Gerson Querubino revela os desafios da provedoria do Hospital Nossa Senhora das Dores

O novo dirigente da entidade filantrópica tem uma carreira de 38 anos no funcionalismo público do município

Gerson Querubino revela os desafios da provedoria do Hospital Nossa Senhora das Dores
O provedor Gerson Querubino(c) e o diretor-executivo Alexandre Coelho(e) durante entrevista à DeFato- Foto: Guilherme Guerra/DeFato
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José Gerson Querubino assumiu a provedoria do Hospital Nossa Senhora das Dores (HNSD) neste ano. O novo dirigente da entidade filantrópica tem uma carreira de 38 anos no funcionalismo público do município. Ele iniciou a sua trajetória na Prefeitura de Itabira ainda adolescente. Na juventude, trabalhou também no barRio Branco, na rua Ipoema, bairro Pará, um estabelecimento de propriedade do seu tio, José Gonçalves.

Querubino se destacou em cargos comissionados da administração municipal. Foi, por exemplo, o primeiro secretário de Ação Comunitária (atual Assistência Social), no Governo José Maurício Silva (1983 a 1987).

Com o tempo, o servidor se especializou na área tributária. Agora, enfrenta um dos maiores desafios da sua vida que é o exercício do alto cargo da instituição religiosa filantrópica. A princípio, cumprirá mandato de dois anos, com direito a uma tentativa de reeleição.

Na entrevista a seguir, o provedor revela a sua rotina de trabalho, destaca os desafios da nova função e revela detalhes do processo de expansão do HNSD. Confira.

DeFato: Hoje, em dia, o senhor ocupa um dos mais importantes cargos da região, que é a provedoria do Hospital Nossa Senhora das Dores. O que significa o desempenho desta missão na sociedade itabirana?

José Gerson Querubino: Eu vou, para contextualizar, dizer uma coisa interessante. Eu tive a oportunidade de, durante sete anos, pertencer à Mesa Administrativa do Hospital, na condição de secretário. Logo a seguir, fui eleito vice- provedor na chapa do irmão Márcio Labruna. Então, por esse tempo todo, eu acompanhei todos os projetos. Sei onde o hospital estava, onde ele queria chegar, o que estava sendo programado, todo o trabalho de planejamento. Então, o convite para ser candidato a provedor foi uma oportunidade de dar continuidade ao trabalho, que já vinha sendo elaborado por uma equipe muito boa, uma equipe de diretores e gerentes, muito dedicados ao Hospital. E eu, como membro da Irmandade, tendo a oportunidade de chegar à provedoria, vi a possibilidade de continuar servindo, prestando esse serviço voluntário à comunidade e a Deus.

DeFato: E, na prática, de que forma esse trabalho se desenvolve?

Gerson Querubino Nós procuramos sempre trabalhar no sentido de fazer o bom acolhimento das pessoas, porque ninguém vai ao Hospital para passear. Quando o paciente chega, se encontra fragilizado. Então, a equipe tem que estar preparada para uma ação com muita eficiência e sensibilidade. Mas, é preciso entender que eu não sou provedor, eu estou provedor. Estar provedor é uma oportunidade de servir ao próximo. Em suma, a nossa missão é trabalhar sem tirar qualquer proveito, simplesmente servir. Não precisa nem aparecer. É necessário apenas saber o que está acontecendo e fazer o possível para que as pessoas sejam bem acolhidas e cuidadas.

DeFato: E como acontece a escolha do provedor da instituição? Ocorre uma indicação direta da Irmandade Nossa Senhora das Dores ou é por meio de um processo eleitoral?

Gerson Querubino: Normalmente, o estatuto determina um mandato de dois anos para o cargo. Concluído este período, o provedor pode tentar uma reeleição, formando uma chapa inteira, inclusive com Conselho Fiscal. Os membros da irmandade são os eleitores. Hoje em dia, 180 irmãos têm direito ao voto. Eles acompanham e avaliam o trabalho do provedor. Este voto não é de cabresto. É um voto de avaliação de desempenho, onde prevalece a meritocracia.

DeFato: E quais são os quesitos fundamentais para o bom desempenho do cargo?

