
Reportagem veiculada na edição 266 da Revista DeFato
O ano era 1977. Antônio de Assis Martins Quintão, hoje com 62 anos, depois de trabalhar um tempo na Ericsson do Brasil pelo país afora voltou a Itabira para abrir seu primeiro negócio. Ele tinha formado um ano antes em técnico em eletrônica, na época, uma das profissões mais promissoras. As TVs eram a válvulas, imagens em preto e branco, duravam décadas. Caso algum defeito aparecesse, um ligeiro conserto garantia mais uns bons anos de vida útil ao aparelho.
Toninho da Eletroita, como é conhecido, percebeu que o mercado era bom. Inaugurou a oficina e logo se tornou conhecido e respeitado em Itabira. Consertava (e ainda conserta) tudo: TVs, rádio, aparelho de som, videocassete e qualquer outro tipo de equipamento eletrônico. “Trabalhei com a primeira TV a válvula da Philco. Depois a primeira que a Philips lançou no Brasil. Consertei em garantia. Sabe aquelas vitrolas da Philips que as caixinhas separavam? Consertei muitas”, relembra.
Em 1977 não existia em Itabira, por exemplo, emissora de rádio. Toninho conta que emprestou alguns de seus equipamentos de testes para Luiz Menezes inaugurar a rádio Itabira AM, a primeira da cidade. “A Anatel (Dantel na época) exigia osciloscópio e outros aparelhos para a rádio funcionar. Emprestei os aparelhos que eu tinha na oficina”, lembra.
O tempo passou, a tecnologia evoluiu, mas Toinho continua firme. Sua oficina, em um casarão na rua Tiradentes, é praticamente um museu da eletrônica. Tem equipamento de todas as idades, modelos e marcas. Rádio da Philips de 120 anos funcionando; telefone de disco de 1977; vitrola com caixas de som separáveis; o primeiro computador comercial que nem tinha tela; câmeras fotográficas analógicas com 50 anos ou mais; e por aí vai. São dois andares de velharias.
Como ele acumulou tudo isso? Clientes que levam os equipamentos para orçamento e nunca mais voltam. Ou levam na intenção de consertar, mas desistem e pedem ao dono da oficina para descartar o produto. Para se livrar de tanto eletrônico, o empresário montou uma lojinha só de rádios, vídeos, TVs, vitrolas e outros itens fora de linha. “Às vezes a pessoa tem um carro antigo e quer compor; tenho um rádio aqui que se encaixa. As pessoas estão usando muito essas peças também para decorar casa; tenho várias aqui”, afirma.
Quem recorre com frequência ao museu do Toninho em busca de motores, placas de circuito e outras peças são os alunos do Senai e da Unifei. Geralmente são equipamentos que não existem mais no mercado, mas continuam sendo úteis aos estudantes. “Vendo a preço simbólico”, revela.
Hoje em dia quase ninguém conserta mais aparelhos eletrônicos. Estragou, compra outro. As próprias empresas preferem trocar a dar assistência a um produto na garantia. “Uma TV de LCD, por exemplo, se queimar a fonte, custa R$ 580 para consertar. A televisão custa R$700. Então não compensa”, explica o técnico. Mesmo assim ele continua firme com sua loja e oficina e não pensa em parar por enquanto. Apesar da evolução, ainda há uma procura significativa que justifica a loja aberta. Resultado de anos e anos de trabalho prestado que lhe garantem boa reputação.
Foto revelada
Os jovens/adolescentes nascidos na era das selfies, smartphones e Facebook provavelmente não se lembram, mas houve um tempo em que fazer foto era um acontecimento raro, especial. Não tinha essa de clicar e ver o resultado na hora. Era preciso esperar pacientemente a revelação para só depois apreciar o resultado.
O fotógrafo Bruno Guimarães começou sua carreira nessa época, com 19 anos. Ele conta que escolhia o filme, PB ou cor, depois a ASA (ISO), e os processos cruzados resultavam em cores extraordinárias. Fotografava em ritmo mais lento (36 chapas ou frames, ou fotos). “Não tinha o imediatismo do digital e cada revelação era uma divertida descoberta que só quem fotografou ou fotografa com filme sabe”, conta.
