Esquadrões imortais: Relembre grandes equipes do futebol mineiro
Dando início à série “Esquadrões imortais”, falaremos do Villa Nova tricampeão mineiro na década de 30. De 1932 a 1935, não houve outra equipe tão vitoriosa em Minas Gerais.
Aquecendo os motores para o retorno do Campeonato Mineiro, previsto para o dia 26 de julho, a DeFato Online começa, a partir de hoje (17), uma pequena série relembrando grandes equipes que já passaram pelos campos de Minas Gerais. Do Cruzeiro ao Ipatinga, recordaremos cinco dos grandes campeões deste que é um dos principais campeonatos estaduais do país.
Dando o ponta pé inicial no projeto, falaremos do Villa Nova, fundado em 1908 e tetracampeão mineiro na década de 30. Se hoje o Leão do Bonfim, como é carinhosamente apelidado, é conhecido por ser um mandante indigesto, seja pela irregularidade do gramado do estádio Castor Cifuentes ou pela proximidade das arquibancadas com o campo, houve uma época em que a equipe da região metropolitana de Belo Horizonte foi soberana em canchas mineiras.
De 1932 a 1935, quando o futebol de Minas dava seus primeiros passos rumo à profissionalização, não houve outro campeão estadual além do tradicional clube de Nova Lima. Foram quatro títulos seguidos, times espetaculares e histórias que estarão para sempre na enciclopédia da bola, envolvendo desde bengalas até rituais religiosos.
Vamos relembrar agora as campanhas protagonizadas por Geraldão, Zezé Procópio, “Canhoto” e outros atletas que enriqueceram uma biografia que começou a ser escrita por trabalhadores industriais lá atrás, no início do século XX, e se tornou uma das mais lindas do futebol mineiro.
CAMPEONATO MINEIRO DE 1932 (AMEG)
Participantes:
- Villa Nova Atlético Clube (Nova Lima)
- Società Sportiva Palestra Itália (Belo Horizonte)
- América Futebol Clube (Belo Horizonte)
- Sete de Setembro Futebol Clube (Belo Horizonte)
- Grêmio Ludopédio Calafate (Belo Horizonte)
- Vespasiano Esporte Clube (Vespasiano)
Campeão: Villa Nova – 18 pontos, 8V, 2E, 0D, 34GP, 07GC.
Vice-campeão: Palestra Itália (atual Cruzeiro) – 15 pontos, 7V, 1E, 2D, 35GP, 16GC.
Curiosidades:
- Foi o primeiro campeonato organizado pela Associação Mineira de Esportes Gerais (AMEG), composta por clubes insatisfeitos com a Liga Mineira de Desportos Terrestres (LMDT), instituição responsável pelo estadual à época.
- Muito antes da era da globalização virar moda, o Villa possuía em seu elenco três jogadores estrangeiros. Gustavo era um austríaco, Moore inglês e Carazo era espanhol.
- Isso certamente se devia à influência do presidente do clube em outros países, já que este recorrentemente cruzava os oceanos para cuidar de assuntos relacionados ao clube e à mina em que trabalhava.
CAMPEONATO MINEIRO DE 1933
Participantes:
- Villa Nova Atlético Clube (Nova Lima)
- Società Sportiva Palestra Itália (Belo Horizonte)
- América Futebol Clube (Belo Horizonte)
- Clube Atlético Mineiro (Belo Horizonte)
- Retiro Sport Club (Nova Lima)
- Esporte Clube Siderúrgica (Sabará)
- Sport Club Juiz de Fora (Juiz de Fora)
- Tupi Foot-Ball Club (Juiz de Fora)
- Tupynambás Futebol Clube (Juiz de Fora)
Campeão: Villa Nova – 26 pontos, 12V, 2E, 2D, 51GP, 13GC
Vice-campeão: Tupi – 21 pontos, 9V, 3E, 4D, 34GP, 27GC
Curiosidades:
- Com a participação dos três grandes clubes de Juiz de Fora (Tupi, Sport e Tupynambás), esta foi a primeira edição profissional do Campeonato Mineiro.
- Foi do Villa o artilheiro da competição: Canhoto, com 13 gols.

CAMPEONATO MINEIRO DE 1934
Participantes:
- Villa Nova Atlético Clube (Nova Lima)
- Società Sportiva Palestra Itália (Belo Horizonte)
- América Futebol Clube (Belo Horizonte)
- Clube Atlético Mineiro (Belo Horizonte)
- Sete de Setembro Futebol Clube (Belo Horizonte)
- Retiro Sport Club (Nova Lima)
- Esporte Clube Siderúrgica (Sabará)
Campeão: Villa Nova – 19 pontos, 8V, 3E, 1D, 39GP, 10GC
Vice-campeão: Atlético – 18 pontos, 8V, 2E, 2D, 25GP, 11GC
Esta edição merece um texto à parte, pois possui uma das histórias mais lendárias do futebol mineiro, quiçá do futebol nacional. Faltando apenas duas rodadas para o fim da competição, Villa Nova e Atlético se enfrentariam em Nova Lima para, praticamente, definir os rumos do campeonato. Ao líder Galo, bastava um empate para conquistar o título antecipado, já que ainda restava uma rodada para ambos.
