Lixo ou informação?
Propaganda malfeita e falta de educação das pessoas contribuem para deixar cidades mais sujas
Panfletos, folhetos e encartes são alguns mecanismos de divulgação bastante usados quando se quer atrair a atenção do público em cidades da região. De fácil manuseio, essas mídias têm custo de produção geralmente baixo e são utilizadas para atingir um grande número de pessoas em pouco tempo. Mas, pelo mau uso de quem os distribui e recebe pelas ruas, para muitos, eles têm se transformado em sinônimo de transtorno e sujeira.
Uma cena comum de se ver é a de panfletos amassados, jogados ao chão, principalmente, onde há próximo um panfleteiro realizando seu trabalho. Em Itabira, essa situação é visível. De quem é a culpa? Essa questão terá sempre a mesma resposta: da má educação.
Parabrisas de carros, em Itabira, se transformaram em suportes desse tipo de propaganda. São jogados indiscriminadamente em alpendres, varandas de residências, garagens e quintais, especialmente nos bairros mais próximos do centro da cidade.
Tanta sujeira incomoda o caminhoneiro aposentado Vicente Nonato, 69, morador do bairro 14 de Fevereiro, em Itabira. Ele sabe que a propaganda gera empregos, mas se aborrece com a atitude dos panfleteiros. “Quando eles jogam na minha garagem, tenho que ficar recolhendo tudo na hora de lavar. E quando uma correspondência é colocada na caixa de correio, ela se mistura a outros papéis inúteis, o que facilita as pessoas do lado de fora a puxarem e tirá-la de lá”, reclama.
Por inúmeras vezes, alegando fazer um favor ao meio ambiente, Nonato deixou de pegar panfletos nas ruas e já pediu a panfleteiros para não lotarem sua caixa de correspondências. “De forma educada, falei que não gostaria que colocassem”, conta
O panfleteiro Jorge Luiz Alves, 40, todos os dias, das 8h às 13h, fica parado no mesmo ponto na Av. João Pinheiro, em Itabira, com uma enorme quantidade de anúncios, estendendo a mão e oferecendo panfletos a quem passe por lá. Ele defende a sua classe afirmando que, no perímetro em que trabalha, há lixeiras, o que não inibe as pessoas que recebem o material de o jogarem no chão poucos metros à frente.
Jorge Luiz diz nunca ter recebido nenhum tipo de orientação das empresas para as quais presta serviço quanto à forma de distribuir. “Eles apenas me dão os panfletos e pedem que eu entregue tudo. Da mesma maneira que faço minha parte entregando o panfleto nas mãos das pessoas, elas deveriam fazer a delas, que é jogar o anúncio no lixo, caso não se interessem”, diz Jorge Luiz.
Envergonhada a ponto de não se permitir fotografar, a costureira Sônia Mara Pereira, 42, diz que, geralmente, joga o panfleto no chão logo depois de recebê-lo. Sua justificativa é a pressa do dia a dia. “Nem sempre existe uma lixeira próxima. Então, descartar aquilo que não interessa, parece algo quase automático para as pessoas”, diz.
Em meio a tantos equívocos, ainda há quem se preocupe com o meio ambiente e com a cidade praticando bons exemplos. É o caso do palhaço Batatinha, panfleteiro conhecido em Itabira. Atendendo a várias empresas de publicidade, em suas abordagens, entrega os materiais sempre nas mãos das pessoas. O mesmo ocorre quando estão dentro do carro. Segundo ele, se não as encontra pessoalmente, recorre à caixa de correio. “Acho errado o pessoal jogar material na rua, porque além de poluir o meio ambiente, em época de chuvas entope os bueiros”, reclama. Ele diz sempre recomendar às pessoas jogar o panfleto no lixo. Assim, realiza sua função de forma consciente.
