“Eu vou matar você hoje”: homem agredido por policial militar em Itabira relata sequência de ameaças, tortura e medo
Em nota, a PM alega que houve resistência à prisão e justifica uso da força; procedimento interno foi instaurado para apurar a conduta do policial
Um suposto desentendimento de trânsito resultou em mais um caso de violência policial na tarde da última terça-feira (24), em Itabira. A reportagem ouviu o homem agredido por um policial militar durante a ação. Com ferimentos visíveis, ele relatou uma série de agressões físicas e psicológicas, que teriam ocorrido desde a abordagem até sua chegada à delegacia, passando pelo pronto-socorro. A Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) informou que vai instaurar um procedimento interno para apurar a conduta do agente envolvido.
A vítima, que teve a identidade preservada, trabalha com poda de árvores e coleta de resíduos orgânicos. Segundo ele, a abordagem ocorreu enquanto manobrava seu veículo de trabalho, uma caminhonete modelo Montana/Chevrolet. O homem afirmou que o policial se aproximou em alta velocidade, de motocicleta, e que houve um breve atrito no trânsito. “Eu já estava com os pneus na contramão porque precisava fazer a conversão. Ele parou mais à frente, desceu da moto e veio até mim gritando e perguntando quem estava dirigindo o carro”.
De acordo com a vítima, ao reconhecer o policial, com quem já havia tido contato anteriormente por questões pessoais, o medo tomou conta. “Ele falou que há tempos queria me pegar e que naquele dia era a oportunidade. Disse que ia me matar, com a arma apontada pra minha cabeça. Ameaçou atirar e quase me empurrou de cima da laje onde eu tinha subido pra tentar escapar”, contou.
O homem contou que acionou uma viatura para tentar se resguardar, pois estava sendo ameaçado. Mesmo após a chegada de outros policiais, as agressões continuaram. “Levei soco, chute, fui jogado no chão e ele raspava minha cabeça no asfalto. Eu gritava de dor. Fiquei desacordado. Quando acordei, já estava algemado na viatura, com a algema apertada, pedindo socorro”, afirmou.
Relato de testemunhas
Testemunhas que estavam no local disseram que a ação foi “rápida e violenta”. Relataram que o policial desferiu socos e pisões na cabeça da vítima, que sangrava bastante. O homem foi levado ao pronto-socorro e, de acordo com ele, ficou por horas aguardando atendimento com as algemas extremamente apertadas. “A enfermeira precisou pedir várias vezes para soltarem, para conseguir tomar a medicação”, contou.
Durante o tempo em que esteve no hospital, a reportagem tentou contato com o homem para apuração dos fatos, no entanto os policiais responsáveis não permitiram. Segundo a PM, ele estava sob custódia e o boletim de ocorrência seria finalizado após a realização de exames médicos.
Ameaças
Após deixar o hospital por volta das 18h, o homem foi levado ao quartel da PM, no bairro Praia, onde, segundo ele, passou por um longo período de tortura psicológica. “Ficaram tentando construir uma narrativa pra desmentir a minha. Eu tremia de frio, com fome, dor, algemado. Fiquei até depois da meia-noite ali, sem nenhuma assistência”.
A vítima só foi liberada por volta das 10h desta quarta-feira (25), após audiência virtual com o juiz. “Me senti humilhado, impotente. Tenho sete funcionários que dependem de mim. Trabalho duro”, desabafou.
O homem também relatou que já teve atritos anteriores com o policial envolvido, devido a um antigo contrato informal de aluguel. Segundo ele, houve cobranças indevidas e ameaças anteriores, o que, para ele, pode ter motivado o episódio de violência. “Na época, ele já chegou a me apontar uma arma. Isso não é novidade”, relatou.
A vítima informou que está tentando reunir documentos, imagens e testemunhos para acionar os órgãos competentes, juntamente com seu advogado. Um boletim de ocorrência, no entanto, ainda não foi fornecido à eles ou à imprensa. “A cidade é pequena, e muita gente tem medo de retaliação. Ninguém quer ceder imagens ou depor”, afirmou o homem. Enquanto isso, ele disse que teme pela própria segurança:“Não quero ser mais um pai de família que morre por covardia. Eu só quero justiça”, concluiu.
O que diz a PM
Em nota oficial, a Polícia Militar informou que, na tarde de terça-feira (24), o homem foi preso pelos crimes de direção perigosa de veículo, desacato, desobediência e ameaça. De acordo com as informações, o condutor teria desobedecido às ordens do policial durante a abordagem, resistido à prisão, feito ameaças e tentado fugir, sendo necessário, segundo a corporação, o uso progressivo da força para contê-lo.
A PM ainda informou que o Comando do 26º Batalhão instaurou procedimento apuratório para verificar a conduta do policial envolvido, conforme prevê a legislação vigente. (Confira na íntegra, ao final do texto).
Durante a solenidade em comemoração aos 250 anos da Polícia Militar de Minas Gerais, realizada nesta quarta-feira (25) em Itabira, o tenente-coronel Fábio Barcelos de Barros, comandante do 26º Batalhão da PM, deixou o auditório pelos fundos e não atendeu a imprensa. Outros militares presentes também foram orientados a não conceder entrevistas após o evento.
Recorrente
Embora a Polícia Militar não tenha divulgado o nome do policial envolvido na ocorrência mais recente, a vítima afirmou se tratar do mesmo agente apontado como responsável por uma agressão ocorrida em 28 de março deste ano, também em Itabira. Na ocasião, o motorista da Vita Transportes, Geraldo do Carmo, denunciou ter sido agredido durante uma abordagem policial. A PM, por sua vez, negou qualquer irregularidade e alegou que o motorista teria resistido à ação dos militares.
Nota da PM na íntegra
“Na tarde desta terça-feira, 24 de junho de 2025, a Polícia Militar prendeu um homem de 36 anos pelos crimes de direção perigosa de veículo, desacato, desobediência e ameaça, em Itabira.
Segundo o Boletim de Ocorrência, o condutor desobedeceu às ordens do policial que realizou a abordagem, resistiu à prisão, proferiu ameaças e tentou fugir. Foi necessário o uso progressivo da força para contê-lo.
A Polícia Militar de Minas Gerais informa ainda que, diante da ocorrência registrada, envolvendo a atuação de um Policial Militar, o Comando do 26º Batalhão instaurou procedimento apuratório para verificar a conduta do policial, conforme prevê a legislação vigente.
A Instituição reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e o devido processo legal.
Agência Local de Comunicação Organizacional do 26º BPM”
Confira outras denúncias de violência policial em Itabira:
+ Moradores do Fênix denunciam violência policial em evento do MC Júnior PK; PM se posiciona
+ Mulher armada com facão é baleada pela PM e morre na avenida João Pinheiro, em Itabira
+ Noite de carnaval em Itabira termina com tumulto na Praça do Pará




