Sem que ninguém pedisse sua opinião, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, foi às redes sociais, na segunda-feira (23), celebrar a chegada de Cuca ao Santos. Mais do que uma opinião controversa, o tweet, disponível abaixo, é uma prova concreta do pacto da masculinidade que marca o futebol brasileiro.
O retorno de Cuca ao Santos marca o reencontro com um profissional que construiu uma trajetória marcante no clube. Em sua quarta passagem como treinador do Peixe (2008, 2018 e 2020-2021) e também como atleta que defendeu a camisa alvinegra em 1993, sua volta nos enche de… https://t.co/QNWJeTR5NA
— Gilmar Mendes (@gilmarmendes) March 23, 2026
Neste pacto, atos e comentários machistas e homofóbicos são aceitos com extrema naturalidade. Em qualquer âmbito da sociedade, alguém comprovadamente envolvido em um caso de estupro seria tratado com críticas e repulsa. Mas no futebol é diferente, e Cuca é um exemplo disso.
Desde que o caso Berna ganhou o noticiário, o treinador não só foi blindado por boa parte da comunidade futebolística, como também segue sendo prestigiado. Nem os seus péssimos trabalhos recentes e a notória defasagem em relação a outros técnicos são capazes de mantê-lo desempregado. Ao invés de prejudicá-lo, o caso parece ter lhe dado ainda mais moral.
O mais triste é constatar que o mesmo esporte que é conivente com estupradores e agressores de mulheres fecha suas portas, por exemplo, para os homossexuais. Quantos jogadores tiveram a coragem de Richarlyson de se assumirem bissexuais em toda a história secular do futebol? E de se assumirem gays? Pouquíssimos.
Mas não devemos julgá-los. Aliás, eles sequer são obrigados a se expor publicamente sobre isso. Mas, no mundo ideal, essa escolha deveria ser feita de forma tranquila e espontânea, e não sufocada.
O que não acontecerá enquanto Gilmar Mendes, Cuca e o meio do futebol, como um todo, seguirem presos ao seu pacto masculino.
Sobre o colunista
Victor Eduardo é jornalista e escreve sobre esportes em DeFato Online.
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