A fiscalização
Em Itabira, o Código de Posturas proíbe a distribuição de anúncios, assim como a colocação de cartazes. Para que isso seja feito é preciso ter uma licença que obedeça às exigências do artigo 124. Ele estabelece que o pedido de licença contenha o local em que serão distribuídos, pintados ou colocados; as dimensões, inscrições do texto, composição dos dizeres, das alegorias e cores usadas e, quando for o caso, a altura compreendida entre o ponto mais baixo da saliência do anúncio e o passeio.
Segundo Valéria Cristina Gomes Duarte, chefe da Seção de Fiscalização de Posturas da Prefeitura de Itabira, na cidade é feito o que é possível para fiscalizar o estabelecido pelo código. No entanto, seria necessário um número bem maior de fiscais para que a fiscalização fosse mais rígida e eficiente. “Às vezes não é só pela falta de fiscalização, mas pela falta de consciência de quem recebe o anúncio e não o joga no lixo, ou de quem entrega, muitas vezes, querendo terminar rápido o serviço, distribuindo de forma errada”, diz Valéria.
Hoje a seção dispõe de 14 fiscais para atender as demandas previstas no Código de Posturas, elaborado na década de 1970, de acordo com a realidade da época e em vigor desde então. Em função dos grandes problemas de poluição visual da cidade, causados por afixação de cartazes e distribuição de anúncios, a Seção de Posturas determinou um fiscal exclusivo para cuidar do problema. “Acredito que a distribuição de panfletos não precisaria ser proibida pelo Código de Posturas se as pessoas que não se interessassem por eles os deixassem no lixo e, também, se os panfleteiros trabalhassem de forma consciente. A falta de respeito em Itabira já chegou ao ponto de as pessoas afixarem cartazes em nossos casarões tombados pelo Patrimônio Histórico. Apesar de tudo, a cidade já melhorou muito em relação a isso”, afirma.
Problema regional
Assim como Itabira, João Monlevade costuma sofrer com a poluição provocada pela falta de educação de algumas pessoas. A sujeira provocada por panfletos e cartazes se acumula, principalmente, nas ruas mais movimentadas do Centro Comercial. Nem a chuva consegue interromper a ação dos propagandistas. Na Avenida Getúlio Vargas, a mais movimentada de Carneirinhos, eles se multiplicam. Cartazes de diversos tamanhos são afixados em postes, muros e tapumes.
O balconista Bruno Morais, 25, morador do bairro Lourdes, pertence à parcela da população que não vê aspectos positivos nessas formas de divulgação. Ele também reclama da falta de educação dos panfleteiros. “A caixa de correio da minha casa vive sempre lotada de propagandas que não são de meu interesse. Quando não há mais espaço, eles jogam no chão”, conta. Contudo, a panfletagem nas ruas é que gera nele maior antipatia, especialmente quando recebe do mesmo pafleteiro material que já havia recebido ao longo do dia. “Acho Monlevade bastante suja por conta disso”, lamenta.
De acordo com Roseli de Souza, chefe de Fiscalização da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos da Prefeitura de João Monlevade, a Lei Municipal (nº 423, de 1976), que institui o Código de Posturas da cidade, está defasada. Há a necessidade de uma revisão, segundo ela, e o maior agravante é a desinformação da população quanto à sua existência. “Os fiscais orientam o cidadão e a empresa sobre as irregularidades, notificam e autuam. Se persistem, vira abuso e torna-se uma questão judicial”, explica. Roseli afirma que o trabalho da equipe, atualmente composta por quatro fiscais, é ineficaz para uma cidade com mais de 70 mil habitantes. “Trabalhamos no sufoco. O ideal era termos nove fiscais para atender com qualidade as demandas”, declara.
Já o balconista Bruno, apesar de se mostrar incomodado com a atitude dos panfleteiros, cometeu um deslize. Sem perceber que era observado pela reportagem, jogou no chão o panfleto que acabara de receber. Ao ser avisado do flagrante, logo se desculpou pela gafe e aceitou ser fotografado fazendo o que devia ter feito antes: jogar o lixo no lixo.