Gerson Querubino: O candidato necessita estar realmente preparado para o exercício da função porque é um cargo de muita exigência. Exige-se, principalmente, total disponibilidade. Hoje, graças a Deus, com o apoio de uma equipe técnica muito boa, o provedor pode concentrar e destinar suas energias para as funções que o estatuto estabelece. Há um diretor- executivo que cuida do dia a dia do Hospital e sabe o que está acontecendo. Ele acompanha tudo e faz a gestão acontecer.

DeFato: E qual é o organograma desta equipe administrativa?

Gerson Querubino: O provedor faz parte do Conselho de Administração do Hospital. O Primeiro lugar, nesta hierarquia, é a Assembleia Geral. Depois, vem o Conselho de Administração e a Diretoria Geral, com o diretor- executivo. A Diretoria Geral é um órgão mais técnico. A gerência é formada pelo provedor, vice- provedor, diretor- executivo, diretor financeiro, secretária-geral e gestor de processos, que é muito importante. Acima desta estrutura, temos o Conselho de Administração, que é presidido pelo bispo Dom Marco Aurélio Gubiotti. O cargo de provedor, além de ser voluntário, é de alta responsabilidade. É um cargo pesado.

DeFato: Então, o senhor desenvolve uma rotina de trabalho muito intensa, pode-se dizer que de quase 24 horas…

Gerson Querubino: Graças a Deus, não preciso trabalhar 24 horas porque conto com uma equipe muito boa, uma equipe competente e dedicada, que veste a camisa do Hospital. O provedor tem as suas atribuições bem definidas no estatuto, mas ele precisa estar muito presente. Eu cumpro uma agenda no Hospital, durante a semana inteira. Um dia pela manhã, outro dia de tarde. E, se precisar, a gente vai lá aos sábados e domingos. Mas, não é necessário, porque a diretoria é muito competente, muito ativa.

DeFato: A provedoria é um dos cargos mais importantes de Itabira e região. Mesmo porque, o Hospital Nossa Senhora das Dores recebe pacientes de vários municípios. O senhor sabe a real dimensão deste desafio? O que esta missão representa em sua história de vida?

Gerson Querubino: Eu acho que tenho noção do tamanho deste desafio. Lá no fundo, eu ainda me interrogo: será que a ficha caiu? Será que sou eu mesmo? Porque estou diante de uma responsabilidade muito grande. É preciso pensar muito, medir cada palavra, cada gesto, porque estamos à frente de uma instituição que cuida da vida das pessoas. Eu sempre digo que deveríamos ouvir as paredes dos hospitais porque elas guardam segredos da vida e de despedidas. Eu costumo dizer que o cargo está acima do provedor. Na verdade, nós estamos a serviço do cargo. E por pouco tempo, pois o mandato tem a duração de dois anos.

DeFato: Observando detalhadamente o organograma, percebe-se que o Hospital funciona como uma empresa. Na verdade, uma grande empresa da vida. E como se encontra a situação econômica e administrativa da instituição?

Gerson Querubino: O Hospital, por ser filantrópico, sempre passou por altos e baixos. Existe uma situação, digamos assim, bem administrada e administrável. Você pode até perguntar: o Hospital tem dívidas? Claro que sim. Ele sempre terá dívidas, mas tem também receitas. Então, é preciso saber administrar. E, para isso, contamos uma boa equipe e isto nos deixa bastante confortáveis. Nós tivemos, no período que se encerrou, em 31 de dezembro de 2024, na apresentação do balanço, um superávit. Pela primeira vez, na história, o Hospital registrou um superávit. Mas estamos trabalhando dentro de uma situação econômica difícil e isto não é um cenário exclusivo de Itabira ou Minas Gerais. É um quadro de todo o Brasil e estamos inseridos neste contexto. Mas negociamos e nos viramos no sentido de procurarmos sempre fontes de receitas, porque tem que se administrar como uma empresa mesmo. O Hospital é filantrópico, mas tem que ser administrado como uma empresa. Então, é necessário trabalhar com orçamento. É preciso critério com a prestação de contas das compras. Até porque, a gente trabalha muito com recursos advindos de órgãos públicos.

DeFato: Qualquer pessoa, que assume uma responsabilidade como esta (a provedoria), gostaria de perenizar uma marca ou deixar algo para ser lembrado na posteridade. Esta situação faz parte do imaginário humano. O senhor tem algum projeto, algum objetivo neste aspecto?

