Márcio Labruna garante que não existem caixas-pretas no Hospital Nossa Senhora das Dores
Labruna fala sobre o choque de gestão no HNSD, relembra o projeto “Itabira 2025” e critica a descontinuidade na administração pública de Itabira

O provedor do Hospital Nossa Senhora das Dores (HNSD) tem uma pergunta bastante embaraçosa para a sociedade itabirana: “Itabira gasta R$ 200 milhões por ano, na saúde pública. Esse valor é superior ao orçamento de 500 dos 853 municípios do estado de Minas Gerais. Pra onde vai esse dinheiro?”, indaga. Márcio Antônio Labruna é provedor do HNSD pela segunda vez, aos 81 anos de idade.
Ele assumiu o cargo no início deste ano, no momento mais trágico da pandemia do novo coronavírus, na cidade. Aceitou o desafio, mesmo sabendo dos riscos para a sua própria saúde: “eu não pedi e nem queria ser provedor, isso caiu no meu colo, seja o que Deus quiser”, resigna. Na entrevista a seguir, Labruna fala sobre o choque de gestão implantado na instituição hospitalar, relembra o projeto “Itabira 2025” e critica a descontinuidade na administração pública do município, ao longo do tempo.
DeFato: O senhor sempre teve uma participação social e comunitária muito intensa, em Itabira. Por exemplo, já foi presidente da Acita e provedor do Hospital Nossa Senhora das Dores, em outra oportunidade, dentre outras atividades. Mas o seu envolvimento com a política partidária sempre foi muito reduzido. Qual o real motivo desse desinteresse pela atividade política?
Márcio Antônio Labruna: Olha, eu nem sei bem o porquê. Acontece que eu nunca tive vocação para a política. Em primeiro lugar, eu sou um mau fisionomista. Muitas pessoas reclamam porque acham que eu sou meio grosso, no tratamento pessoal. Eu não sou de agradar aos outros. Eu agrado pelo meu trabalho, pela dedicação. Eu nunca agrado pela simpatia. Então, minha veia política nunca foi boa. Eu nunca ocupei um cargo público (comissionado), mas sempre gostei de ajudar quem está no poder. Querer ajudar, talvez seja essa a minha vocação.
DeFato: O senhor, quando diretor da Acita, participou da criação do projeto “Itabira 2025”, que trazia para o debate uma perspectiva de Itabira para o pós-mineração. Dentro de dez anos, aproximadamente, a Vale encerrará a exploração mineral definitivamente na cidade. Porque o “Itabira 2025” foi uma utopia, um ideal que ficou apenas no papel?
Labruna: E isso é uma coisa que eu lamento muito. Realmente, na década de 1990, nós estávamos no auge desse trabalho. A Acita estava muito bem porque o Li (Olímpio Pires Guerra), que era o presidente da instituição, se elegeu prefeito e Frederico Penido (de Alvarenga) assumiu a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico. Então, nós estávamos trabalhando o futuro de Itabira. Quando criamos o projeto (“Itabira 2025”), nós perguntávamos o seguinte: quando a Acita completar 100 anos (em 2025), como estará Itabira? Eu me lembro que Li até respondeu: “Itabira estará como nós quisermos”. Aí decidimos que Itabira seria como nós quiséssemos. Estava programado que a mineração acabaria em 2025. E nós erramos por muito pouco, pois isso acontecerá (a exaustão das minas), de acordo com a Vale, em 2028, dentro de três anos. Mas nós criamos o pilar dessa campanha (“Itabira 2025”), que previa a diversificação econômica, por meio de dois vetores: o investimento no desenvolvimento da educação e da saúde. O futuro de Itabira seria nessas duas áreas (educação e saúde). Tudo estava caminhando muito bem, mas Li e a sua equipe eram neófitos (novatos) na política e não conseguiram fazer o sucessor. Aí entrou o PT na Prefeitura. Entrou varrendo tudo que tinha, para mudar tudo em Itabira novamente. E, desse jeito, o projeto “Itabira 2025” foi ficando no esquecimento.
DeFato: Então, em sua opinião, o PT de Itabira começou a enterrar o projeto “Itabira 2025”?
Labruna: Não, não é isso. O PT simplesmente não acreditava naquilo que a gente estava fazendo. Aqui, em Itabira, existe um problema sério: quando muda a política e vem um novo prefeito, ao invés dele olhar os interesses do município, já chega avisando: “agora somos nós que estamos mandando. Tudo que foi feito, até agora, tem que ser eliminado, porque vamos fazer do nosso jeito”. Sempre foi assim. Dificilmente entra um novo prefeito falando assim: “vamos ver o que de bom o outro prefeito deixou, para a gente aproveitar e maximizar”.
