Filhos não são moeda de troca, mas continuam sendo usados como se fossem
Em muitas separações, especialmente as mais conflituosas, as crianças deixam de ser prioridade e passam a ocupar um lugar perigoso

Quando um relacionamento termina, o que deveria acabar é a relação entre o casal. A responsabilidade com os filhos não termina. Mas, na prática, essa é uma das primeiras coisas a ser distorcida.
Em muitas separações, especialmente as mais conflituosas, os filhos deixam de ser prioridade e passam a ocupar um lugar perigoso. Viram instrumento. Viram meio de atingir o outro. Viram ferramenta de controle, de chantagem emocional e, em alguns casos, de vingança.
É desconfortável admitir, mas é necessário. Isso acontece com muito mais frequência do que se admite.
Não é só nas grandes brigas. Não é só nos processos judiciais mais extremos. Isso começa nos detalhes. Começa quando um dos pais dificulta a convivência com o outro. Quando usa o filho para mandar recados. Quando omite informações importantes. Quando faz comentários que desqualificam o outro na frente da criança. Quando tenta ganhar afeto oferecendo vantagens, criando uma disputa silenciosa por preferência.
Isoladamente, essas atitudes podem parecer pequenas. Mas, repetidas no tempo, constroem um ambiente emocional instável. Um ambiente em que a criança não tem espaço seguro para simplesmente ser criança.
E é justamente ela quem paga essa conta.
Crianças não têm estrutura emocional para lidar com conflitos de adultos. Elas não sabem separar o que é problema dos pais e o que não é. Elas sentem. E, ao sentir, começam a carregar pesos que não deveriam ser delas.
Muitas passam a se sentir responsáveis pela situação. Outras desenvolvem culpa por gostar de ambos os pais. Algumas tentam agradar os dois o tempo todo, vivendo em alerta constante para evitar conflitos. Outras se fecham, ficam mais ansiosas, mais silenciosas, mais distantes.
É uma pressão que não aparece em fotos, não aparece em decisões judiciais, mas aparece na forma como essa criança vai se relacionar com o mundo.
Existe um limite que precisa ser reconhecido. Divergências entre pais são naturais. O problema começa quando o conflito ultrapassa o respeito e invade a vida da criança. Quando o filho deixa de ser prioridade e passa a ser usado como meio.
Meio de controle. Meio de disputa. Meio de validação emocional.
Nesse ponto, já não se trata mais de um problema entre adultos. Trata-se de um prejuízo direto ao desenvolvimento de quem ainda está em formação.
A lei brasileira é clara ao estabelecer que o que deve prevalecer é o melhor interesse da criança. Isso significa garantir convivência equilibrada, ambiente emocional saudável e proteção contra conflitos que ela não tem maturidade para processar. Quando um dos pais coloca o filho no centro da disputa, isso não é apenas uma falha moral. Pode ser uma violação de direito.
E aqui está uma verdade que muitas vezes é ignorada. Nem sempre isso acontece por maldade consciente. Muitas vezes nasce da dor, da frustração, do sentimento de injustiça que o fim de uma relação provoca. Mas a intenção não anula o impacto.
Crianças não interpretam contexto. Elas absorvem o que vivem.
O grande desafio depois de uma separação é justamente esse. Separar o que é do casal do que é da parentalidade. O relacionamento terminou, mas a responsabilidade continua. Criar um filho em comum exige cooperação, mesmo quando não existe mais vínculo afetivo entre os adultos.
Isso não é fácil. Exige maturidade, limites e, muitas vezes, orientação. Mas é indispensável.
Filhos não são extensão de conflitos. Não são instrumentos de disputa. Não são moeda de troca.
Proteger uma criança de uma guerra emocional não é proteger o outro genitor. É proteger quem não escolheu estar naquela situação.
No final, ganhar uma disputa importa menos do que preservar a saúde emocional de um filho. Porque algumas marcas não aparecem imediatamente. Mas permanecem, silenciosamente, por toda a vida.
Sobre a colunista
Juliana Drummond é esposa, mãe e advogada com mais de 20 anos de experiência na área cível e criminal. Também é especialista em Direitos das Mulheres; pós-graduada em Advocacia Feminista pela Escola Superior de Direito, em São Paulo; capacitada em Advocacia com Perspectiva de Gênero pela Escola Brasileira de Direitos das Mulheres; e representante da OAB Itabira na Comissão Especial Enfrentamento a Violência Doméstica da OAB Minas Gerais.
O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião do portal DeFato Online.




