Gente Verde

Atualmente, preservação e sustentabilidade são alguns dos termos mais usados nas discussões sobre meio ambiente. As respostas pela intervenção indiscriminada do homem na natureza estão cada vez mais presentes no cotidiano, como aquecimento global, desastres naturais e desequilíbrios do ecossistema. Em Itabira e região, em nome da coletividade, algumas pessoas agem em prol do futuro […]

Gente Verde
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Atualmente, preservação e sustentabilidade são alguns dos termos mais usados nas discussões sobre meio ambiente. As respostas pela intervenção indiscriminada do homem na natureza estão cada vez mais presentes no cotidiano, como aquecimento global, desastres naturais e desequilíbrios do ecossistema. Em Itabira e região, em nome da coletividade, algumas pessoas agem em prol do futuro do planeta e das próximas gerações.
 
A professora Tininha, as biólogas Beatriz e Bárbara e o técnico em Meio Ambiente Dênis são exemplos disso. Cuidar do meio ambiente e dar bons exemplos, inventando formas de mobilizar as pessoas a contribuir com a causa, é a missão assumida. A seguir, eles mostram que não é preciso esforços sobrenaturais para agir de forma ecologicamente correta, com boa vontade e consciência de que a mudança de atitude não pode mais ser adiada.
 
BÁRBARA RAJÃO
Sustentabilidade com geração de renda é o conceito que a bióloga Bárbara Rajão, 34, emprega para ajudar a preservar o meio ambiente. Em Itabira, fabricando produtos a partir de caixas de leite, criou uma forma de satisfazer necessidades da geração atual sem prejudicar as futuras. Em 2003, Bárbara formou-se pela PUC-MG. Foi professora da Funcesi, ministrando disciplinas relacionadas à saúde. Mas a vontade de tornar-se empreendedora veio ao encontro do anseio de se dedicar inteiramente às questões voltadas para o meio ambiente.
 
Em julho de 2010, Bárbara abriu a Biometas, empresa de produtos “verdes”. Na linha de frente do mix, estão as telhas ecológicas. Para cada uma são utilizadas 2.500 caixas de leite, retirando de circulação um material de difícil decomposição. “Essa foi a forma que encontrei de fazer minha parte. Em Itabira há uma boa aceitação. As pessoas que aderirem ao produto contribuirão para preservar o meio ambiente. Não basta fazer discurso e protelar uma mudança de atitude, porque os recursos naturais são escassos”, afirma a empresária.
 
As caixas de leite também se tornaram matéria-prima para mesas, cadeiras, estantes e lixeiras com o mesmo conceito. Bárbara prossegue os estudos e realiza, ainda, consultoria ambiental em empresas, graças ao know-how obtido com o trabalho em prol do meio ambiente.
 
TININHA
A luta de Tereza Cristina Almeida Silveira, Tininha, 47, em defesa do meio ambiente começou em 1994. Ela participou da criação do Movimento SOS Rio Santo Antônio, em Ferros. Na ocasião, garimpeiros exploravam ouro com utilização de dragas e mercúrio, poluindo a água, contaminando e matando peixes.
 
Professora na rede pública estadual, pós-graduada em História, Tininha, junto da comunidade e do Ministério Público Estadual (MPE), conseguiu eliminar o garimpo predatório no rio. Desde então, nunca mais abandonou a luta em prol do Santo Antônio.
 
Os garimpeiros se foram, mas chegaram projetos de construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e mineração, empreendimentos que continuam a colocar em risco o ecossistema da região, segundo ela. No empenho de modificar a realidade, ela fez com que o movimento SOS Rio Santo Antônio se transformasse em uma ONG, a Associação de Defesa e Desenvolvimento Ambiental de Ferros (Adaaf). A entidade, da qual é presidente, foi fundada em 2001.
 
Além do MPE, a Adaaf tem apoio da Polícia Militar do Meio Ambiente, da Emater e de escolas da rede pública para realizar ações de mobilizção e educação ambiental em Ferros e região. Tininha acompanha, sistematicamente, os processos de Licenciamento dos empreendimentos de PCHs previstos para a Bacia do Rio Santo Antônio. Ela foi articuladora de um abaixo-assinado que reuniu cinco mil assinaturas contrárias aos empreendimentos, entregue à Comissão de Minas e Energia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais em 2009. 
 
