Governo do estado veta exposição em Ouro Preto e reabilita secretário flagrado com maconha em Confins
Suspensão da mostra “Habeas Corpus” marca os últimos dias de Bárbara Bottega, que deixa o cargo para disputar eleição; retorno de Leônidas reacende debates sobre autonomia cultural e sua situação na PF
A poucos dias de deixar o cargo para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados, a secretária de Estado de Cultura, Bárbara Bottega , suspendeu a abertura da exposição “Habeas Corpus”, que discutia nudez masculina, corpo político e repressão no contexto da ditadura militar. A decisão, tomada na véspera da inauguração, reacende debates sobre limites institucionais, censura e interferências na agenda cultural mineira.

Mostra sobre corpo, silêncio e ditadura é interrompida na véspera
A exposição seria aberta na última sexta-feira (27), na Galeria Nello Nuno, da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP). O artista Élcio Miazaki, responsável pela mostra, revelou surpresa:
“Minha produção, que muitas vezes aborda os silêncios, teve um processo de silenciamento”, escreveu nas redes.
A Secult informou que a suspensão ocorreu devido à classificação indicativa de 14 anos, avaliada como inadequada por conter nudez frontal, e que seria necessário “tempo para análise dos critérios legais”.
Em documento encaminhado à FAOP, Bárbara afirmou:
“Mesmo reconhecendo o valor artístico, conceitual e cultural da exposição, entende-se necessária a suspensão temporária para avaliação dos critérios legais vinculados à administração pública.”
FAOP rebate e defende caráter artístico da nudez
O então presidente da FAOP, Wirley Rodrigues Reis, que também deixou o cargo nesta semana, contestou publicamente a decisão.
Ele afirmou que a exposição passou por todos os trâmites formais, dentro das instâncias técnicas da fundação, e esclareceu:
“A exposição não apresenta atos sexuais. A nudez é linguagem artística, elaboração simbólica e campo de reflexão estética. Confundir isso com sexualidade explícita é equivocado.”
Wirley destacou que a mostra tratava de vulnerabilidade, masculinidade, repressão e violência simbólica, e que estava sinalizada e classificada adequadamente, sem afronta à legalidade.
Mudança de comando: Leônidas Oliveira reassume a Secult em meio a reestruturação do governo
A suspensão ocorre simultaneamente à saída de Bárbara Bottega, que será candidata a deputada federal em outubro. Para seu lugar, o governador Mateus Simões (PSD) convidou Leônidas Oliveira, que reassume a Secretaria de Cultura e Turismo nesta segunda-feira (30).

Por que Leônidas volta?
Os bastidores apontam três razões principais:
1. Confiabilidade política:
Simões e Leônidas mantêm relação direta desde o início da gestão Zema. Ele retorna como nome de confiança para atravessar a transição administrativa.
2. Capacidade técnica reconhecida:
Leônidas é arquiteto, mestre e doutor em patrimônio, com passagem por Belotur, Fundação Municipal de Cultura, Embratur e Funarte.
Seu perfil técnico é visto como antídoto para a instabilidade provocada pelas últimas trocas na Secult.
3. Revisão imediata da política cultural:
O governo quer acelerar a reformulação da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, uma vez que o ICMS, base do mecanismo, deve desaparecer com a Reforma Tributária.
Polêmica com a PF: como fica sua situação após ser flagrado com maconha no aeroporto?
O que aconteceu?
- A apreensão ocorreu em 13 de setembro, durante fiscalização de rotina.
- Um dia depois, ele pediu exoneração.
- O caso foi encaminhado ao Ministério Público e depois à Justiça.
Situação jurídica
Leônidas alegou uso medicinal da cannabis, com receita médica.
Fontes do governo afirmam que o processo corre em instância de menor potencial ofensivo, já que posse de pequena quantidade de droga para consumo não configura crime com pena privativa de liberdade no Brasil.
Ou seja: o episódio não impede legalmente que ele reassuma a pasta, e o governo considera o caso “superado administrativamente”.
Por que ele voltou apesar do desgaste?
Interlocutores relatam que:
- ele mantém bom trânsito técnico com o setor cultural;
- Simões queria um nome de experiência e confiança pessoal;
- e havia necessidade de reorganizar uma Secult fragilizada após sucessivas mudanças.
Assim, a polêmica não pesou o suficiente para afastá-lo politicamente.
E a exposição? Pode voltar?
Com a entrada de Leônidas, a expectativa é de revisão da suspensão.
Assessores do novo secretário afirmam reservadamente que ele pretende reavaliar decisões sensíveis, incluindo a mostra Habeas Corpus.
Artistas e servidores da área cultural acreditam que a retomada pode ocorrer após nova análise, justamente porque Leônidas costuma defender instituições culturais autônomas.





