Jovem itabirano reflete sobre identidade, epistemicídio e potência da juventude negra
Para Pedro Vitor, o Dia da Consciência Negra é um movimento de luta contra o apagamento da identidade e do legado do povo preto
Em um Brasil onde a população negra ainda enfrenta apagamentos históricos e estruturais, o Dia da Consciência Negra ganha novos significados quando visto pela lente de algumas trajetórias individuais. Para o itabirano Pedro Vitor, o “Vitinho”, de 27 anos, o 20 de novembro é, antes de tudo, um convite à reflexão profunda sobre identidade, herança, pertencimento e resistência.
Nascido e criado em um contexto de dificuldades econômicas, Vitinho reconhece que seu letramento racial chegou tardiamente, algo comum entre jovens negros no Brasil. “Eu percebi, depois que saí do ensino médio, que eu era uma pessoa negra. E lidar com isso no dia a dia foi o que me fez entender como essa estrutura me colocava à margem e tirava possibilidades”, conta.
Ao ser questionado sobre suas referências negras, Pedro Vitor não citou grandes nomes da música, política ou academia. Sua principal inspiração está dentro de casa. “Minha avó é minha referência. Ela define tudo o que eu penso sobre raça. Como pessoa negra, como pessoa política, ela sempre será minha maior referência”, afirma. Para ele, reconhecer essa base é fundamental para compreender a própria trajetória e o papel que ocupa hoje enquanto homem negro em espaços institucionais.
Epistemicídio e a luta contra o apagamento
Pedro fala com naturalidade e firmeza sobre epistemicídio, o apagamento sistemático do conhecimento produzido por pessoas negras. Tema presente inclusive em suas poesias no Slam. “O epistemicídio fala sobre como a branquitude retira do negro coisas que ele construiu e o deixa à margem, como se não fosse parte dessa história”, explica. Para ele, o Dia da Consciência Negra é também um enfrentamento direto a esse processo.
“Quando a gente fala de consciência negra, fala de um sentimento coletivo. É um movimento de luta que atua o tempo todo para combater o apagamento da nossa identidade e do nosso legado”.
Entre tantas dimensões da cultura negra, como música, religiosidade, estética, ancestralidade, Vitinho destaca uma que, segundo ele, precisa ser cada vez mais valorizada: o conhecimento. “Desde o saber que nasce dentro de casa até o conhecimento acadêmico, tudo isso precisa ser celebrado. O conhecimento é a maior potência que a juventude negra possui”. Ele reforça que o jovem negro, muitas vezes, desconhece a própria força como sujeito político nos espaços que ocupa. Por isso, defende que o acesso ao estudo, ao debate e à construção coletiva de pensamento são passos essenciais para uma sociedade antirracista.
Hip hop como escola, sonhar como possibilidade de futuro
Em entrevista à DeFato o jovem revelou que seu processo de tomada de consciência racial teve muito a ver com o hip hop. Foi ouvindo Emicida, especialmente a música “Mandume”, que o itabirano compreendeu que a resistência negra é contínua e atravessa séculos. “Ali eu percebi que não basta ser consciente. É preciso trabalhar isso no cotidiano. O hip hop foi a porta de entrada para o meu letramento racial”, relembra.
Ao olhar para o futuro da juventude negra, Pedro não o idealiza, mas também não o enxerga como impossível. “A gente não consegue pensar no futuro se não pensar na luta de agora. Todos os dias nos são tiradas possibilidades, mas nossa maior forma de reagir é lutando, estudando, fortalecendo os movimentos negros e acreditando que é possível”.
Já no fim da entrevista, ao ser questionado sobre qual mensagem deixaria para uma criança negra que cresce hoje no Brasil, o jovem refletiu por um bom tempo. Emocionado, disse:
“Eu diria para acreditar no seu sonho. Se olhar no espelho e se achar bonita. A autoestima é o nosso maior calcanhar de Aquiles. Então, que ela consiga se enxergar para além das dificuldades daquele momento, e saiba que no futuro há possibilidade de ser alguém diferente”.
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