Mineiro quer nadar da África à Bahia
O mineiro Márcio Luiz Naves Carvalho, de 46 anos, começa, esta semana, um verdadeiro regime de engorda. Até 4 de julho, ele pretende juntar mais 34kg aos atuais 94kg, já bem distribuídos em 1,96m. Loucura? Nada disso. A atitude traz, a reboque, muita coragem, determinação e aventura. Nessa data, o bancário, estudante de direito e […]
A pouco mais de três meses da viagem, Márcio esbanja bom humor e desconhece por completo a palavra medo. “Estarei num ambiente ecologicamente equilibrado, onde a cadeia alimentar se encontra em harmonia. Sou movido pelo respeito ao mar. Não posso lutar contra as forças da natureza, tenho que estar em comunhão o tempo todo”, acredita o nadador, que, nessa ousada travessia, estará dentro de uma gaiola oval, presa à sua cintura e batizada com o nome da filha, Mariah. O equipamento, desenvolvido por ele em parceria com equipe da Escola de Design (Núcleo de Joias)/Uemg, é feito em fibra de carbono, tem aros de alumínio aeroespacial e flutuadores com 8 metros de comprimento, 1 metro de largura e 1 metro de profundidade. “Assim, ficarei protegido das ondas gigantescas e de eventuais ataques de baleias ou de tubarões brancos e leões-marinhos, animais comuns na corrente africana de Benguela”, explica.
Veja as imagens do homem-peixe
Na tarde de quarta-feira, o mineiro de Lavras, criado em São Lourenço, Sul de Minas, e residente em Belo Horizonte, mostrou que treina com afinco e, como faz habitualmente, deu suas braçadas na piscina de uma academia de ginástica perto de sua casa, no Bairro Gutierrez, na Região Oeste da capital. Nos fins de semana, ele vai além, lançando-se na Represa do Funil, perto da cidade natal. “O desafio é enorme, mas, para quem está acostumado, apenas os primeiros 15 minutos são de adaptação. Depois, é como se fosse uma caminhada normal”, compara o homem-peixe.
Corpo, alma e vontade
O sonho de cruzar o Atlântico Sul começou em 1984, quando Márcio tinha 22 anos. Na época, ficou fascinado com a saga do navegador brasileiro Amyr Klink, que cumpriu o mesmo trajeto num barco a remo. “Pensei que um dia faria o mesmo, embora a nado”, conta o mineiro, divorciado e pai de um casal. Dois anos depois, entrou de corpo, alma e vontade no projeto, fazendo pesquisas e lendo muito, até que, em outubro de 2000, começou a sentir terríveis dores de cabeça. A partir de uma bateria de exames, foi diagnosticado um tumor benigno atrás do cerebelo, que, enovelado, causou um aneurisma. No mês seguinte, com apenas 3% de chance de sobreviver à cirurgia, foi operado, numa intervenção que durou 11 horas e 40 minutos: “Se vivesse, teria sequelas, mas, graças a Deus, estou inteiro, sem qualquer problema”, diz Márcio, que, além da natação, trabalha os músculos e conta com o suporte técnico de preparador físico, nutricionista, cardiologista, psicólogo e neurologista.
Foi no pós-operatório que Márcio fortaleceu o seu projeto, que teve apoio do ídolo Klink. “Ele me aconselhou a fazer a travessia sozinho”, revela o atleta, que vai nadar, na travessia, os estilos peito, crawl e costas, numa média de 50 a 70 quilômetros por dia, de 15 a 16 horas, com pausas para alimentação. Uma roupa especial, confeccionada em náilon e neoprene, em Santa Catarina, vai protegê-lo das surpresas do mar, da chuva, da hipotermia nas águas geladas e do sol escaldante. “Um dos trajes, com duas polegadas e meia de espessura, será usado no início do percurso. A troca de roupas será gradativa, à medida que forem chegando as águas tropicais. Márcio conta que todo o equipamento usado, com exceção da roupa, é 100% mineiro.
A gaiola, que é do tipo catamarã Hobby Cat, pesa 208kg, mas com os 600kg de comida desidratada, que vão garantir consumo diário de até 15 mil calorias, 800 litros de água potável, cilindros de oxigênio, quatro baterias, radar, e outros equipamentos, vai chegar a 3 toneladas. “Vou levar um laptop para dar notícias e ser acompanhado por uma equipe em terra”, adianta. A gaiola permitirá que Márcio se alongue e possa dormir. Com parte dos recursos assegurados, Márcio busca parceiros para completar o projeto – mais informações no site www.travessiadoatlanticoanado.com . Antes de se aventurar no Atlântico Sul, o nadador solitário vai fazer duas travessias em águas brasileiras: entre Fernando de Noronha e Recife (PE), num total de 420 quilômetros, e entre Santos (SP) e Florianópolis (SC), com 580 quilômetros.