Tereza ainda é coautora de um livro que descreve a expedição feita da nascente à foz do Rio Santo Antônio. “Tive a oportunidade de conhecer melhor a região, suas belezas naturais, seu povo e confirmar in loco o grande potencial turístico que temos. Conheci lugares e pessoas fundamentais para o fortalecimento da minha luta em defesa do meio ambiente”, revela.
 
Segundo a presidente da Adaaf, um dos mais graves problemas da região é a falta de saneamento básico, já que várias cidades da bacia do Santo Antônio lançam esgoto in natura no rio, inclusive Ferros. No entanto, ela ressalta que a situação tem prazo para ser mudada, pois o próprio governo estadual incentiva os municípios a promover ações de saneamento.
 
Mas o que mais preocupa Tininha é mesmo o licenciamento de grandes empreendimentos previstos para a região. De acordo com ela, os órgãos reguladores atendem a interesses econômicos. “Eles são compostos de forma paritária e, no momento de decisão, os empreendedores se unem e usam a influência que têm para conseguir a aprovação de seus projetos. Leis são alteradas para facilitar a destruição e oferecer segurança jurídica. Mesmo ciente dessa realidade, não podemos desanimar e deixar de acreditar que é possível reverter a situação”, diz a ambientalista.
 
A professora chama a atenção para a necessidade de a população se informar sobre as questões ambientais. “Os interesses econômicos não podem se sobrepor aos interesses sociais e ambientais. Os empreendimentos devem ser estruturados sem ultrapassar aquilo que a bacia do Santo Antônio suporta”, diz Tininha, engajada na salvação do rio.
 
BEATRIZ LISBOA
Bióloga e biogeógrafa, Beatriz de Aquino Ribeiro Lisboa, 31, formou-se pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, cidade onde nasceu. Mas suas origens, a exemplo da ferrense Tininha, estão ligadas ao Rio Santo Antônio. A família de seu pai vive em Sete Cachoeiras, distrito de Ferros, local onde o rio se mostra exuberante.
 
De acordo com Beatriz, foi lá que ela se apaixonou pela natureza. “Ao longo da infância, tive contato próximo com montanhas e lindas matas, com o rio e os bichos. Essas experiências foram decisivas na formação de meus valores, nas minhas escolhas profissionais e no amor que sinto pelo que é vivo”, explica.
 
A bióloga diz que seu trabalho é fruto de uma enorme vontade de fazer com que o conhecimento produzido na universidade chegue àqueles que mais precisam dele: os moradores das zonas rurais.
 
Em 2002, ela foi aprovada num concurso do Ibama, com vagas destinadas à Amazônia. Por meio do trabalho como analista ambiental em uma Unidade de Conservação Ambiental conheceu o marido, o geógrafo Antônio Lisboa, com quem comunga os ideais. Juntos, desenvolveram, há sete anos, no Parque Nacional do Viruá, em Roraima, o trabalho que possibilitou a moça colocar em prática seus princípios. “Hoje, não sou apenas bióloga, mas biogeógrafa. Aplico o conhecimento gerado nas universidades na gestão do patrimônio natural, permito às pessoas usufruir do patrimônio que lhes pertence (por meio da educação, pesquisa e lazer), e defendo os interesses coletivos associados à conservação e ao uso do patrimônio natural e cultural”, diz.
 
Junto da equipe do Parque Nacional do Viruá, Beatriz realiza um trabalho de grande impacto nacional e internacional. O parque é, atualmente, a Unidade de Conservação Federal com maior número de espécies de vertebrados (mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes) registradas em todo o país.
 
Mas o feito mais importante para a sua região de origem ocorreu em 2009. Em parceria com a Adaaf, Beatriz concluiu a análise dos projetos de PCHs traçados para o Rio Santo Antônio no território de Ferros. O resultado do estudo aponta a completa dimensão da ameaça ao patrimônio natural, por ter detectado que os projetos não previam análises integradas de impactos ambientais na região. A pesquisa, enfatizou, ainda, a certeza de que entre a conservação e uso do patrimônio ambiental e sua degradação pelas PCHs para o benefício estrito de corporações, a primeira opção é a mais benéfica para a sociedade.
 