Riscos da má propaganda
De acordo com Douglas Cota, diretor-executivo da Shine On, agência de publicidade de João Monlevade, esse tipo de distribuição é mais comum em cidades do interior, devido ao perfil do mercado. “Ele não está preparado ou às vezes não tem mídias alternativas para as empresas contratantes do serviço”, explica. Por uma série de motivos, o profissional prefere não indicar essa forma de divulgação. Se, mesmo assim, o cliente opte pela panfletagem, Douglas garante que busca convencê-lo de que o encarte em jornais é a melhor estratégia. “A distribuição nas ruas não tem eficácia comprovada e não é direcionada”, justifica.
Para evitar uma repercussão negativa da sociedade, o publicitário prefere sugerir mídias digitais e alerta para a responsabilidade das empresas na questão. “Não é somente a população a culpada pela poluição. A empresa é que não deveria distribuir os panfletos e cartazes”, aconselha.
Segundo Douglas, os cartazes “lambe-lambe” são os piores no quesito poluição visual. Geralmente, têm um formato maior do que o convencional e visam a promover eventos que serão realizados em outras cidades. “Poluem os muros e ficam permanentemente. Não é uma mídia bem-vista”, critica.
Em Itabira, o diretor de criação e planejamento da CPA Propaganda, Eugênio Müller, esclarece que, para realizar os trabalhos, prefere contratar empresas de distribuição. A CPA, de acordo com o diretor, faz a orientação de roteiro, do tempo estimado e exige um check-in do trabalho executado pelos panfleteiros. Por meio de um plano de mídia, define a abrangência da distribuição de publicidade — se será estática, em semáforos ou cruzamentos, ou por disposição regional, priorizando áreas próximas a residências ou do comércio.
Segundo Müller, a agência orienta que sejam distribuídos, no máximo, dois panfletos por residência, sempre colocados nas caixas de correios. No caso de estabelecimentos comerciais, aconselham que os panfleteiros procurem o responsável para autorizar a distribuição.
De acordo com o diretor, a má execução do serviço pode, sim, provocar danos à imagem da empresa contratante. A marca comercial associada ao lixo jogado na rua contribui para que a empresa seja vista como uma poluidora da cidade. “Mas, como nosso serviço é feito da forma correta, temos o cuidado de contratar empresas idôneas para fazer essa intermediação. Temos que ter responsabilidade com as questões ambientais”, explica. Outra medida eficiente, segundo o diretor, é colocar alertas no material. Frases como “não jogue este panfleto em via pública”, podem surtir um efeito positivo, segundo ele.
Grandes empresas já adotam métodos menos agressivos de propaganda. Em Itabira é possível identificar também os bons exemplos. Na porta de entrada, alguns estabelecimentos deixam um suporte com folhetos, para que sejam retirados por quem esteja realmente interessado em consultar preços e promoções. Se eles serão ou não jogados em via pública, dependerá da consciência de cada consumidor.
Normas para propaganda
Em Itabira:
Os artigos 114, 123 e 125 da lei nº 1972 de 19 de agosto de 1978, do Código de Posturas do Município de Itabira, proíbe a afixação de faixas, cartazes, anúncios e quaisquer outros meios de publicidade e propaganda nos locais públicos e privados. A colocação dependerá de licença da Prefeitura. A multa aos infratores é de 100 UPFM (Unidade Padrão Fiscal do Município), o que equivale a R$ 201,34. No caso do panfleteiro que for pego em flagrante, ao valor da multa é acrescido 50 UPFM, totalizando R$ 100, 67.
Em João Monlevade:
A Lei Municipal nº 423, de 1976 institui o Código de Posturas. As sanções previstas são as mesmas para panfletos, cartazes e outdoors. O valor da multa é de R$ 255,00, podendo chegar a um salário mínimo, dependendo das circunstâncias.