Gerson Querubino: Fernando, o homem que não tem sonhos está morto, não é mesmo? Mas eu sou muito grato a Deus por ter chegado até aqui. Não há nada, no plano pessoal, que eu queira para mim. Eu só quero que o sucesso da organização seja sempre compartilhado com todos. A minha marca será aquilo que vou deixar quando partir. Eu gostaria de ser lembrado como alguém que tentou ser útil.

DeFato: Itabira tem o status de cidade- polo em saúde. É uma demanda que, aparentemente sobrecarrega. Se não fosse polo (da macrorregião), provavelmente a sociedade itabirana seria mais bem atendida…

Gerson Querubino: A macrorregião de Itabira conta com 500 mil habitantes. Na verdade, o PDR (Plano Diretor de Regionalização) de Minas Gerais afirma que nós (Itabira) somos macro complementar. Então, não somos macro, mas estamos acima de micro. Nós agregamos a região de João Monlevade e a microrregião de Guanhães. Estamos a um passo de nos transformarmos em macro, que é a classificação máxima. Então, tem que se atender à população de Itabira, mas há também os irmãos que não moram em Itabira. Não se pode pensar só na população itabirana. É preciso estar preparado para atender a todos, fazendo o melhor. Esta é a filosofia de um hospital filantrópico.

DeFato: E qual a importância de Itabira se tornar esta referência na Saúde?

Gerson Querubino: Quando Itabira se torna essa referência em saúde, o grande ganho que a gente tem é na alta complexidade, que é a hemodiálise, por exemplo, onde 50% dos pacientes são oriundos de Itabira. Este tratamento é feito três vezes por semana. Os pacientes de Guanhães, que vêm fazer aqui (a hemodiálise), para serem atendido às sete horas da manhã, saem de lá por volta das três horas da madrugada. Eles fazem esse deslocamento porque não são moradores de um município polo. Então, investe- se nessa parte (alta complexidade) e consegue-se trazer muito mais acesso e conforto também para a população de Itabira. Este é um aspecto importante na oncologia, já que estas pessoas de fora fazem quimioterapia aqui na nossa cidade. A radioterapia vai trazer o tratamento oncológico completo para Itabira.

DeFato: Então, a vocação de Itabira, na área de saúde, é se transformar numa macrorregional…

Gerson Querubino: Vai chegar. Está a caminho. À medida que se vão tendo condições de atender à demanda da alta complexidade, caminha-se a passos largos para ser macro. E temos esta meta como objetivo. Estamos falando, neste caso, do tratamento de doenças cardiovasculares e neurológicas. Então, dentro do nosso planejamento, está a expansão do Hospital e, como vocação, a alta complexidade. Queremos focar em oncologia, hemodiálise, UTI, cardiologia e neurologia.

DeFato: Mas este desenvolvimento, acaso, diminuiria a espera de vagas para determinados procedimentos cirúrgicos, por exemplo.? Esta situação tem provocado muito sofrimento e apreensão para os itabiranos…

Gerson Querubino: Estes são os casos de cirurgia cardíaca e neurocirurgia. Eu sempre falo que quando nós temos pacientes, que dependem do tratamento, desses procedimentos via SUS, eles entram numa lista de espera de uma vaga (para o procedimento cirúrgico). Então, a gente tem que levar o paciente para um centro (outro município) onde esses procedimentos podem ser feitos. E, nesta espera pela vaga, sofre a família, sofrem os atendentes e sofre a gerência do Hospital. A gente sente-se impotente. E, às vezes, a pessoa falece antes da vaga sair. Então, é uma grande preocupação para todos nós.

DeFato: É o que prevê o projeto de expansão do Hospital?

Gerson Querubino: O Hospital vai continuar crescendo. Nós tivemos a cessão de um terreno por parte do município (nas proximidades do Hospital). Ali, nós pretendemos fazer um megaprojeto para cuidar melhor das pessoas. Vamos construir uma área de estacionamento e uma casa de apoio para os pacientes de radioterapia. Também necessitamos mais leitos e UTI. Haverá ainda uma área excedente e traremos parceiros para participar do processo. Então, esse projeto praticamente significa a construção de um novo Hospital ou o Hospital do futuro.

DeFato: E quando, na prática, começará a implantação deste projeto?

Gerson Querubino: Ainda não temos uma previsão exata, mas já estamos começando a elaboração deste projeto junto com a Irmandade Nossa Senhora das Dores, que é a instituição mantenedora do Hospital.