Tal estudo, junto dos apelos da comunidade, motivou o Ministério Público Estadual a denunciar à Justiça a possibilidade de degradação. A juíza da 2ª Vara da Fazenda Pública Estadual, Lílian Maciel Santos, por meio de liminar, determinou, em agosto de 2011, a suspensão do licenciamento de todos as PCHs previstas para a região, decisão que ainda vigora.
 
A determinação repercute em comissões da Câmara e do Senado, que já consideram a possibilidade de rever a legislação sobre a construção de pequenas hidrelétricas no âmbito da Política Nacional de Geração de Energia, para a felicidade de Beatriz. 
 
Hoje, em Roraima, “Permitir aos brasileiros usufruir do patrimônio que lhes pertence, através de seu conhecimento e conservação, para o fortalecimento de valores coletivos e de solidariedade, é o desafio dos gestores da biodiversidade e do patrimônio ambiental de nosso país”, diz a bióloga.
 
Hoje, movida por valores que nasceram do contato com o rio, Beatriz segue sua caminhada em favor da vida.
 
DÊNIS DUARTE
Mobilização. Mais do que uma palavra, essa atitude traduz a essência do trabalho de Dênis Lage Duarte, técnico em Meio Ambiente pela Faculdade Itabirana Difusora de Ensino (Fide), bacharel em Enfermagem pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac) e especialista em Enfermagem do Trabalho pelas Faculdades Integradas de Jacarepaguá-RJ.
 
Impulsionado por um sonho de criança, em 2005, junto de 83 alunos do curso técnico em Meio Ambiente, idealizou e fundou a Sociedade Ambiente Vivo Itabira (Savi). O que era para ser um trabalho disciplinar do curso técnico transformou-se em entidade reconhecida, capaz de estimular pessoas a cuidar melhor do meio ambiente.
 
Com a ajuda de nove voluntários, Dênis articula e promove na Savi a realização de atividades de educação ambiental nas escolas. A entidade promove excursões em locais estratégicos, como parques ecológicos, aterros sanitários e lixões. Também são ministradas palestras na zona rural, entre outras ações, com foco em Itabira e região.
 
Nas escolas, as gincanas ecológicas estimulam o recolhimento de garrafas PET. Em 2011, a entidade presenteou as instituições públicas de ensino participantes com computadores e celulares, conseguidos numa ação junto de colaboradores da Savi.
 
 Em uma parceria com a Polícia, a Promotoria Pública de Meio Ambiente, empresas privadas e alunos, Dênis e outros voluntários da Savi fazem o possível para que o meio ambiente seja preservado e respeitado.
A entidade trabalha com formas de reaproveitar diversos materiais na confecção de sacolas ecológicas, como garrafas PETs, tecidos, caixa de leite longa vida e banners. O óleo de cozinha também é reaproveitado, sendo transformado em sabão. Depois de reciclado, tudo é doado para a população.
 
“Acredito contribuir fielmente na busca de um mundo ambientalmente sustentável, socialmente mais justo e economicamente viável. Para isso, buscamos trabalhar a educação ambiental com base bem sólida, com crianças, para que possamos edificar cidadãos melhores no que se refere a respeitar o meio ambiente”, explica Dênis.
 
O ambientalista, membro do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema), acredita que as pessoas precisam se preocupar não apenas em respeitar o planeta, mas em defendê-lo. “É preciso respeito, também, à legislação ambiental. Falta promover alternativas de prevenção contra a poluição e reaproveitamento dos resíduos gerados. É necessário administrar o uso dos recursos naturais de forma mais racional. Falta à administração pública apoiar e incentivar mais programas de conscientização e preservação”, cobra o ambientalista.
 
Dênis complementa dizendo: “Faço minha parte, mas sei que é pouco”. E pode mesmo ser pouco, se não for lembrada a fábula do beija-flor que tentava apagar o incêndio da floresta levando sua pequena porção de água no bico. Se cada um seguir um bom exemplo, no futuro estará assegurado um lugar melhor para se viver.