Mãe de 4 filhos médicos se formou em Medicina aos 53 anos

A vocação de Juliana Julien Borges pela Medicina surgiu ainda criança, em Bom Jesus do Itabapoana, no interior do Rio de Janeiro

Mãe de 4 filhos médicos se formou em Medicina aos 53 anos
Juliana recebeu o diploma de medicina das mãos de dois dos seus filhos médicos- Foto: Arquivo pessoal/VIa G1

Uma história de persistência que começou ainda na juventude foi coroada de êxito aos 53 anos depois de adiado por décadas diante das circunstâncias e enfrentando a rotina de mãe e o preconceito da idade.

A vocação de Juliana Julien Borges pela Medicina surgiu ainda criança, em Bom Jesus do Itabapoana, no interior do Rio de Janeiro.

Ela brincava de hospital e cuidava de pessoas de mentira, porém, a realidade financeira da família não permitia que ela seguisse esse caminho na tenra idade.

Sem conseguir vagas em universidades públicas e sem condições de pagar a mensalidade de uma particular, ela tentou o vestibular por três anos até se cansar.

“Todos os meus amigos já estavam na faculdade e eu ainda insistindo”.

A escolha seguinte foi trilhar novos caminhos: formou-se em farmácia e bioquímica pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em seguida, em Direito, embora a medicina seguisse plena em seu sonho.

Depois da faculdade, casou-se com Wallace, médico, e juntos construíram uma família com quatro filhos: Antônio, Pedro e os gêmeos João e Vítor.

“Eu via meu marido e meus filhos estudando e pensava: ainda quero isso para mim”.

Juliana tentou o Enem algumas vezes, sem obter sucesso, e chegou a pensar que o tempo tinha passado para ela.

A virada veio em 2018, quando Juliana tomou uma das decisões mais ousadas da sua vida. Sentou-se com os filhos gêmeos, então no ensino médio, e propôs que estudassem juntos, batizando a empreitada de um projeto de retomar a medicina depois dos 40 e, mesmo sem cursinho, passou a estudar em casa com as apostilas dos filhos e uma rotina intensa de revisão. Foi o alicerce dessa preparação. Eles a ajudavam nas dúvidas e resolvendo as questões ao seu lado.

No início de 2019, veio a recompensa: a aprovação para Medicina na Universidade de Rio Verde (GO). “Quando vi meu nome na lista, chorei. Era a prova de que nunca é tarde para recomeçar”.

O começo da jornada foi repleto de inseguranças. Juliana tinha vergonha até de prestar o vestibular, chegando a usar touca  e casaco com capuz para não ser reconhecida, sentando-se ao fundo da sala, quieta, achando que não daria conta, enquanto concorria a uma vaga ao lado dos filhos de suas amigas.

Enfrentou comentários preconceituosos de colegas, como “para que estudar com essa idade?” ou “você devia estar aposentada”, e aprendeu a rir deles.

Consigo mesma, dizia que já havia vivido o suficiente para saber que o julgamento dos outros não paga suas contas nem realiza seus sonhos, e que a maturidade lhe trazia foco, paciência, empatia.

A realização do sonho teve seu preço na rotina diária. Morando em Brasília, enfrentava duas horas de deslocamento por dia a té a faculdade, indo e voltando todos os dias. El algumas noites, dormia com o livro no colo, exausta, mams encarava a aula como um presente.

O esforço trouxe um novo olhar sobre a profissão. “Eu via o paciente com mais compaixão. A maturidade traz leveza, paciência, empatia”.

Em dezembro de 2024, depois de seis anos de curso, Juliana finalmente vestiu o tão sonhado jaleco branco com o nome bordado e segurando o diploma nas mãos.

O momento ganhou significado maior  pela forma como aconteceu, com os papéis tradicionais invertidos, desta feita com os filhos também médicos, entregando o diploma. “Geralmente são os pais que fazem isso, mas comigo foi o contrário. Um ciclo que se completou”.

Juliana hoje é professora de Psiquiatria na mesma universidade em que se formou e faz pós-graduação na Santa Casa de São Paulo, além de atuar como voluntária em um projeto de saúde mental em Brasília. Juliana diz que ainda pretende fazer residência, no seu próprio tempo.

Sua trajetória ganhou alcance nas redes sociais, onde ela compartilha sua história e passou a inspirar mulheres de diferentes idades. Ela conta que recebe mensagens de mulheres de 40, 50, 60 anos dizendo que voltaram a estudar depois de conhecer seu exemplo, o que a deixa emocionada.

*Fonte: CPG