Maio Laranja para além do discurso
“Proteger a infância exige mais do que discurso. Exige coerência, coragem e mudança”

Escrevo este texto após mais uma das muitas palestras que tenho ministrado às crianças neste Maio Laranja. Se há algo que renova meu propósito, é ver o brilho nos olhos de cada uma delas ao descobrirem que seus corpos são preciosos, que têm o direito de dizer “não”, que não precisam guardar segredos que machucam e que podem viver livres de qualquer forma de violência.
A infância é o solo sobre o qual caminhamos por toda a vida — como já dizia Lia Luft — e que privilégio é poder contribuir através do meu trabalho para que esse caminho seja mais seguro, leve e cheio de dignidade para tantas crianças. Saio de cada encontro com o coração cheio, a esperança reacendida e a certeza de que vale a pena continuar.
Por outro lado, quando me deparo com as incoerências dos adultos responsáveis por essas mesmas crianças, sou tomada por uma frustração sincera: será que, de fato, vamos conseguir virar esse jogo? Será que um dia teremos infâncias verdadeiramente protegidas?
Como ensinar às crianças que elas são preciosas, que seus corpos lhes pertencem, que podem dizer “não” a toques que não lhes fazem bem, se ainda há adultos que defendem o castigo físico como forma de educação? Se um tapa contra uma mulher é agressão, e contra um animal é crueldade, por que, quando direcionado a uma criança, ainda é chamado de “correção”? Não há como ensinar o princípio da inviolabilidade do corpo e, logo em seguida, desmenti-lo na prática.
Talvez você que lê este texto já tenha rompido com essa lógica — e isso importa. Mas a verdade é que o castigo físico ainda é uma realidade comum e profundamente enraizada em nosso meio.
Um exemplo disso é uma das vivências que realizo com as crianças, em que apresento imagens de situações com toques bons e ruins. Elas assumem o papel de “guardiãs da proteção”, sinalizando com balões verdes o que é permitido e com balões vermelhos o que não pode acontecer. Elas se envolvem, vibram e acertam com segurança. Dizem “Tá tudo bem!” para gestos de afeto e, com firmeza, gritam: “Nãoooo! Eu corro para contar!” diante de situações de violação.
É lindo ver a convicção das crianças — até que surge a imagem de uma mãe dando uma chinelada em uma criança. Nesse momento, algo muda. Os olhares se cruzam, a certeza vacila, o tempo de resposta aumenta. Os balões se confundem. As opiniões se dividem. E, não raramente, os adultos presentes interferem: “Uma chinelada pode, se a criança merecer”, “Pode sim, se não machucar”. Outros se incomodam profundamente quando afirmo que aquela cena não deveria acontecer — que nenhuma criança deve apanhar — e que, no Brasil, desde existe uma lei (Lei 13.010/14) que protege crianças de qualquer forma de castigo físico.
É aqui que a incoerência se revela com mais força. Não podemos sustentar um discurso de proteção enquanto, no cotidiano, naturalizamos a violência. As crianças aprendem muito mais com o que vivenciam do que com aquilo que dizemos. Nossa prática fala mais alto que qualquer orientação.
Entristece pensar que, após uma intervenção potente de prevenção ao abuso, muitas dessas crianças voltarão para casa e poderão ser punidas com violência por um comportamento considerado inadequado. É bonito ver os feeds do Instagram repletos de postagens no Maio Laranja. Mas, se não houver revisão real das práticas que naturalizamos todos os dias, continuaremos falhando com nossas crianças.
Proteger a infância exige mais do que discurso, como no Maio Laranja. Exige coerência, coragem e mudança — começando por nós. Vamos juntos? Se fez sentido para você, compartilhe esse texto com alguém.
Sobre a colunista
Nina Magalhães é mãe de três, Terapeuta Ocupacional, mestre em Educação e Saúde e certificada como Educadora Parental e Consultora em Encorajamento. Palestrante e escritora, atua em diversos projetos em defesa da infância.
O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião da DeFato.




