Família: por um tempo melhor

Teólogo Renato Martins da Rocha trabalha com aconselhamento familiar

Família: por um tempo melhor

Artigo publicado na edição 260 da Revista DeFato

Em seu livro “Um conto de duas cidades” de Charles Dickens, um clássico da literatura inglesa que aponta os problemas sociais e políticos da Inglaterra do início da Revolução Francesa, o autor traduz o seu tempo com uma frase paradoxal: “Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos”. Como podiam o tempo ser, ao mesmo tempo, o melhor e o pior dos tempos?

O que o autor estava retratando foi um período bem real e conflitante da história. Para alguns, foi um tempo de acumular grandes riquezas – o melhor dos tempos – e para outros houve uma expansão da pobreza e o aumento dos sofrimentos – o pior dos tempos. Talvez pudéssemos traduzir a frase de Dickens não tanto para a história da sociedade do seu tempo, mas para a história de muitas famílias em nossos dias com a seguinte pergunta: “Como é possível termos configurações familiares tão paradoxais?”

Se temos de um lado pais dedicados na formação do caráter moral e intelectual dos filhos; mães que até mesmo sem a presença do pai se esforçam em dar o melhor para os seus pequenos; filhos altamente preocupados com o bem-estar dos pais; e até mesmo avós envolvidos ativamente na educação dos netos; do outro temos as maiores loucuras acontecendo no seio familiar: filhos que se juntam para assassinar os pais; pais que, movidos por interesses de ascensão financeira, entregam seus filhos à sorte; maridos que são amados por suas esposas mas que se aproveitam do momento para traí-las com outras; esposas autoritárias e mandonas; e irmãos que preferem se manter distantes uns dos outros.

No final de tudo nos perguntamos: “o que está acontecendo com as famílias”? Por que o paradoxo também se instala nas famílias? Acredito que a origem de tanta confusão está na falta de paradigmas balizadores dos relacionamentos familiares. É preciso uma voz com autoridade. Quero chamar sua atenção para uma pessoa que histórica e humanamente tem muito a nos ensinar na questão da vida e suas relações familiares: Jesus Cristo. Entre seus vários ensinamentos e princípios quero destacar três que nos servem como excelentes balizas para que as famílias vivam “o melhor dos tempos”, experimentados pelo o próprio Jesus em seu “relacionamento familiar”:

Princípio da humildade: É fundamental para que as relações familiares se tornem o melhor dos tempos que a humildade seja a marca por excelência, como diz C. S. Lewis, autor da série “As Crônicas de Nárnia”: “A humildade é o caminho do prazer”. Os conflitos no seio familiar só se tornam reais quando a humildade não está presente para colocar cada um no seu lugar e cada um, ao invés de brigar por seu direito, se humilha e reconhece que errou e está arrependido.

Princípio da autoridade: É preciso que os pais assumam o papel de autoridade sobre seus filhos. Que não entregue a formação do caráter dos seus filhos a babás eletrônicas (tv, internet), nem terceirize a criação dos mesmos para as escolas, governo ou outras entidades. Os pais devem servir de modelo de autoridade pautada no amor, cuidado, serviço, disciplina e no perdão para os filhos. Relacionamentos onde há autoridade como a de Jesus, que memso sendo Senhor e Mestre lavou os pés, nunca corre o perigo de se subverter em autoritarismo, ditadura ou despotismo.

Princípio do exemplo: Jesus, sendo Deus, sabia perfeitamente que a maneira por excelência do aprendizado é o exemplo. Ele sabia que discurso ou meras informações não seriam suficientes para moldar a vida de ninguém, mesmo daqueles que moram na mesma casa. Pais precisam ser exemplo de perdão, de compaixão, de renúncia, de arrependimento, de serviço e principalmente de caráter. Maridos precisam ser exemplo de cuidado, serviço e bondade e de verdadeiro amor e esposas precisam ser exemplo de paciência, esperança e bondade. Como dizia Malba Tahan (1895-1974), um dos maiores divulgadores da matemática no Brasil: “Os sábios educam pelo exemplo e nada há o que atinja o espírito humano mais suave e profundamente do que o exemplo”.

 

Para finalizar, minha oração é que Deus esteja cuidando de sua família de um modo muito especial, trazendo não só o melhor dos tempos mas principalmente um tempo de paz, harmonia, alegria, reconciliação, perdão, pertencimento, convivência e amizade.

Renato Martins da Rocha é teólogo e trabalha com aconselhamento familiar