Falta autoridade paterna

“O papel dos pais não é apenas fazer o filho ficar alegre. Há também o compromisso maior, que é o compromisso social, de formar um cidadão”

Falta autoridade paterna
Casada e mãe de dois filhos, a filósofa e professora carioca Tânia Zagury é autora de vários livros sobre educação escolar e familiar no Brasil, envolvendo a relação entre pais e filhos. Em seus livros, seminários, entrevistas e palestras, temas como insegurança dos pais, “terceirização” da criação dos filhos e os dilemas das mães cada vez ocupadas com o trabalho são discutidos.
 
Em setembro, Tânia esteve em Itabira para participar de um evento promovido pelo Centro de Educação Bem-me-quer. A professora e filósofa proferiu a palestra “Educar sem culpa: A relação entre pais e filhos na sociedade moderna” para centenas de pessoas no teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. Antes de sua apresentação, a palestrante recebeu DeFato para uma entrevista exclusiva.
 
Tânia é graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ), tendo registro como professora de Filosofia, Psicologia e Sociologia. Trabalhou em escolas municipais, supervisão educacional, centros regionais de educação e concluiu o mestrado em Educação também pela UERJ, onde fez disciplinas de doutorado em Educação. Atualmente é professora universitária e trabalha no aperfeiçoamento de professores, ministrando palestras, conferências e cursos em todo o Brasil.
 
Diante das constantes transformações sociais, como está a educação infantil no Brasil?
 
Trabalho há mais de quatro décadas na educação. Comecei muito cedo, aos 17 anos, como alfabetizadora. Depois progredi na carreira, continuei estudando e fui supervisora municipal pela rede pública. Há mais de vinte anos, comecei a trabalhar na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde atuei na formação de professores. Então, posso dizer que sou uma testemunha ocular da história da educação no Brasil das últimas décadas. Infelizmente, como sempre digo, não vi o que gostaria de ver. Antes de me aposentar, por exemplo, queria ver uma educação de qualidade a favor da população brasileira como um todo. Infelizmente, nos últimos anos, vimos várias e entristecidas medidas educacionais equivocadas que levaram a gente a ter menor qualidade. Embora os governos afirmem que alcançamos a universalização da escola, isso não corresponde muito à verdade. Embora a gente tenha 99% das crianças entrando na escola na 1ª série do Ensino Fundamental, infelizmente, até a 9ª série, quase metade dessas pessoas vai ficando pelo caminho. Em se tratando de Ensino Médio, aí a coisa exacerba ainda mais.
 
E com relação às famílias. Quais foram as maiores mudanças?
 
Além das mudanças na educação escolar, tivemos também, nas últimas décadas, mudanças substanciais na forma de a família encarar a educação e as tarefas dos pais. Por uma série de fatores que tratei em um dos meus livros, que chama “Sem padecer no Paraíso” (primeiro livro que fiz para pais), pude detectar algumas mudanças fundamentais, como, por exemplo, uma crescente insegurança dos pais em relação a como educar os filhos. Uma culpa também muito grande porque, a partir da década de 1960, as mulheres começaram a trabalhar em massa, em todas as áreas profissionais, em todos os níveis. Hoje temos uma mulher realmente no mercado de trabalho. Mais de 60% das mulheres trabalham fora e o grande problema é esse sentimento. Ele veio a, entre aspas, atrapalhar um pouco, porque a culpa impede os pais de agirem focando a educação, a formação, o que eu chamo de educação básica – a formação moral e ética –, que acaba resultando no caráter. Mas o papel da família é essencial, principalmente no desenvolvimento dos valores. Tanto que em meu livro “Educar sem culpa” coloquei no subtítulo “A gênese da ética”, onde tento mostrar para os pais que esse sentimento de culpa só é válido quando resulta no aperfeiçoamento do trabalho dos pais e não na alienação parental, no sentido de eles estarem com medo de agir.
 
Como você vê a questão da “terceirização” da educação dos filhos?
 
