Guardiões da fonte

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) constatam que 35% da população mundial, ou 1,2 bilhão de pessoas, não têm acesso a água potável

Guardiões da fonte
O desabastecimento de água não é problema local nem regional. É planetário. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) constatam que 35% da população mundial, ou 1,2 bilhão de pessoas, não têm acesso a água potável. Considerando os serviços básicos de saneamento, o percentual é ainda mais assustador: 43%. Nas regiões mais pobres a situação é pior, mas ninguém está imune.
 
No Brasil, São Paulo é um exemplo. O estado mais rico do país tem sofrido com as constantes baixas no Sistema Cantareira e não há, a menos que chova bastante nos próximos meses, uma solução que tranquilize a população. A culpa, segundo especialistas, não é só da estiagem. O uso degradante do solo, o desmatamento, o gasto excessivo e as raras iniciativas de produção e reúso da água contribuem para um desequilíbrio entre a oferta e a demanda.
 
A Agência Nacional de Água (ANA) tem expandido, na medida do possível, o programa Produtor de Água, em parceria com comitês de bacias hidrográficas, prefeituras e outras instituições, tendo o produtor rural como peça-chave. Se iniciativas voluntárias demandam um certo nível de amadurecimento e conscientização dos usuários, a ANA adotou uma prática custosa, mas eficiente: o pagamento por serviços ambientais voltados à proteção hídrica no Brasil.
 
A ideia é estimular os donos de terreno a manter intocadas áreas de recarga – onde a água da chuva infiltra no solo e abastece os lençóis freáticos –, de descarga (nascentes), matas ciliares, além de recompor a vegetação em locais onde não deveriam ter sido desmatados. Tais práticas ajudam o fluxo das nascentes a correr regularmente, em boa quantidade, durante todo o ano.
 
Alguns municípios mineiros aderiram ao projeto, como Extrema, no Sul de Minas, e Itabira, que assinou o termo de parceria em abril deste ano. No caso itabirano, o programa vai abranger produtores da microbacia do ribeirão Candidópolis, principal afluente da barragem da Pureza, que abastece mais da metade do município. Serão remunerados donos de terra que desenvolverem ações relacionadas ao uso e conservação do solo.
 
“Vamos investir, principalmente, na interlocução com o produtor rural. É um projeto que tem muito respaldo. Não é um programa barato, mas vamos buscar parcerias com prefeituras permanentemente”, diz Iusifith Felipe, presidente doComitê de Bacia Hidrográfica (CBH) Piracicaba, articulador do programa em Itabira. São parceiros também os CBHs Santo Antônio e Doce e Instituto BioAtlântica/Agência de Água da Bacia do Rio Doce.
 
Antes de o órgão federal, em parceria com os comitês de bacias, colocar em prática o Produtor de Água no ribeirão Candidópolis, a Prefeitura de Itabira havia criado também um programa parecido, o Preservar para Não Secar. O decreto foi publicado em março deste ano. A lógica é bem parecida com a iniciativa da ANA: pagar os agricultores familiares e produtores inscritos no projeto pelas ações conservacionistas durante cinco anos consecutivos.
 
Segundo o prefeito Damon Lázaro de Sena, uma equipe de Itabira visitou Extrema para aprender com os acertos de lá e “copiar” os bons exemplos. A cidade do Sul de Minas desenvolve um programa chamado Conservador de Águas, desde 2005, e já ganhou inclusive prêmio da ONU. “Implantamos a Lei do Ecocrédito e, neste ano, colocamos no orçamento R$ 500 mil para conscientizar e incentivar os produtores rurais a preservarem suas nascentes e matas para que tenhamos volume de água adequado para a população usufruir no futuro”, afirma o prefeito.
 
Na região do Médio Piracicaba, São Gonçalo do Rio Abaixo, cidade vizinha, foi pioneira em criar um programa que tem na remuneração pela preservação o principal incentivo. Lançado em 2011, o Cercar para não Secar (nome muito parecido com o Preservar para não Secar, de Itabira) contava, até o final do ano passado, 170 donos de terra cadastrados e 642 nascentes protegidas. O recurso usado no pagamento vem do ICMS Ecológico e do Fundo de Gestão Ambiental. O programa também rendeu vários prêmios aos gestores de São Gonçalo do Rio Abaixo, alguns reconhecidos internacionalmente.
 
Água 4.0
Além de aumentar a disponibilidade nos mananciais, as cidades de médio/grande porte também precisam investir nas redes de abastecimento e tratamento de esgoto. É o que disse, em entrevista à revista Exame, o professor da Universidade da Califórnia, David Sedlak, uma das maiores autoridades no assunto. “Estamos chegando ao ponto em que, ou briga-se pela água disponível, ou encontram-se novas fontes. É aí que entra a virada que chamo de água 4.0, que utiliza principalmente reúso de esgoto e dessalinização da água do mar para atacar o problema”, disse ele. 
 
David explica que os sistemas urbanos de fornecimento de água começaram a se desenvolver há 2 mil anos, na Roma antiga, que ele chama de água 1.0. A evolução para a água 2.0 ocorreu no fim do século 19, quando as metrópoles modernas começaram a filtrar os recursos hídricos para o consumo humano. A 3.0 consiste em tratar o esgoto, mas não reusar a água resultante do tratamento. “Agora, ou adotamos a água 4.0 ou sofreremos com a escassez”, ressalta.
 
O reúso da água de esgoto, que custa metade do custo da dessalinização, ainda encontra resistência, mas é considerada segura pelos cientistas e engenheiros da área da saúde. Em um de seus livros, o americano dá o exemplo de Houston, no Texas, onde um dos reservatórios recebe metade da água de uma estação de tratamento de esgoto convencional de Dallas. “Isso não gera nenhum problema para a população”, certifica.
 
Com as cidades crescendo em ritmo frenético – em São Paulo, por exemplo, a demanda supera a oferta em 4%, e nos próximos dez anos essa diferença será de 16% – não haverá outra saída. Programas de produção de água, reúso e reaproveitamento serão prioridades dos governos e exigirão confluência de esforços e investimentos vultosos. O segredo é saber reusar.