Itabira à espera das decisões da Vale
Vista parcial da mina do Cauê, cuja unidade de beneficiamento foi paralisada na semana passada
Itabira, berço da Vale, atravessa momento de apreensão, desencadeado pela queda de produção, paralisação da usina de beneficiamento na mina do Cauê e anúncio de demissões e férias coletivas. Na cidade de 105 mil habitantes, cerca de 3 mil pessoas trabalham na Vale e outras 5 mil para empresas que prestam serviços à companhia, segundo levantamento da prefeitura municipal. Proporcionalmente, o contingente afetado pode ser pequeno – mas o efeito psicológico das demissões, segundo autoridades locais, gera pessimismo da mina ao comércio.
Na fila das homologações no Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Extração do Ferro e Metais Básicos (Metabase) de Itabira e região, os funcionários discutiam a crise econômica mundial, que imaginavam estar longe de atingi-los. “Eu tenho dois anos de Vale e meu marido, 19. Nós dois fomos demitidos no início do mês. Ainda tenho a esperança de que ele seja remanejado. Neste momento, seria bom. Ao mesmo tempo, não imagino recomeçar minha vida do zero em outro lugar”, afirmou uma ex-funcionária da Vale que pediu para não ser identificada. Mãe de dois filhos, disse que o Natal será o contrário do planejado. “Férias e compras foram suspensas”, lamentou.
A instabilidade no emprego afetou a confiança do consumidor. Foi o que percebeu o gerente da Rede Minas Móveis e Eletrodomésticos, Maurício Tomaz Santos. “As pessoas entram na loja, fazem orçamentos, mas não querem se comprometer com financiamento. Eles falam que vão esperar 2009. Estamos perdendo vendas”, afirmou.
O presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Itabira, Maurício Henrique Martins, prevê retração de até 10% nas vendas deste Natal diante da expectativa inicial de crescimento de 5%. “Mais de 70% do movimento do comércio da cidade depende dos funcionários da Vale e dos terceirizados. Isso gera um efeito dominó”, ressaltou. Segundo ele, os comerciantes associados – cerca de 700 – não querem investir em estoque e a maior parte deles largou de lado os planos para o ano que vem.
Para driblar a queda do movimento, o gerente do Supermercado e Granja Bela Vista, Carlos Alberto Totô, apelou para liquidações. “Estamos fazendo uma oferta atrás da outra para atrair e fidelizar a clientela. Diante da tensão, as pessoas estão economizando ao máximo. Ninguém sabe o que vai acontecer quinta-feira. Itabira depende muito da situação da Vale”, destacou.
O prefeito da cidade, João Izael Querino Coelho (PR), frisou que tem mantido conversas com a direção da mineradora, que garantiu a manutenção do atual quadro de funcionário até ao menos 15 de janeiro. O conglomerado informou, por meio da assessoria de comunicação, que não há previsão de anúncio para ampliação do prazo de férias coletivas e nem de novas demissões. A companhia salientou ainda que os investimentos previstos para 2009, de US$ 14,9 bilhões para todo o país, estão mantidos.
Mesmo assim, Querino Coelho demonstra preocupação. Segundo ele, com a redução de 50% na produção de minério de ferro no município, a arrecadação da Contribuição Financeira sobre Exploração Mineral (CFEM) cairá de R$ 4 milhões para R$ 2 milhões. “Teremos de rever projetos e a proposta orçamentária para que obras não sejam comprometidas. O que mais temo é o efeito psicológico, porque a cidade tem uma identidade muito forte com a Vale. O pensamento aqui é que, se ela não vai bem, a cidade também não”, observou.
A Vale fechou o terceiro trimestre do ano com 62 mil postos de trabalho no mundo, 47 mil no Brasil e 22 mil em Minas Gerais. Na terça-feira da semana passada, a companhia informou ter dispensado 1,3 mil no país, dos quais 20% desse contingente (260 pessoas) teriam sido demitidos em Minas. Em férias coletivas, são cerca de 5,5 mil trabalhadores, 80% (4,4 mil) no estado. No complexo do Cauê, cerca de 400 trabalhadores estão em férias e outros 2 mil foram transferidos para a mina de Conceição, na mesma área ocupada pela Vale. A produção da unidade teria sido reduzida à metade – de 120 mil toneladas para 60 mil toneladas.