A tecnologia digital, na visão dele, é ótima para quem quer aprender fotografia. A resposta é rápida e o custo é baixo para experimentar infinitamente. “Mas para ir além e aprender os verdadeiros truques e conhecimentos que fazem de alguém um ótimo fotógrafo, o filme é muito mais interessante. Você é obrigado a parar e realmente pensar no que está fazendo. É preciso planejar mais cada foto, pois, além de ter um número bem limitado de poses, não tem como simplesmente olhar o LCD e ver se ficou certinho”, explica.
Segundo o site “Dicas de Fotografia”, comparando as melhores full frames do mercado com filmes de 35m, o filme vence na qualidade final. Sem falar nas de médio e grande formatos. Mesmo em desuso, ainda há muitas pessoas que revelam seus negativos. Dados do Centro Fotográfico informam que foram mais de 1000 filmes revelados somente em dezembro de 2014.
Bruno Guimarães faz parte desse time. No momento, ele só se diverte e busca mais aprendizado com o filme, mas anda pensando em algumas “diversões” profissionais também. “Enviei algumas câmeras e lentes para dar uma mega limpeza e estou pensando em fazer algumas imagens, primeiramente nos ensaios e posteriormente em alguns casamentos. Já fiz vários casamentos com filmes, mas o ritmo do filme não é o mesmo! Outro dia foi engraçado, pois fotografei com o filme e o olhar está tão condicionado ao digital que ao terminar de fazer a foto fui olhar no visor. Ri alto neste dia”, conta.
VHS
A fotografia e os equipamentos eletrônicos ainda resistem ao tempo e à evolução tecnológica. Pena que o mesmo não acontece com as fitas de videocassete. Sucumbiram aos DVDs, às TVs por assinatura e à internet. Em Itabira, há uns 20 anos, muitas locadoras de filmes faturavam alto garantindo diversão para toda a família, principalmente nos fins de semana. O repórter/radialista Heitor Bragança foi dono de uma delas no bairro Bela Vista e lembra com saudade dessa época.
“Os filmes eram uma das poucas diversões que o trabalhador e os seus filhos tinham na cidade. Todos os finais de semana éramos visitados por famílias inteiras. A mãe procurava um romance; os filhos, desenhos; o pai, uma coisa mais ‘picante’. As famílias tinham conta com a gente. Pagavam no fim do mês”, lembra. Quando chegava filme novo, formava fila. “Tinha aparelho de videocassete que saía até fumaça”, conta o radialista.
Certa vez, um senhor de Itambé do Mato Dentro chegou à locadora querendo ver o filme do “chapeludo americano que matava todo mundo”. Era o Chuck Norris. Foi um custo conseguir uma vaga para o filme disputado. Quando, enfim, apareceu uma brecha, o homem fez a ficha, pagou, e em seguida disse que não tinha TV, videocassete e nem luz elétrica em casa. Morava na roça. “Uma tristeza tomou conta de todos ali no balcão, pois o senhor já tinha ido várias vezes à loja. Então olhei a TV e o vídeo, peguei um banquinho no fundo da loja e pronto. Coloquei o filme para passar, ali mesmo. O homem sentou e assistiu Chuck Norris quatro vezes seguidas no sábado e duas vezes no domingo. Na segunda voltou com um amigo do Bar 100 Nome para ver de novo”, narra, aos risos.
Heitor conta que por volta do ano 2002 o DVD já havia surgido, mas ainda era raridade em terras itabiranas. Mas quando chegou, chegou com tudo. Em dezembro daquele ano ele tinha alugado 400 fitas de vídeo. Em janeiro do ano seguinte, quase nenhuma. Todos queriam o tal do DVD. A locadora então substituiu os filmes em VHS e ninguém mais alugou fitas. “Acabou assim, de um mês para o outro. Incrível. Nem vendendo barato as fitas saíam mais. Doamos algumas e o resto se perdeu. Depois de um tempo com os DVDs, chegou a SKY e em dezembro de 2012 já não se alugava quase nada. De 700 filmes no final de semana, foi a 25, 30. Aí cheguei à conclusão de que o negócio havia terminado”, conta.
Hoje Heitor se dedica à comunicação. Ainda existem uns 3 mil DVDs e fitas em seu porão como prova de uma época divertida e memorável. Mesmo sem a locadora, ele mantém, como prova de resistência, um estúdio em sua casa para converter fitas de vídeo em DVD. De vez em quando aparece um cliente com uma fita K7 de formatura, casamento ou aniversário. E só. Não é uma atividade que garante faturamento como na época das locações. Mas ainda sobrevive.