José Sana: “Que saco! Tínhamos time e faltava campo; agora temos estádio mas falta time”

Estádio em São Sebastião do Rio Preto: “não há sequer um menino de 16 anos que sabe chutar uma bexiga de boi ou porco”

José Sana: “Que saco! Tínhamos time e faltava campo; agora temos estádio mas falta time”
Que chato, né? San Sebastian of Black River, como diz o nobre cartunista Ziraldo, era um verdadeiro manancial de craques de futebol. O esquadrão do SSFC, quando pisava em campos bem-cuidados, como de Ferros e Dores de Guanhães, mostrava técnica, arte e garra inigualáveis. Em nossa terra tinha um campo pelejado, desnivelado, cheio de buracos. Neles pisavam Líbio, Zé Vitorinho, Anão, Carlos, Godó e quase toda a família do Nhanhá, além de outros bem-aventurados. E hoje? Neste momento, temos um verdadeiro estádio, quase entregue à comunidade, mas não temos sequer 22 escassos pernas de pau para montar uma pelada ou um "ranca", como diz a boca pequena.
 
Depois de exatos oito anos de jejum futebolístico, o saldo não poderia ser outro: não há sequer um menino de 16 anos que sabe chutar uma bexiga de boi ou porco. O DER, ao abrir a rodovia para Santo Antônio do Rio Abaixo e invadir o velho e precário estádio Dr. João Rodrigues de Moura, condenou a nossa juventude a buscar outros caminhos de lazer. Oito anos representam praticamente duas gerações jogadas para escanteio, um verdadeiro crime de lesa-família, se considerarmos que as drogas estão batendo às nossas portas.
 
Hoje, finalizei uma caminhada pelas morrentas ruas de San Sebastian of Black River na Arena Dr. João Rodrigues de Moura. Recentemente, lá estive várias vezes, mas agora foi diferente porque pude tudo conhecer em detalhes. Vamos aos detalhes, portanto: 

– Gramado belíssimo, com uma notoriedade a mais: requer mais o sol do que a água, o que é novidade para todos;
– Acomodações com banco de reservas numa das laterais;
– Vestiários, inclusive um para juízes, os três com acabamento de primeiríssima qualidade, com chuveiro de água quente e espaço amplo;
– Banheiros para os torcedores, masculino e feminino, com rampa para portadores de necessidades especiais;
– Água gelada e filtrada para a torcida;
– Espaço lateral para campinho de futebol de crianças;
– Arquibancadas nas extremidades, capacidade para mais de mil torcedores (a única "navalhada" que, a meu ver ocorreu; poderiam estar nas laterais, mesmo que com espaço menor para as torcidas; além de ruins para ver jogos, uma delas está inteiramente virada para o sol da tarde.
 
Conversei com José Eugênio Gonçalves, atual secretário de Obras e responsável pela reconstrução do campo. Da conversa podem ser extraídas as seguintes conclusões;
– As estacas que cercam o estádio estão sendo pintadas de vermelho e preto, as cores do SSFC;

– O poste da Cemig que se localiza no campo será retirado nos próximos dias;
– As traves dos gols estão no local e deverão ser instaladas nesses dias;
– Será tentada junto ao Governo de MG a instalação de refletores;
– Será nomeada uma comissão para atuar na preparação da inauguração;
– O gasto total da Prefeitura no empreendimento soma aproximadamente R$ 200 mil reais;
– Além do acabamento de primeira dos vestiários (3) e dos banheiros, está sendo construído um pequeno bar e restaurante, a ser explorado por terceiros sob licitação:
– A data de inauguração ainda não foi definida.

Enquanto parte da população pensa que a inauguração está sendo protelada para ocorrer no ano que vem, por causa das eleições municipais, José Eugênio se diz com medo de marcar a data e não dar conta.
 
Bem. O campo já pode ser considerado uma das Maravilhas de São Sebastião do Rio Preto, que causa comentários em toda a região. Mas, inevitavelmente, a euforia não é muito grande porque não há jogadores nas redondezas da cidade que conheçam a bola. De qualquer maneira, acreditando na boa vontade de Zé Eugênio, embora muitos dirão que isso é demagogia, quase chorando de verdade ele me disse o seguinte:
– Quase todo dia, quando termina o expediente, me assento na arquibancada e me ponho a lembrar do Líbio, Zé Vitorinho, Iraci, Anão, Odilon e começo a chorar.
 
Acredito no choro do Zé porque, realmente, não há muito o que se fazer com o belo Estádio Dr. João Rodrigues de Moura a curto prazo. Mas obtenho uma felicidade particular: o secretário me garantiu, pela décima vez, que nunca permitirá uma cavalgada naquele tapete verde. Nem que a vaca tussa!