Itabira não teria nem um “mucadinho” de terras raras?

A jazida de ferro de Itabira foi eterna enquanto durou, tudo virou pó em apenas oito décadas

Itabira não teria nem um “mucadinho” de terras raras?
Basta apenas um tantinho de terras raras-Foto: Gil Leonardi/Agência Minas
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É dia de contextualizar Carlos Drummond de Andrade. O retrato na parede é Itabira do Mato Dentro. Tempos depois, “o homem atrás dos óculos e do bigode” concluiria, após se mudar definitivamente para outras paragens: “tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”. Baguncei os versos e detonei a estrofe.  A ação deletéria foi proposital.  Descem-se rapidamente as cortinas. O cenário é outro.  Neste capítulo da existência, a imagem da parede declama a sua comovente realidade. “Tive ouro, tive ferro. Hoje sou refém da exaustão das minas. Mas como preocupa!”.

E agora, José?   A natureza é extremamente generosa com a terra do Poeta Maior. Sempre foi.  A localidade-  assim como os principais municípios setecentistas das Minas Gerais- vivenciou a gloriosa era da exploração aurífera. Este período teve efêmera duração. A vida passou. No início da década de 1940, descobriu-se colossal jazida de recurso mineral diverso. Um achado e tanto no “sacrossanto” subsolo daqui. Foi acontecimento surrealista. Observem a dimensão da “loucura”. Pintaram na paisagem, como por acaso, “1,5 bilhões de toneladas de minério capaz de abastecer quinhentos mundos, durante quinhentos séculos”. Assim previu o visconde do Serro Frio.

No fundo da cava, monumental fantasia. Tudo não passou de leitura equivocada de utópicos sonhadores.  Com efeito. A “incomensurável” reserva de hematita virou literalmente pó em oito décadas. A prodigiosa riqueza, portanto, foi “eterna enquanto durou”. Roubei a fatídica inspiração de Vinícius de Moraes- outro astro do modernismo- para arrematar a história.   Resultado do previsível imprevisto. A atual sociedade itabirana troca figurinhas com o fantasma do final das minas.

O que falar ou fazer nestas circunstâncias? Há alguma esperança de protagonismo no advento das misteriosas terras raras, por exemplo? Sei lá.  Não sou geólogo. Então, resta suplicar para que o “criador” de todas as coisas- com sua perturbadora onisciência- dê mais uma colher de chá para esta brava gente.  O passado (e presente) explica a causa desta exagerada esperança. A “cidadezinha qualquer” já deu ouro, já deu ferro. Ainda dá esmeralda em profusão. Nesta sequência, de sonhos e encantamentos, não haveria buracos com minérios críticos? Não afloraria, em determinado ponto da pólis, um tiquinho desta nova estrela da economia global?  Vou rogar à “entidade superior”, caso ela haja, uma ocorrência (ainda que fugaz) de terras raras nas vastas terras itabiranas. Mesmo porque, como  diziam nossos ancestrais, “minério não dá duas safras”. É hoje ou nunca.  Alea jacta est!

PS: tomara que haja terras raras em algum lugar desta vida itabirana. Nem precisa ser um pico. Basta simples cupinzeiro.

Sobre o colunista

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

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