Ex-secretário de Segurança Pública afirma que o Governo Lula nunca se importou com o tema
Sarrubbo disse que, historicamente, a segurança pública não ocupa posição central na agenda da esquerda

Mario Sarrubbo, ex-secretário nacional de Segurança Pública afirmou, em entrevista ao programa Ponto de Vista, de Veja, que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) “nunca se importou muito” com a agenda da segurança pública, atribuindo a postura de Lula a uma questão ideológica.
Segundo ele, esse posicionamento do presidente não priorizando o tema comprometeu o avanço de projetos considerados estratégicos no período em que esteve à frente do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Ao ser indagado por Robson Bonin, da coluna Radar, sobre as dificuldades do governo em levar adiante iniciativas de combate ao crime organizado e sobre a demora na apresentação de propostas ao Congresso, Sarrubbo disse que, historicamente, a segurança pública não ocupa posição central na agenda da esquerda e que, somente a partir da gestão do então ministro da Justiça Flávio Dino e, posteriormente Ricardo Lewandowski, o tema passou a receber maior atenção dentro da pasta.
“Dino iniciou projetos voltados ao enfrentamento do crime organizado e determinou que a Secretaria Nacional de Segurança Pública desenvolvesse iniciativas na área”, e, “ainda assim, o governo não tratou a pauta como prioridade e que a execução de diversas ações foi comprometida por cortes orçamentários, especialmente em 2025. Projetos ficaram estancados por falta de verbas”.
Embora teça críticas ao governo, Sarrubbo afirmou enxergar com entusiasmo o trabalho hoje desenvolvido pelo Ministério da Justiça, ressaltando que parte das iniciativas lançadas foi idealizada durante sua permanência à frente da secretaria, sob a gestão de Lewandowski.
“A política de segurança pública precisa avançar com planejamento a longo prazo”.
O ex-secretário criticou propostas que reduzem o debate sobre segurança ao aumento de penas ou à redução da maioridade penal e que o enfrentamento ao crime organizado depende de ações integradas entre as forças de segurança, do fortalecimento das polícias civis e do aumento da capacidade de investigação e esclarecimento de crimes.
Sarrubbo defende investimentos permanentes em capacitação, profissionalização e remuneração dos agentes de segurança como caminho para melhorar os resultados da política no setor, cujos efeitos desse tipo de investimento não são imediatos e exigem continuidade por diferentes governos, em lógica semelhante à das políticas de educação.
Comentando a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública em discussão no Congresso, Sarrubbo afirmou ser contrário à aprovação do texto da forma que está, e que a proposta representa um retrocesso em relação ao Sistema Único de Segurança Pública (Susp), modelo que considera um dos principais avanços da legislação brasileira na área, e criticou também as alterações promovidas pelo Congresso em projetos elaborados pelo Ministério da Justiça para o combate ao crime organizado, afirmando que medidas concebidas para atingir as estruturas financeiras das facções acabaram sendo desfiguradas durante a tramitação.
O entrevistado afirmou também que a polarização política e ideológica em torno da segurança pública continua sendo um dos principais obstáculos para a construção de políticas de Estado voltadas ao enfrentamento da criminalidade.