DeFato: A cidade está com um novo governo há sete meses. Essa filosofia de mudar tudo — com um novo prefeito — está prevalecendo agora também?
Labruna: Olha, eu não sei se prevalece na totalidade. Mas, veja bem: quais secretários foram aproveitados da gestão passada? Será que nenhum prestava? Então, quando muda todo o secretariado, trazendo até gente de fora, começa tudo de novo. Eu, por exemplo, entrei no Hospital agora. Eu vim pra ser um provedor diferente, vou ficar aqui apenas dois anos como provedor, mas quero multiplicar esses dois anos por dez. Então, o que vou fazer? Vou ver o que tem de bom para maximizar, e vamos mudar apenas o que for necessário. E nós até já tivemos uma primeira vitória, que foi a conquista da radioterapia e eu trabalhei muito pouco para isso. Quem trabalhou mais (para conseguir a radioterapia) foi o provedor antigo. Devemos isso a ele.
DeFato: E por falar em antigo provedor, o senhor foi eleito para ocupar esse cargo, pela segunda vez. Há informações de que o antigo provedor (Vaquimar José Vaz) pretendia permanecer no cargo. Esse processo eleitoral (para provedor) foi tranquilo ou ocorreu algum trauma?
Labruna: Olha, até poderia ter sido um pouco traumático. Eu até hoje não entendi, mas, em 163 anos de história do Hospital Nossa Senhora das Dores, sempre tivemos dificuldades para achar um provedor, porque é um cargo de sacrifício, de muito trabalho e sem remuneração. O Vaquimar ficou oito anos como provedor, e queria ficar mais. Só que, nas últimas eleições, por ele ter tomado uma posição política contrária ao atual prefeito, que se elegeu, ele (Valquimar) ficou meio sem chão dentro do Hospital. E, também, ele não estava se dando muito bem com o bispo dom Marco Aurélio, que é o presidente da Irmandade (Nossa Senhora das Dores). Então, o próprio Vaquimar percebeu que não tinha condições para continuar.
DeFato: Então, a condição necessária para ocupar esse cargo é manter uma perfeita sintonia com o prefeito e o bispo? Tem que tocar na banda dos dois, é isso mesmo?
Labruna: Com certeza, é isso mesmo. Porque o bispo é quem define tudo, a última palavra da Irmandade é do bispo. E tem outra coisa: como é que você consegue administrar a saúde (a provedoria) estando divorciado do prefeito? Não tem jeito. A Prefeitura é que comanda as ações de saúde, embora o Hospital não pertença à Prefeitura. A Prefeitura não coloca dinheiro no Hospital e é bom a comunidade saber disso. Há muitos anos que a Prefeitura não coloca dinheiro no Hospital. A Prefeitura apenas é cliente. Ela paga para o Hospital administrar o pronto socorro e o Samu. A renda do Hospital, hoje, vem do SUS e dos planos de saúde.
DeFato: O senhor, por onde passa, deixa duas características bastante marcantes: a competência e a polêmica. Agora mesmo, o Hospital implanta um choque de gestão, com demissões e corte em direitos dos trabalhadores, como a insalubridade, por exemplo. Na realidade, qual é a sua atual filosofia de gestão para o Hospital Nossa Senhora das Dores?
Labruna: Hoje, o Hospital é uma empresa muito complexa, onde temos 1.400 colaboradores e 211 médicos. O Hospital é a segunda maior empresa de Itabira, atrás apenas da Vale. A princípio, me senti perdido em meio a tanta gente, então contratei uma empresa especializada em recursos humanos. Essa foi a minha primeira ação. Nós, observando o organograma do Hospital, percebemos que gastamos mais de 45% do que arrecadamos, com o pessoal. Aí, eu pensei? Será que precisa desse pessoal todo? Então, estudamos essa situação nos dois primeiros meses e concluímos que poderíamos enxugar. Aí, eliminamos alguns cargos de chefia, para que pudéssemos valorizar outras pessoas. Daí, procuramos e valorizamos alguns talentos de dentro do quadro de pessoal, e não contratamos ninguém de fora. Estamos fazendo um choque de gestão com o pessoal de dentro (do Hospital) e eliminando cargos. E, quanto à insalubridade, nós não mexemos com ela (a insalubridade). Quem tem direito à insalubridade, continua com esse direito.
DeFato: E, como funciona, na prática, esse sistema de insalubridade no Hospital Nossa Senhora das Dores?