A terceirização dos filhos está ligada a três fatores basicamente: o primeiro é a ausência da mulher. Atualmente há a necessidade de a mulher repassar um encargo que era seu a outra pessoa. Isso, dependendo da situação da família, vai ser a escola ou a babá. Quando a mãe tem dinheiro e possibilidades, leva a criança para passear. Tem muitos casos em que a mãe não sabe nem a vacina que o filho tomou – quem sabe é a babá, que acompanha a criança nas consultas. A segunda causa é o que já falei anteriormente: a insegurança que faz com que os pais não digam não para o filho. Coisas que os pais resolviam em termos de casa, família, uma criança que tinha alguma dificuldade no aproveitamento, rapidamente se terceirizam. Se a criança tem uma dificuldade de fala, às vezes era um problema superável pela atenção que a mãe dava. A mãe tinha a paciência para se dedicar. Hoje não, vai para um psicopedagogo. E ainda há um terceiro fator que é também a questão do consumismo nos nossos dias. Os pais acham que, para ser um bom pai, tem que botar a criança em atividades intermináveis. Ela volta da escola, vai para a aula de natação, para o balé, para a aula de inglês. Não quer dizer que não seja ótimo, mas não de uma maneira persecutória nem obrigatória. Com isso, as relações vão se tornando cada vez mais fluídas, porque a convivência é muito pequena.
 
A sociedade tem passado por uma inversão de valores. O que os pais precisam fazer para transmitir mais autoridade?
 
Um engano dos pais é achar que só explicando, dialogando, resolve qualquer problema de conflito. Na verdade, isso não ocorre porque a criança é hedonista, ou seja, ela busca o que a agrada, o prazer. Ainda que a criança tenha de olhar para o outro e entendê-lo, ela é voltada para si. Então, se ela gosta de jogar bola o dia todo, vai querer jogar bola o dia todo. Não adianta a mãe ficar: “Filhinho, não faz isso”. É preciso que haja diálogo, sim, mas não apenas, porque senão você vai ficar o dia inteiro: “Filhinho faz isso, filhinho faz aquilo”, e acaba o dia e a criança fez o que quis. A segurança está ligada a quê? Aos pais serem envolvidos na capacidade de entender qual é o seu papel. O papel dos pais não é apenas fazer o filho ficar alegre. Há também o compromisso maior, que é o compromisso social, de formar um cidadão. Isso acaba se diluindo quando os pais ficam pensando que só conversando resolve. Passam-se os anos e o menino já é adolescente, adulto e não se encontrou porque tudo lhe foi permitido, na esperança de que um dia, conversando, as coisas acontecessem. Tem que ser um misto de segurança de objetivos com diálogos, sim, sem autoritarismo, pois há uma diferença muito grande entre ter autoridade e ser autoritário. O pai é investido de autoridade. Ele tem o poder de dizer ao seu filho: “Não vai fazer isso, pois isso é errado”. Começa o problema quando o pai não se sente com segurança para isso. Muitos pais alongam tanto esse diálogo que acabam invertendo paciência em agressão física. Ainda hoje temos um índice muito alto de pais que acabam batendo nos filhos porque esgotaram todos os recursos, pois faltou autoridade. Esse é o nó da questão.
 
Há uma luz no fim do túnel para a questão da educação dos filhos?
 
Tenho a felicidade de poder dizer que já tive testemunhos de centenas de pais me dizendo que realmente reverteram a situação. Existe, sim, total possibilidade de reversão. Agora, tem que ter aquilo que eu falei: mais segurança, clareza de objetivos e o momento de saber que acabou o diálogo e é preciso passar à ação. Aí, você como pai, tem autoridade. Agora, além disso, quero deixar uma mensagem aos pais. Às vezes eles se sentem muito perdidos, muito desanimados, desesperançados. Quero dizer que eles não devem se sentir assim, por que, de fato, posso afiançar que a tarefa dos pais se tornou bem mais complexa. Hoje, um fator que considero fundamental é o surgimento das mídias. Isso tudo trouxe também vários elementos que dispersam o foco da criança e ensinam muitas coisas nem sempre tão educativas quanto gostaríamos. Como a mãe e o pai estão ausentes, quem acaba tendo uma influência muito grande? Quem está formando conceitos nessa ausência dos pais? Muitas vezes são mídias que estão interessadas em um novo consumidor. É um elemento agravante que tornou a tarefa dos pais bem mais complexa. Acho que agora, mais do que nunca, os pais têm um papel ainda mais importante na formação dos futuros cidadãos brasileiros.