Fotógrafo usa sensibilidade e mostra uma rodovia que vai além do asfalto e dos acidentes
Personagens e suas histórias despertaram sensibilidade de fotógrafo belo-horizontino
Asfalto, veículos, movimentação intensa e acidentes. Para quase todas as pessoas, é assim que se resume a BR-381. Chamada de “Rodovia da Morte”, a estrada carrega uma fama amarga de ser assassina. Mas há quem olhe por outro lado. Gente como o fotógrafo Daniel Moreira, que resolveu se atentar para o que existe de vida na malfadada 381. Com muita sensibilidade, o profissional registrou o que a maioria enxerga como banal.
Daniel é belo-horizontino e, por cinco anos, fez inúmeras vezes o trajeto entre a capital e Ipatinga. Tantas idas e vindas pelos 200 km que ligam a Região Metropolitana ao Vale do Aço aguçou a visão do fotógrafo. O profissional contemplou trechos da estrada e das pessoas que encontrava pelo caminho, buscando explorar o que ele chama de uma “linha tênue” entre o socialmente aceito e a escolha pessoal dos indivíduos que ali habitavam. O resultado é o projeto Paisagem Ambulante 381.
O projeto surgiu em 2010, quando Daniel se casou e sua esposa não podia morar com ele em Belo Horizonte. Então, ele passou a fazer o percurso até Ipatinga semanalmente para encontrá-la. O fotógrafo começou a reparar como o mesmo local se transformava esteticamente com o tempo, daí o nome do projeto. Ao longo do tempo, Daniel percebeu e fotografou essa relação de como o ser humano convive com o meio e como ele incorpora tudo o que vê ao seu redor. A estrada e seus andarilhos se tornaram uma espécie de paisagem em constante mutação e movimento.
Formado em Comunicação Social, Daniel é fotógrafo desde os 22 anos e no começo fotografava campanhas publicitárias e trabalhos de moda. Hoje, aos 36, ele conta que chegou um momento em que este tipo de trabalho não trazia mais prazer. “Comecei a sentir uma necessidade de organizar os meus pensamentos através do meu olhar e começar a produzir séries fotográficas sobre temas que eu considero pertinentes”, disse. Questões como o consumo, o relacionamento humano e como a sociedade direciona novos valores sociais passaram a chamar mais atenção e direcionaram o caminho de seu trabalho.
Fotografias
O trabalho reúne cliques em preto e branco. O fotógrafo explica que se aproveitou da luz difusa dos períodos chuvosos para fazer registros melancólicos de ruínas, automóveis abandonados, fumaças, cenários naturais e andarilhos que cruzaram seu caminho. “Passei a observar também objetos jogados, como caçambas e outros produtos que haviam perdido a sua funcionalidade e eram simplesmente deixados na rodovia”, contou. Os dias chuvosos foram os que mais chamaram a atenção do artista. “Creio que seja pela luz e o sentimento de solidão que eu sentia nestes dias”, disse.
O intuito do fotógrafo é desenvolver a necessidade de criar um olhar reflexivo, despertando nas pessoas uma forma diferenciada de apreciação das fotografias. Para Daniel, os viajantes se fundem ao espaço e passam a incorporar a paisagem que fica pela estrada e que se modifica com o passar do tempo. O profissional afirma que cada um possui uma leitura das imagens vistas e a absorção de ideias é inúmera. “Porém, o importante é que as pessoas sejam provocadas e assim ocorram transformações”, afirma.
Ao longo dos anos, além de fazer as fotos, Daniel acabou conhecendo as histórias dos personagens de seu projeto. Uma, em especial, chamou atenção do fotógrafo. Um senhor uruguaio que resolveu deixar tudo para trás para atravessar a América Latina a pé. “Esse era o seu objetivo. Já outros haviam rompido com parentes e nem sequer queriam ter o rosto registrado para não serem reconhecidos”, comentou.
Desde que começou a mostrar o resultado de seu trabalho, o fotógrafo tem recebido e-mails e mensagens com depoimentos emocionados de pessoas relatando sobre a exposição. “Esse retorno é gratifi cante. É importante que a pessoa pare pelo menos cinco segundos diante de cada foto, que o público seja instigado a pensar e refletir sobre a imensidão de informações contidas nas imagens”, afirmou.
Contraste social
De acordo com Daniel, o trabalho na BR-381 expõe um contraste social que passa despercebido pela maioria das pessoas. Voltar o olhar para situações pouco recorrentes o ajudou a aceitar escolhas que não passam perto do pré-defi nido como socialmente aceito. “Nem todas as pessoas possuem o sonho de ter uma casa, uma esposa, filhos ou uma vida sólida financeiramente. E isso é retratado no projeto”, acredita. Para se ter ideia, Daniel chegou a encontrar pessoas que moravam dentro de carcaças de automóveis.
O perigo da estrada em nenhum momento foi o objetivo principal do projeto. Segundo Daniel, “para ver acidente, é só abrir um jornal”. Ele direcionou o olhar para uma “teia estética” que é formada entre a rodovia e os viajantes, gerando um certo mundo solitário, onde as imagens são bem contemplativas. O artista passou muito tempo sozinho na estrada. “As fotografias refletem esse pensamento contemplativo e essa visão um pouco solitária que eu sentia na época”, disse o fotógrafo.
“Levo em conta os sentimentos que a pessoa tem com o local. Como ela lida com as questões preponderantes para a sociedade e como ela retorna isso para o mundo”, explica Daniel. Segundo o fotógrafo, vários dos personagens escolheram a rodovia como alternativa de vida. “Existem aqueles que visam uma perspectiva de melhora de vida, que era tão baixa, que preferiam atravessar o país atrás de emprego, de uma vida melhor”, contou.
Exposição
No projeto Paisagem Ambulante 381, Daniel selecionou 38 fotos para montar a exposição. As imagens ficaram expostas ao público no Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, em Belo Horizonte. No ano passado, o projeto rendeu a Daniel Moreira o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia.