“Genin” em tudo que faz

O hábito de desenhar de um jovem que não levava jeito para o futebol – nem mesmo para o gol – formou um ícone nacional. O itabirano Luiz Eugênio Quintão Guerra, o Genin, 50 anos, casado e pai de duas filhas, contradiz o ditado sobre nada na vida ser por acaso. Filho de Paulo Sampaio Guerra […]

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O hábito de desenhar de um jovem que não levava jeito para o futebol – nem mesmo para o gol – formou um ícone nacional. O itabirano Luiz Eugênio Quintão Guerra, o Genin, 50 anos, casado e pai de duas filhas, contradiz o ditado sobre nada na vida ser por acaso. Filho de Paulo Sampaio Guerra e Adelípia Quintão Guerra, criado com mais quatro irmãos no bairro Pará, em Itabira, começou a carreira despretensiosamente e acabou tornando-se referência em desenhos e artes plásticas.

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Num ateliê de 100m2, no terceiro andar de sua casa, em Belo Horizonte, Genin recebeu DeFato. Espalhados pelo cômodo, alguns de seus trabalhos que ganharam reconhecimento nacional e internacional. O que prevalece entre prateleiras e paredes são desenhos, fotos e projeções artísticas do Poeta Maior Carlos Drummond de Andrade. Uma grande marca foi a fabricação de três peças para a comemoração do centenário do poeta, em 2002. Esculturas hoje instaladas em frente ao prédio da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), Memorial e Fazenda do Pontal. Todas elas retratadas em painéis perfilados no local de trabalho do artista.

Genin fala de sua vida, da relação com Itabira e de seus trabalhos, e conta como sua área também evoluiu com os benefícios gerados pela internet. Ao comemorar meio século em janeiro, o artista lança outro desafio para sua inspiração diária: quer se dedicar, além dos desenhos e esculturas em bronze, à pintura.
Como foi sua iniciação no desenho?
Como não levava jeito para futebol, enquanto meus amigos jogavam bola eu ficava em casa desenhando em papel de embrulhar pão. No final dos anos 70, etapa final da ditadura militar, jovens itabiranos,
alguns residentes em Belo Horizonte, uns estudantes e outros poucos profissionais liberais, fundaram o jornal “O Cometa Itabirano”. Era o mais novo entre eles. Alguns escreviam, outros eram fotógrafos e só eu desenhava. Aí, acabei assumindo a parte de charges e ilustrações. Comecei assim, sem levar muito a sério, sem muito profissionalismo. O jornal foi a minha escola. Vieram as ilustrações, as exposições, os contatos com outros profissionais, as esculturas e este ateliê em casa, que já tenho há dez anos.
Você foi artista durante toda a vida ou teve outra profissão?
Nas minhas andanças, cursei Engenharia Civil pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e Belas Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ao me formar em Engenharia, fui trabalhar na área de estradas em Ubá. Apesar de ter atuado durante cinco anos como engenheiro, paralelamente, fazia meus desenhos para os jornais com os quais colaborava. Depois vi que levava jeito com as artes e larguei a engenharia. Encontrei dificuldades, alguns meses de salários atrasados em jornais, o ceticismo de muitos e barreiras que não me desanimaram.
Onde já publicou seus desenhos?
Fui editor de Arte no Diário do Comércio, Jornal de Casa, fiz algumas ilustrações para o Estado de Minas, Hoje em Dia e Gazeta Mercantil, em Belo Horizonte, revista de humor “Bundas” Rio de Janeiro e O Pasquim, ambos do Rio de Janeiro. Fiz uma experiência de charges animadas no Globo Esporte Minas.
E as esculturas?
Além das de Drummond, fiz, em Itabirito, as esculturas de Orson Welles (2006) e do ex-técnico Telê Santana (2007). No final de 2008, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais me encomendou um baixo relevo do ex-ministro José Aparecido de Oliveira, que está na escadaria do hall principal da Casa, em Belo Horizonte. E tenho feito alguns bustos de personalidades pelo interior de Minas.
Você diz que para realizar algo como uma exposição, por exemplo, é preciso que alguém o ins-tigue. Como é isso?
Para uma exposição fazer sentido é preciso ter um motivo e uma quantidade mínima de obras. Montar uma exposição não é fácil: requer tempo, trabalho e tem um custo. Nunca levei o meu trabalho para o lado comercial. Não tenho esse DNA de empresário, apesar de parte da família ser de Santa Maria de Itabira (risos). Na minha vida, ser artista foi por acaso. Comecei desenhando no Cometa porque só havia eu para fazer as ilustrações. Foram aparecendo outros trabalhos que me envolveram e me estimularam a continuar. Se dependesse exclusivamente de mim, não sei se estaria aqui com essa sequência de atividades. Vou fazendo por instinto, sem a preocupação comercial ou de agradar a gregos ou a troianos.
E sua rotina no ateliê? Genin trabalha com a tranquilidade que lhe é peculiar?
Costumo dizer que sou o dono de casa. Logo cedo, levanto e venho para cá (no terceiro andar da casa). Minha esposa é funcionária pública. Mantenho uma rotina de trabalho. Às vezes, varo a madrugada com ilustrações e modelagem de outros trabalhos. Mas sou acostumado a ficar aqui, sozinho, num espaço bem calmo, com uma música ao fundo. Música é como o meu sangue, não vivo sem ela. Aqui nem parece que é Belo Horizonte. Não se ouve barulho, nada. Quando sobra um tempo, venho para a varanda e dou uma arejada.      

