Todos os dias Sueli Cirilo Farias, 25 anos, embarca no ônibus da linha Fênix/Gabiroba, se acomoda na cadeira de cobradora atrás da catraca e recolhe das centenas de passageiros que usam o serviço os R$ 2,70 de cada bilhete. Às vezes de dia, às vezes de noite, a rotina da jovem se assemelha a de muitos trabalhadores brasileiros que vendem oito, dez horas de suas vidas diariamente para manter o sustento. Mas a história desta trocadora é especial.
Sueli nasceu em São José do Goiabal e mudou-se, ainda criança, para São Domingos do Prata, onde cresceu, estudou até o Ensino Médio e cultivou o hábito pela leitura. O amor pelos livros se deve ao estímulo da mãe, Edwirges Cirilo Joviano, que também aprecia a literatura. Em várias ocasiões, a mãe pedia a filha livros emprestados da biblioteca da escola para ler. Um costume que contagiou também Ivony, irmã de Sueli.
Quando terminou o Ensino Médio, a goiabalense foi morar em João Monlevade, cidade com melhores oportunidades. Lá trabalhou por cinco anos como operadora de caixa em um supermercado, até que conheceu Cleidson Romeu Cândido, com quem se casou. Há dois anos, escolheu viver na cidade de Carlos Drummond de Andrade e, desde então, trabalha no transporte coletivo.
Humilde e muito simpática, é de Sueli a autoria de dois livros publicados no site Clube de Autores: “As aventuras de Sukali” e “Anne, a Espiã”. As obras de ficção podem ser adquiridas pela internet, por meio do site www.clubedeautores.com.br.
O primeiro livro conta a história de Sukali, uma garota normal de uma pequena cidade que vê sua vida se transformar após um acidente de carro com a família. A partir de então, ela percorre caminhos e lugares nunca imaginados e conhece seres jamais vistos. Em “Anne, a Espiã”, uma menina descobre, após um acidente automobilístico que também matou seus pais, que era adotada e tem a chance de se tornar uma espiã e descobrir quem foram seus pais biológicos.
Neste mês, Sueli vai começar um curso de Pedagogia a distância. Ela ainda tem algumas dúvidas sobre qual carreira seguir – pensa também em Direito, Ciências Contábeis e Biblioteconomia. Se decidir mesmo pela sala de aula, quer estimular os alunos a gostar da literatura. “Hoje é tão acessível. Com a internet, tem tantos livros disponíveis de graça. Dá para ler pelo celular”, comenta, ao confidenciar que consome de dois a três livros por semana.
Como a rotina de trabalho é extensa, Sueli não tem tanto tempo para criar suas histórias. Por enquanto, o salário que ganha somado ao do marido, operador na área da Vale, garante o padrão de vida com o qual está acostumada. No Brasil, país não muito habituado à leitura, ela nem sonha em ser uma escritora renomada ou ganhar a vida vendendo livros. Mas se conseguir inspirar outras pessoas com suas histórias, já se sentirá realizada.