Itabira: Codema pede mais tempo para analisar projeto que pretende reaproveitar rejeitos da Vale

Os conselheiros reconheceram a importância da proposta, mas ponderam que ainda possuem dúvidas que precisam ser melhor analisadas antes de qualquer posicionamento

Itabira: Codema pede mais tempo para analisar projeto que pretende reaproveitar rejeitos da Vale
Foto: Guilherme Guerra/DeFato

Membros do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema) pediram mais tempo para analisar o pedido de anuência e de Certidão de Uso e Ocupação do Solo, apresentado pela mineradora Vale e que pretende reaproveitar rejeitos e bens minerais metálicos que estão dispostos em barragens, diques, cavas e outras estruturas do Complexo Minerário de Itabira. A proposta foi apresentada nesta quinta-feira (12) e sofreu pedido de vistas por parte de Patricia Freitas, conselheira e presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Subseção Itabira, e por André Viana, conselheiro do Codema e presidente do Sindicato Metabase.

O projeto tem como foco o reaproveitamento de rejeitos e estéreis já depositados nos diques Minervino e Cordão Nova Vista, barragem de Conceição, barragem e paliçadas do Rio do Peixe, além das cavas Onça e Periquito. De acordo com a Vale, a iniciativa prevê o reaproveitamento de até 5 milhões de toneladas por ano de bens minerais metálicos, a recuperação de cerca de 5,8 milhões de metros cúbicos por ano de material atualmente disposto em barragens e o beneficiamento do material nas usinas já existentes no complexo minerário.

Os conselheiros reconheceram a importância da proposta, mas ponderam que ainda possuem dúvidas que precisam ser melhor analisadas antes de qualquer posicionamento.

“Eu entendo a indiscutível importância do projeto, mas estudando fiquei com algumas dúvidas e quero analisar melhor até para ter uma consciência tranquila para votar favorável ou contra ao que vem sendo solicitado”, declarou Patrícia Freitas.

A advogada também mencionou preocupações relacionadas a moradores que vêm sendo removidos próximo ao Sistema Pontal e à postura da empresa em determinadas situações envolvendo a comunidade.

Após a fala da presidente da OAB, André Viana afirmou que o projeto é “vital para a sobrevida de Itabira”, mas exige contrapontos e ajustes necessários para uma análise mais aprofundada. Ele sugeriu, ainda, que também fosse avaliada a convocação de uma reunião extraordinária para discutir o tema com mais tempo. Durante as manifestações, outros conselheiros também questionaram sobre possíveis impactos socioambientais e pediram que o tema fosse apresentado de forma mais acessível à população, com a realização de reunião pública – a exemplo do que ocorreu durante o pedido para ampliação das cavas da Vale, em 2025.

No entanto, Elaine Mendes, presidente do Codema, negou a possibilidade e afirmou que, por se tratar de anuência, e não de licenciamento ambiental, não há previsão legal para audiência pública nesse estágio do processo. O licenciamento, caso autorizado, será conduzido pelo órgão estadual.

Com os pedidos de vista formalizados, Patrícia Freitas e André Viana terão sete dias para apresentar relatório ao conselho. Após essa etapa, caberá à presidência avaliar eventual convocação de reunião extraordinária antes da retomada da votação.

Saiba mais 

Segundo a Vale, o objetivo é reduzir o volume de rejeitos armazenados, contribuir para a descaracterização de estruturas alteadas a montante, aplicar o conceito de mineração circular e otimizar o uso de áreas já licenciadas, sem abertura de novas frentes de lavra. De acordo com o relatório técnico da mineradora, as operações estão previstas para iniciar a partir de 2026, após o licenciamento ambiental, com prazos distintos conforme cada estrutura:

  • Diques Minervino e Cordão Nova Vista: até dezembro de 2032;
  • Barragem de Conceição: até 2036;
  • Cavas do Onça e Periquito: entre 2026 e 2027;
  • Barragem e Paliçadas do Rio do Peixe: até março de 2034.

O projeto prevê a mobilização de 443 trabalhadores, sendo: 331 na área operacional e 112 nas áreas administrativa e de apoio. O regime será contínuo, em dois turnos de 12 horas, com monitoramento ambiental permanente, segundo a empresa. 

Diques Minervino e Cordão Nova Vista

Nessas estruturas, a Vale prevê o reaproveitamento de cerca de 16,8 milhões de toneladas de rejeitos, com teor médio aproximado de 37% de ferro. A produção seguiria uma curva crescente, com pico entre 2028 e 2031. O material seria escavado mecanicamente durante o processo de descaracterização, transportado para pilhas intermediárias e beneficiado nas Usinas Conceição e Cauê. O rejeito que não atender aos critérios técnicos seria destinado a outras estruturas já licenciadas no complexo.

No pico da operação, entre 2028 e 2031, a Vale estima a movimentação anual de 2,5 milhões de toneladas e cerca de 413 viagens de caminhão por dia – o equivalente a 46 viagens por hora, ou um caminhão a cada 1,3 minuto.

O transporte externo está previsto para ocorrer pelo acesso da Portaria do Centro de Educação Ambiental (CEA), com ligação direta à MG-462, evitando o tráfego pesado em bairros residenciais. Nos períodos iniciais (2027) e finais (2032), o fluxo cairia para cerca de 82 viagens diárias.

Barragem de Conceição, cavas do Onça e Periquito e Rio do Peixe

Na Barragem de Conceição, o reaproveitamento será feito por dragagem hidráulica, com bombeamento direto do material para a usina, sem uso de caminhões. A expectativa é recuperar cerca de 7 milhões de metros cúbicos de rejeitos, em duas fases:

  • 2026 a 2027: produção média de 313 mil m³/ano;
  • 2027 a 2036: produção média de 360 mil m³/ano.

Nas cavas do Onça e Periquito, o foco é a retirada de cerca de 8 milhões de metros cúbicos de rejeitos, permitindo a retomada da lavra mineral nessas áreas. A atividade pode gerar entre 350 e 400 viagens diárias, restritas às vias internas da mina.

Já na Barragem e Paliçadas do Rio do Peixe, a dragagem será feita exclusivamente por via hidráulica, com envio do material por tubulações até as usinas, sem transporte rodoviário. A Vale afirma que o impacto no tráfego será nulo ou desprezível, em uma operação de longo prazo, estimada em oito anos.

Impactos ambientais e medidas de controle

O Relatório Ambiental Simplificado (RAS) aponta impactos associados principalmente à: emissão de poeira, geração de ruídos, vibração sísmica e tráfego de veículos e equipamentos. Como medidas de controle, a SEMAPA destaca a adoção de programas já existentes no complexo, como:

  • monitoramento da qualidade do ar, com aspersão de água e controle de velocidade;
  • monitoramento de ruídos, conforme normas da ABNT;
  • monitoramento de vibração sísmica;
  • manutenção preventiva de máquinas e equipamentos.