Manifestações no Brasil não aconteceriam sem “geração das redes sociais”, afirmam sociólogos

Por todo o Brasil, a parceria smartphones-internet proporcionou ângulos diferentes dos acontecimentos

Manifestações no Brasil não aconteceriam sem “geração das redes sociais”, afirmam sociólogos

“Por que você demorou tanto para vir me dar os parabéns, irmão? Pensei que você não viria…”, disse Sophia, ao irmão, Wyss Neto. “Desculpe, Sophia. O irmão estava com um montão de gente, construindo um mundo melhor para você!”, explicou o garoto, que chegou atrasado à festa de aniversário. “E como foi, Wyss?”. “Foi lindo, Sophia, ninguém brigou. Foi lindo!”.

Além do significado afetivo, o diálogo entre o designer de games e animador Wyss Neto (23) e sua irmã, Sophia (4), retrata um contexto que deve figurar nos livros da história brasileira. O momento em que uma geração de jovens brasileiros levou a insatisfação expressada nas redes sociais para as ruas de todo o País.

Mais do que servir como um “muro das lamentações” virtuais, as redes sociais, smartphones e a internet tiveram poder decisivo na hora de municiar os cidadãos com informações sobre os protestos e servir como ponte entre manifestantes nas ruas e os simpatizantes em suas casas.

Manifesto por streaming

Por todo o Brasil, a parceria smartphones-internet proporcionou ângulos diferentes dos acontecimentos. Um dos exemplos claros da cobertura dos internautas é o vídeo de um policial que foi flagrado destruindo o vidro da própria viatura, durante os protestos pelo aumento das tarifas do transporte público em São Paulo.

Doutor em Sociologia e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), Victor Aquino explica o engajamento 2.0 dos brasileiros:

— É a tecnologia facilitando um objetivo comum. As pessoas ainda não tinham se reunido porque elas dependiam de outro tipo de recurso: os panfletos, aquela coisa de ficar convidado para as pessoas irem. Hoje, todo mundo está online. Todos sabem o que está rolando. Aí, com uma proposta objetiva, essa tecnologia encurtou a forma de protestar. A rede social em si não é o instigador, o incentivador das manifestações. É apenas um recurso. Só que é um recurso fantástico, que põe todo mundo em sintonia.

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Momentos de truculência dos policias militares e a depredação causada por grupos de criminosos infiltrados entre os manifestantes também foram vistos e motivaram a reflexão dos jovens brasileiros. Wyss comenta que o caráter popular dos protestos foi importante para motivar quem não tem uma causa específica, mas sonha com um Brasil melhor.

— Por anos eu não dei a mínima para política, e ainda não dou. Mas tudo o que está acontecendo só me deu um pouquinho de esperança de que essa geração não está nada perdida. Não sabia o que ia rolar, se ia voltar inteiro, mas fui dar minha cara a tapa.

O brado retumbante nas redes

Aquino aponta que há diferenças grandes entre o perfil dos manifestantes da Primavera Árabe e os brasileiros que foram às ruas, mas ambos são consequência da evolução trazida pela internet: a voz ativa que vem da rede.

Mais do que os gritos de ordem, demonstrações de patriotismo e os milhares de brasileiros cantando o Hino Nacional, a mensagem deixada pelos protestos é clara: é possível mudar o País partindo da tela de um computador. O “Reclame Aqui” feito pela população brasileira saltou prefeituras e governos estaduais e foi parar no gabinete da presidente Dilma Rousseff.

— As pessoas vão, cada vez mais, estar presentes em questões importantes, e a coisa está aumentando. Hoje você tem, em uma velocidade incrível, o retorno dos problemas na mesa do presidente.

O poder do anonimato

Sociólogo italiano e pós-doutor pela Universidade Sorbonne – Paris V, Massimo Di Felice destaca que a insatisfação nasceu nas redes sociais e adquiriu a forma da conectividade e interação como seus diferenciais. Di Felice ainda aponta que o grande escudo dos jovens brasileiros que protestam está no anonimato.

— O movimento não tem uma identidade e não poderá ser rotulado ou vencido. A grande arma do movimento é não ter identidade. O que o torna absolutamente livre, plural, heterogêneo e capaz de, a qualquer momento, ressurgir e enfrentar novas formas de contraposições. (R7)