As charges, antigamente, eram mais vistas em jornais. Hoje elas estão mais escassas no mercado. O que você acha que aconteceu?
O espaço para esse tipo de atividade é pequeno nos grandes jornais. A internet é, atualmente, o grande veículo para os cartunistas. Não só para divulgação, mas também para a troca de experiências e fortalecimento da profissão de ilustrador em geral. A filiação à Sociedade dos Ilustradores do Brasil (www.sib.gov.br) me abriu novas possibilidades: tenho contato com profissionais do país inteiro e, através de e-mails, posso ter notícias sobre os trabalhos da turma, trocar experiências, esclarecer dúvidas sobre contratos, equipamentos e até preços cobrados. No Brasil, ainda há muitas pessoas que não valorizam nosso trabalho. Para sobreviver, tenho que fazer um pouco de cada coisa: ilustrações para livros, cartuns para sindicatos, para bares e restaurantes, que os utilizam para decoração interna, etc. Mas acho que a situação dos ilustradores tende a melhorar. Isso, se a crise deixar.
E a fabricação de esculturas em bronze? Como começou?
Fiz uma matéria sobre escultura na Escola de Belas Artes mas não me entusiasmei na época. Até que, um dia, minha sogra, que havia ficado viúva, me pediu para restaurar a cabeça de uma imagem de Santo Antônio. Restaurei o santo casamenteiro e continuei fazendo alguns trabalhos, me aprimorando em técnicas de modelagem em argila, fundição e fabricação das esculturas em bronze. Surgiram, a partir daí, trabalhos como os de Drummond e o busto do ex-bispo emérito Dom Mário Teixeira Gurgel, em Itabira, Orson Welles e Telê Santana, em Itabirito.
Como as esculturas são feitas?
É um processo muito trabalhoso. Começa pela criação da imagem num desenho, passa pela modelagem em argila, réplica e retoque na cera, fundição, acabamento e oxi-dação. Por ser moroso, requer um envolvimento de uma equipe de no mínimo três pessoas. Esculturas como a do Telê Santana demoram cerca de três a quatro meses para ficarem prontas. Exige muita paciência, claro, mas o resultado é tão prazeroso para quem a vê pronta, quanto, principalmente, para quem esteve envolvido com todo o processo.
Você tem alguma escultura preferida?
É difícil falar porque todos os trabalhos tiveram suas peculiaridades. Mas as três do Drummond, feitas para o Centenário em 2002, estão entre as que mais me identifico.
Sua relação com Itabira carrega algum ressentimento?
Não de minha parte. Passei minha infância em Itabira e gosto muito de lá. Pelo menos uma vez por mês volto à casa dos meus pais e tenho bons e velhos amigos na cidade. Faço trabalhos para vários itabiranos. Se me perguntam se voltaria, logo digo que estou bem aqui e encontro na minha casa o espaço ideal para trabalhar. Querendo ou não, o mercado aqui é mais amplo. Mas quanto a Itabira, não há nenhum tipo de ressentimento, muito pelo contrário. Saí da cidade para fazer o científico, como diziam na época, e acabei ficando em Belo Horizonte. No Memorial, por exemplo, há muitos trabalhos meus que quero restaurar. Embora não esteja fisicamente tão presente, sou ligado ao que acontece na cidade. Acho que temos tudo para fazer de Itabira uma cidade especial, aproveitando a sua vocação para as artes.
Agora, aos 50 anos, o que mais pretende fazer?
Hoje pretendo partir para as artes plásticas, a pintura em telas e esculturas em bronze. Ainda estou ensaiando, brinco com algumas imagens. É um projeto pessoal. Quero montar um acervo. Meu sonho é restaurar um casarão que foi dos meus avós no morro da Igreja da Saúde e instalar ali um ateliê-café com telas, esculturas, desenhos e outros trabalhos. Falta ganhar na loteria (risos). Também, agora em abril, pretendo doar um busto em bronze do meu pai para o Centro de Especialidades Odontológicas em Itabira, que carrega o nome dele. 

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