Há 34 anos, o presidente Fernando Collor de Mello fez visita relâmpago a Itabira
A viagem foi marcada, remarcada e desmarcada durante quatro meses

Um ano depois, o presidente seria deposto por meio de um impeachment, ferramenta constitucional política e jurídica, até então inédita. Nas eleições de 1989- a primeira depois da redemocratização do país- o ex-governador de Alagoas teve um desempenho surpreendente e avassalador nas urnas. A disputa se destacou pela utilização do marketing profissional. Não foi uma campanha amadora. Os programas eleitorais gratuitos- nas emissoras de rádio e televisão- impressionavam por uma sucessão de efeitos especiais.
Collor se candidatou pelo nanico Partido da Reconstrução Nacional (PTN). A narrativa de “Caçador de Marajás” encantou a maioria do eleitorado. O discurso, conforme se comprovou posteriormente, foi muito eficiente. Um total de 22 políticos concorreu à presidência da República. Collor venceu o primeiro turno com 20,6 milhões de votos, ou 28% do eleitorado. Em segundo lugar, despontou Luiz Inácio da Silva (o apelido Lula ainda não estava incorporado ao nome). O petista conquistou 11, 6 milhões de votantes, 16% do total. No segundo turno, Collor foi escolhido por 35.089.98 pessoas (53% dos votos válidos).
Com este triunfo, o alagoano se tornaria o mais jovem presidente da história. Ele assumiu o cargo com 40 anos de idade. Alcançou o poder com pose de “pop star” e subiu as rampas do Palácio do Planalto montado em consistente apoio popular. O desencanto, porém, começou bem no início da gestão. O irreversível desgaste foi provocado pelo confisco da poupança, uma medida drástica para radical combate ao persistente processo inflacionário. José Sarney, o antecessor, deixou de herança uma inflação de 84, 23% ao ano.
Neste contexto- já com a imagem bastante avariada- o presidente Fernando Collor de Mello desembarcou em Itabira. A súbita aparição foi como um relâmpago nas montanhas. E com razão. Um clima de tempestade já dominava o cenário de Brasília. Nuvens negras encobriam o céu da capital federal. O passeio do chefe do Executivo se transformaria num folhetim. A viagem foi marcada, remarcada e desmarcada durante quatro meses. Finalmente, no dia 13 de agosto de 1991, o cerimonial do Governo confirmou a visita para o dia 16 daquele mês, uma sexta-feira.
Depois de mais de duas décadas, um chefe do Executivo nacional retornaria à terra de Carlos Drummond de Andrade. O último a pôr os pés no município foi o general Emílio Garrastazu Médici, em 1971. Na oportunidade, o militar gaúcho inaugurou a usina de concentração do Cauê e fez a abertura de uma Exposição Agropecuária, na Praça do Areão, onde hoje funciona a Funcesi.
O giro de Collor pela região iniciou em João Monlevade. Na cidade vizinha, ele inaugurou a “moderníssima” Laminação TL-2 da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, atual ArcelorMittal. O helicóptero oficial aterrissou no Parque do Itabiruçu por volta das 13 horas. A autoridade máxima do Brasil foi recebida pelo prefeito Luiz Menezes e Cácio Duarte Guerra, presidente da Câmara de Vereadores. Também se encontravam no local o governador Hélio Garcia, alguns deputados e a cúpula da velha Cia Vale do Rio Doce (CVRD). Todos de paletó. Menos Fernando Collor, que trajava vistosa blusa de lã rosa. Foi previdente. Ventava muito na área, apesar do calor.
Collor chegou mudo e saiu calado. Não fez pronunciamento oficial. Caminhou apressadamente e atropelou literalmente a imprensa nacional que cobria a agenda. Um detalhe, no entanto, não passou despercebido aos jornalistas. Fernando não usava aliança no dedo anelar da mão esquerda. Boatos davam conta de que o casamento com a primeira-dama Rosane Malta passava por séria crise. Agora, noves fora fofocas de bastidores, o Caçador de Marajás veio a Itabira por motivo “ituano”. Ele plantou uma árvore e fez o lançamento do projeto ”Verde Novo”, uma parceria da Prefeitura com a CVRD. A estratégia ambiental previa o plantio de um milhão e quinhentas mil mudas de árvores em todo o espaço urbano. Essa inacreditável quantidade significaria 100 mil mudas por habitantes. A megalomania inspirou José de Almeida Sana, cronista do jornal “Hora H”. O texto opinativo foi publicado com sugestivo título: “É Proibido Caçar”. O semanário também ironizou e garantiu que Itabira se transformaria numa imensa floresta.
O líder da chamada “República das Alagoas” permaneceu “entre nós” por menos de meia hora. A sua última ação foi a visita a um stand com fotografias da fauna e flora do suposto Parque do Itabiruçu. O homem realmente estava com muita pressa. Levou um minuto, no máximo, para percorrer toda a mostra. Logo depois, retornou a Belo Horizonte. Sequer teve a curiosidade de sobrevoar a terra do Poeta Maior. A meteórica passagem de Collor por estas bandas decepcionou um segmento da comunidade. Sindicatos e o Partido dos Trabalhadores (PT) prepararam “apoteótica” recepção para o “Caçador de Marajás”. Em vão. No final das contas, Fernando Collor repetiu Júlio César- depois de vencer a Batalha de Zela: vim, vi e dei no pé sorrateiramente.