Já o vice-líder Villa precisava urgentemente da vitória se quisesse dar continuidade à sua fase vitoriosa. Por isso, o Castor Cifuentes estava lotado e recebia um público aproximado de 5000 pessoas.
Em um primeiro tempo no qual a equipe da casa buscou pressionar um Galo mais preocupado em se defender, o placar terminou da mesma forma em que se iniciou. Mas uma mudança no intervalo daria início a uma história inacreditável.
O técnico villa-novense Zé de Deus trocou Pascoal pelo jovem atacante Perácio. Aos 24 minutos da etapa final, com o placar ainda zerado, o ponta-direita Tonho cruza no segundo pau, Canhoto devolve a bola para o meio da grande área e Perácio cabeceia a bola para o fundo das redes do goleiro Armando Policeni: gol do Villa Nova.
Porém, os jogadores atleticanos se revoltam e alegam que, antes do cruzamento de Tonho, a bola havia saído pela lateral, mas um torcedor, se utilizando de uma BENGALA, a devolveu para o campo, possibilitando o cruzamento para a área e o gol de Perácio.
Depois de uma longa discussão, o árbitro carioca Guilherme Gomes, encarregado de apitar a decisão, resolve encerrar o jogo e sai de Nova Lima sob forte esquema de segurança. O jogo, que havia sido paralisado com 20 minutos a serem jogados, vai para os tribunais, com o Villa defendendo a vitória por 1 a 0 e alegando que o Atlético forçou a confusão para encerrar o clássico e buscar a vitória no tapetão, e o Galo defendendo a realização de uma segunda partida, em Sabará.
A Associação Mineira de Futebol decidiu realizar um segundo jogo que contemplaria apenas os 21 minutos restantes do tumultuado confronto de Nova Lima. O embate decisivo já tinha data e local: 18 de novembro de 1934, no Estádio da Praia do Ó, em Sabará.
Com direito a bola no travessão e quicando em cima da linha, o Villa conseguiu segurar a pressão atleticana e se sagrou campeão mineiro pela terceira vez consecutiva. Este empate, somado a uma vitória contra o Palestra Itália ocorrida em meio ao imbróglio, deu aos comandados de Zé de Deus um título histórico e ao futebol mineiro uma página que será lembrada para sempre.
CAMPEONATO MINEIRO DE 1935
Participantes:
- Villa Nova Atlético Clube (Nova Lima)
- Società Sportiva Palestra Itália (Belo Horizonte)
- América Futebol Clube (Belo Horizonte–
- Clube Atlético Mineiro (Belo Horizonte)
- Retiro Sport Club (Nova Lima)
- Esporte Clube Siderúrgica (Sabará)
Campeão: Villa Nova – 17 pontos, 8V, 1E, 1D, 33GP, 10GC
Vice-campeão: Atlético – 12 pontos, 6V, 0E, 4D, 29GP, 16GC
Curiosidades:
- A falta de interesse dos clubes, devido ao distanciamento do Villa Nova na tabela, fez com que a Associação Mineira de Futebol suprimisse o terceiro turno e proclamasse o Leão do Bonfim campeão.
- O sistema de disputa do Campeonato previa três turnos, sendo que o último teria os jogos disputados apenas na Capital.
- Às vésperas de um jogo importante contra o Palestra Itália, Cícero Dias, atleta do clube, e o presidente do Villa procuraram um pai-de-santo.
- Inicialmente, o pai-de-santo se recusou a fazer o trabalho, mas cedeu à proposta após vê-la sendo quintuplicada.
- Se funcionou ou não ninguém sabe, mas é fato que alguns dias depois o Leão foi tetracampeão mineiro.
Após sua fase áurea, aos poucos o Villa foi perdendo a hegemonia e viu alguns dos seus principais jogadores sendo atraídos por propostas de outros clubes.
Outro evento que contribuiu para a derrocada alvirrubra foi a trágica morte do seu presidente, o espanhol Castor Cifuentes, ocorrida quatro meses após o último dos quatro títulos consecutivos. Ainda assim, a equipe de Nova Lima é dona da maior torcida do interior mineiro e continua sendo uma das camisas mais tradicionais do estado.
“Para muita gente não terá havido outra equipe que possa ser comparada à do Villa Nova de 33-34-35. Um time que fazia de Nova Lima ‘A Capital do Futebol Mineiro’, orgulhosa de seu Leão do Bonfim”, Plínio Barreto.
Fontes:
- Historiadores dos Esportes (https://bit.ly/2CLMIEc)
- Wikipedia