Esportes até então considerados masculinos atraem cada vez mais mulheres em busca de saúde, beleza e defesa pessoal

Cada vez mais, academias são tomadas por mulheres em busca de esportes que antes eram tidos como exclusivamente masculinos

Esportes até então considerados masculinos atraem cada vez mais mulheres em busca de saúde, beleza e defesa pessoal

Elas pisam no tatame e mostram que, definitivamente, de sexo frágil não têm nada. Têm vaidade? Claro, mas sem deixar de lado o foco no esporte. Modalidades que até algum tempo eram consideradas exclusivamente masculinas, agora são invadidos pelas mulheres. As academias que ensinam técnicas de defesa pessoal ganharam um toque mais feminino. Tudo pela saúde, melhor preparo físico e, claro, pela autodefesa. 

A gestora de orçamento Caroline Lima Oliveira, 28 anos representa bem essa nova tendência. Há cerca de cinco meses, ela ingressou no Muay Thai, arte marcial tailandesa que combina golpes com punhos, cotovelos, joelhos, canelas e pés. O incentivo veio de uma amiga. Caroline tinha a intenção de emagrecer e viu na arte marcial uma oportunidade de eliminar os quilinhos extras. “Muda tudo. A gente começa a ver no corpo. Perdi medidas de pernas, quadril, cintura, braços, além de quatro quilos”, comenta.

Além da mudança física, a gestora percebeu que o esporte promove interação e autoaceitação. “Aqui as pessoas interagem com pessoas de todos os biotipos, o que deixa o esporte mais agradável. O mais interessante para mim é a interação e a questão de todos terem as dificuldades”, diz. Carolina afirma que não houve nenhum constrangimento, já que os homens respeitam as mulheres praticantes na academia. E a vaidade, onde fi ca? “A vaidade sempre existe. Vive com a gente. É um esporte, entre aspas, masculino, mas com um toque feminino. Feminino na nossa forma de praticar”, garante.

Sem idade

O desafio do quadro “Medida Certa” do Fantástico, na Rede Globo, serviu de estímulo para a professora aposentada Zila Ataíde, 55, iniciar seu projeto pessoal de emagrecimento. Ao acompanhar o programa, que propunha uma batalha de emagrecimento entre moradores de um mesmo condomínio, ela e uma vizinha de prédio começaram a fazer caminhadas.

Em três dias, a dupla resolveu fazer uma aula experimental numa academia de Muay Thai. A partir daí, não pararam mais. Apesar de estar em estágio inicial na modalidade, Zila não faz corpo mole e pretende avançar nos treinos. A idade não foi empecilho. O maior desafio foi mesmo sair da zona de conforto e iniciar as atividades. “Mais do que a idade, comecei a praticar para reduzir o peso. Aqui é muito jovem, tem muita menina, muita mocinha. Para a pessoa que está fora do peso, a gordura constrange mais do que ser mulher”, diz, soltando sonoras gargalhadas.

Além da redução do peso, o foco da professora era também aliviar os sintomas da menopausa. A satisfação demonstrada pela dupla contagiou os fi lhos e a irmã da vizinha de Zila. Todos foram para  o Muay Thai. “A menopausa não é fácil não. Tem oscilação do humor, de peso, muito desânimo. Então, a gente vem e luta, malha mesmo. E, mulheres, venham. É muito bom”, convoca a aposentada.

Professor de Muay Thai e outras artes marciais, Roberto Paixão afirma que as lutas têm se popularizado muito e que a presença feminina predomina nas academias. “Se tiver aqui 200 alunos, 180 são mulheres. Hoje, a procura é muito grande em todas as academias de Muay Thai. A parte de preconceito (com mulheres) não existe. Existem pessoas preconceituosas, que discriminam a arte, achando que é um esporte muito violento, mas não é”, comenta.

Entre quimonos e batons

Depois que viu uma sessão de alongamento na academia de Jiu Jitsu do marido, Hagner Barbosa, a corretora de imóveis Deize Cristina da Rosa, 33, pediu para fazer uma aula e, de imediato, tomou gosto pela arte marcial. Mesmo com o esposo envolvido nesse esporte, ela nunca havia manifestado interesse, justamente por acreditar que fosse exclusivamente voltado ao público masculino. Em pouco tempo, porém, ela já consegue sentir melhoras no corpo, como mais agilidade e força, flexibilidade ao levantar, ânimo e disposição. “Estava até brincando com meu marido que eu não conseguia pegar com as duas mãos o pote da comida do meu cachorro, feito de cimento por dentro. Agora, simplesmente com uma mão eu já pego do chão e já levanto”, exemplifica, aos risos.

Segundo Deize, a maior barreira a ser vencida era o constrangimento pela presença masculina. E o que era mera curiosidade, se tornou estilo de vida. A corretora dissemina o esporte para as mulheres e chamou as amigas  para treinar. Além de manter a forma, ganhar massa e defi nir o corpo, Deize defende que a modalidade é um esporte completo, pois modela o shape, promove bem-estar e até auxilia na Tensão Pré-Menstrual (TPM). “Se ajuda na TPM e diminui o stress, por que não fazer?”, argumenta.

A colega de Deize, Lídia de Almeida Reis, 29, já está no Jiu Jitsu há três anos. A técnica de enfermagem treinava com homens sem nenhum problema e já disputou diversas competições pela categoria leve. Se a inibição não era problema, a dor foi um desafio no início. “No início você fi ca roxa, mas depois vai acostumando. Já chorei por causa do cabelo, que acaba arrancando um pouquinho. Quem é cem por cento vaidosa com o cabelo vai sofrer um pouquinho”, brinca.

Já para a educadora física Izabella Cabral, apesar de o mundo das lutas ainda ser dominado pelo público masculino, essa visão tem mudado nos últimos anos. “Apesar do aumento considerável de praticantes mulheres nas lutas, ainda é preciso vencer a barreira do preconceito. Temos muitos pensamentos machistas sobre tais lutas, mas que muitas vezes não partem dos praticantes e sim dos que nunca praticaram”, argumenta.

De acordo com o professor Hagner Barbosa, o Jiu Jitsu foi criado para o mais fraco dominar o mais forte. Ele diz que a força ajuda, mas não é o fator primordial. “Não estou falando que as mulheres são mais fracas, mas a tendência é que o homem tenha uma força maior. Mas tem muita mulher mais forte que os homens”, afi rma. Para ele, o mais interessante do esporte é a autoconfiança que é gerada.

Lembra-se daquela história de sexo frágil? Pois é, já era! Quando vestem os quimonos ou calçam as luvas, as mulheres provam que são fortes e podem enfrentar qualquer desafi o. E aí, vai encarar?