Labruna: A insalubridade tem grau médio e grau máximo, além do grau mínimo. A gente trabalha com o grau médio. Então, todos os colaboradores do Hospital, que trabalham na linha de frente da Covid, recebe o grau máximo. No mês de março, em que a gente atravessou uma situação muito difícil dentro do Hospital, com a contaminação em massa de grande parte da população, foi preciso fortalecer outras equipes, que não estavam na linha de frente, mas que se dedicaram junto àqueles que estavam na linha de frente. Então, demos grau máximo de insalubridade também para esses colaboradores, que estavam na assistência.
DeFato: Mas, contraditoriamente ao choque de gestão, está sendo implantada uma ação de elevado custo no Hospital, que é um modelo de comunicação direcionada ao público interno. Há necessidade dessa iniciativa, em meio a uma política de choque de gestão?
Labruna: Há essa necessidade, sim. Vou dar um exemplo. Eu fiquei muito triste porque já havia 45 dias que eu estava ocupando o cargo de provedor, e fui almoçar lá dentro do Hospital. Naquele momento, vários empregados perguntaram o seguinte para outras pessoas: quem é aquele senhor (o novo provedor)? Aí, eu percebi que não existia comunicação, nem interna e nem externa. O problema da comunicação, em Itabira, é muito difícil. Uma parte da população só sabe o que o rádio fala. Nós não temos televisão e jornal, ninguém lê. Procurei, lá dentro (do Hospital), e encontrei uma funcionária, com experiência na área (de comunicação), que inclusive já trabalhou na Prefeitura. Ao mesmo tempo, percebi que havia a necessidade de uma expertise externa, e contratei profissionais com experiência em mídia social. Eu entendo que precisamos mudar a imagem do Hospital.
DeFato: Mas, afinal, o senhor vai abrir ou não a caixa-preta do Hospital?
Labruna: Mas, não existe caixa-preta. O que existe é falta de comunicação, tanto interna quanto externa. Não existe nenhum processo contra o Hospital. Tenho reuniões mensais com o Promotor de Justiça, me encontro com o Dr. Bruno (Oliveira) mensalmente. Ele está me ajudando e eu ajudando a ele, estamos trabalhando em parceria. Mas, se existe algo errado do passado, ainda vamos descobrir, porque até agora não descobrimos nada. Então, caixa-preta é falta de informação, ou atitudes de grupos de interesses, que disseminam fofocas.
DeFato: O que muitos médicos novatos questionam, desde sempre, é que uma espécie de monopólio de velhos profissionais da área impede que esses mais jovens trabalhem no Hospital. A equipe médica da instituição é a mesma há muito tempo. Essa crítica procede, existe uma panelinha no hospital?
Labruna: Olha, eu não vou dizer que é nessa intensidade, mas não vou negar que existem alguns problemas na classe médica. No nosso corpo clínico, existem maravilhosos médicos novos, inclusive filhos de antigos médicos da cidade, mas que reclamam por um espaço maior, por melhor participação. Então, hoje criamos um Conselho com cinco médicos novos, na faixa de trinta anos. Estamos trocando o diretor-técnico do Hospital e, para esse cargo, encontramos um médico antigo, que vai nos ajudar muito. O bispo quer também que o corpo clínico participe da administração hospitalar.
DeFato: Então, o seu objetivo é quebrar a panelinha?
Labruna: Com certeza. A panelinha existe em todos os lugares. Panelinha ou reserva de mercado, mas isso aí está acabando.
DeFato: Labruna, que tem 81 anos de idade, aceitou o desafio de assumir o cargo de provedor do Hospital, no momento mais dramático da pandemia, em Itabira. Essa atitude não significa muita coragem, uma excessiva ousadia?
Labruna: Eu não pedi e nem queria ser provedor, isso caiu no meu colo. Então, o que eu teria que fazer era assumir, e assumi. Eu nunca fugi de nada, seja o que Deus quiser. Não estava programado para eu ser provedor. Eu pensei no seguinte: eu tenho saúde, eu tenho conhecimento e eu tenho vontade. Então, confiei na ajuda de Deus e ele realmente me ajudou. Eu disse que o futuro de Itabira está na educação e na saúde, mas eu digo que vamos precisar rever muita coisa nessa saúde de Itabira, porque hoje a cidade tem uma saúde muito cara. Hoje, Itabira gasta R$ 200 milhões por ano, na saúde. É uma coisa para a gente se assustar. A maior parte dos municípios mineiros, mais precisamente 500, não tem esse orçamento. Onde está esse dinheiro? Eu não sei. Eu estou querendo saber pra onde vai esse dinheiro. Eu acho que ninguém, em Itabira, sabe disso profundamente.





