica no Brasil”.

Lula também foi questionado sobre o impasse da Igreja Católica e o governo da Nicarágua. Ele afirmou que pretende conversar com Daniel Ortega para liberar os padres que estão presos. “Não tem porque ficar impedindo de exercer a função na igreja. Eu vou tentar ajudar, se puder, essas coisas nem sempre são fáceis, porque nem todo mundo é grande para pedir desculpa. A palavra desculpa é simples, mas exige muita grandeza. Quando você comete uma coisa errada, não é todo homem que tem coragem de falar ‘errei e vou mudar de posição’, então é um trabalho de convencimento. Eu tenho muita paciência”, declarou.

Taxa de juros

Assuntos relacionados ao Brasil não ficaram de fora da rotina do presidente Lula durante mais um compromisso oficial em terras estrangeiras. O presidente fez questão de comentar, ainda na Itália, a decisão do Banco Central em manter a taxa de juros em 13,75%.

Ao ser questionado sobre a manutenção dessa taxa de juros, Lula voltou a criticar o presidente do Banco Central, Roberto de Campos Neto, segundo o qual, mantém um patamar “irracional”. “O presidente do Banco Central joga contra a economia brasileira ao manter esse nível da taxa de juros”.

A afirmação foi feita durante entrevista coletiva na Itália, pouco antes do embarque para a França. “Não se trata do governo brigar com o Banco Central. Quem está brigando com o Banco Central é a sociedade brasileira. É irracional o que está acontecendo no Brasil; você ter uma taxa de juros de 13,75% com uma inflação de 5%”, disse.

Lula ainda ressaltou que tem convocado senadores no sentido de verificar se Roberto Campos Neto está cumprindo com a legislação, por causa autonomia do Banco Central.

Por sua vez, o Comitê de Política Monetária (Copom) afirma que a decisão em “manter a taxa [de juros] nesse patamar vem surtindo efeito no controle da inflação. O momento é de paciência e serenidade”. “Passos futuros da política monetária dependerão da evolução da dinâmica inflacionária”, acrescenta o órgão.

Embora exista a expectativa do mercado de que a taxa de juros comece a cair a partir de agosto, o Banco Central não deu nenhuma sinalização nesse sentido.